Deuses, religiões e crenças como produção cultural.

Por Sergio Viula
Com informações do Dr. Richard Carrier




Nota: Esse texto não é uma reprodução exata da palestra do Dr. Carrier. Foram usadas informações na primeira parte de sua palestra, mas ela é muito mais ampla. Espero que desfrutem dessa adaptação da palestra em inglês.




Vamos começar com a História. Todas as religiões seguem basicamente o mesmo caminho. Mesmo falando sobre religiões presentes no ocidente, é possível ver os paralelos entre estas e as outras. 

Imagine religiões como animais numa árvore genealógica, que se dividem em variados ramos. Pense na religião dessa maneira. As religiões mais antigas datam de 40 mil anos antes de Cristo. Algumas podem recuar ainda mais no tempo. De qualquer modo, em torno de 45 mil anos antes de Cristo, já se faziam rituais xamânicos e cerimônias de sepultamento - o que indica que já havia algum tipo de religião em andamento. Agora, os primeiros sacerdócios surgiram 10 mil antes de Cristo, quando vilas e pequenas cidades começaram a se estabelecer.

Então, temos 35 mil anos em que os humanos caminharam por aí com crenças religiões sem terem sacerdotes, e foram necessários oito mil anos até que Iavé (Jeová) chegasse e dissesse Eu sou o deus verdadeiro. Contudo, não o fez de modo a por fim à qualquer dúvida, uma vez que o local da suposta revelação era absolutamente insignificante e foi ignorado pelo resto do mundo. Daí, foram precisos outros mil anos depois disso para que ele parasse de negligenciar a menção desse personagem absolutamente fundamental - Jesus - e começasse a centralizar tudo nele. Será que dá para perceber a incoerência disso tudo?

Olhando para a história, essa religião baseada em Iavé, que inclui a  religião cristã, é como todas as outras.

Não faz sentido, da perspectiva de uma deidade cósmica, que ela só revelasse o evangelho no ano 40 depois de Cristo e que todas as mensagens supostamente enviadas pelos deuses aqui e ali não apresentassem coerência. Se houvesse um deus verdadeiro se revelando por meio dessas religiões, ele falaria consistentemente às pessoas, revelando o mesmo sistema de fé. Mas, o que vemos, na verdade, é o ser humano criando sistemas religiosos e inventando deuses de acordo com sua cultura local.

Olhando para o judaísmo, especificamente, uma vez que ele foi a mais influente das religiões a dominar o imaginário ocidental, e tendo em vista que tanto o cristianismo como o islamismo comungam com a religião judaica em muitos pontos, é importante dizer que entre os anos 439 e 332 a.C., a Pérsia conquistou a Judeia e que isso mudou radicalmente a face do judaísmo como sistema religioso. Portanto, afetou os três monoteísmo diretamente, cada um a seu tempo.

A Pérsia na atualidade é representada pelo Estado do Irã que, naquela época, era o centro da cultura persa. O zoroastrismo era a religião da Pérsia naquele tempo, exatamente a mesma época em que esse poderoso império conquistou os judeus, impondo-lhes a escravidão e o exílio. Diante da grandeza do império persa, os judeus começaram a importar elementos do zoroastrismo para seu sistema de crenças. 

Por exemplo, antes do exílio, não se encontrava no sistema de crença judaica nenhum dos seguintes elementos (todos eles oriundos do sistema de crenças do zoroastrismo):

1. A guerra entre o bem e o mal.

Antes do exílio judaico na Pérsia, Satanás era visto como um servo de Iavé. Toda vez que ele fazia algum mal, ele estava a serviço de deus. Ele não era um adversário no sentido de um inimigo de deus. Só depois do exílio, os judeus adotaram a ideia de que Satanás tinha sido um anjo de deus que se rebelara e fora expulso do Paraíso, tornando-se adversário de deus e o responsável por todo o mal no mundo.  Essa ideia de que o bem e o mal (Iavé e Satanás) estão em guerra é uma ideia do zoroastrismo, não do judaísmo, originalmente. E, detalhe: foi herdada pelo cristianismo, que era apenas mais uma seita judaica, e posteriormente pelo islamismo que plagiou a ambas.

2. A ideia de um juízo apocalíptico

A ideia de que a justiça de deus será realizada a partir de um evento apocalíptico é outro ensinamento oriundo do zoroastrismo. Os judeus apenas inverteram o sentido para que os persas e outros povos fossem destruídos, e não eles. A ideia de um apocalipse emq que o deus bom triunfa sobre o deus mal vem dos conquistadores persas. 

3. Um lago de fogo

Essa ideia de que um lago de fogo destruirá todos os ímpios e poupará todos os justos também é um crença do zoroastrismo, que falava sobre um rio de fogo com essa mesma finalidade. 

4. Um novo mundo

Um mundo melhor que será criado para substituir o atual - esse é outro conceito do zoroastrismo. Não era uma crença judaica original, mas foi tomada por empréstimo e encontrou seu auge no Apocalipse atribuído a João, fazendo parte de mais uma seita judaica - o cristianismo. Outras seitas judaicas também adotavam ideias semelhantes a partir da influência de Zoroastro.

5. Ressurreição dos mortos

E, finalmente, a ideia de que as pessoas serão ressuscitadas por deus para viverem num paraíso eterno. Essa é outra crença do zoroastrismo. Originalmente, os judeus não tinham qualquer conceito de paraíso para o qual as pessoas iriam depois de mortas, mas eles tomaram emprestado essa crença do zoroastrismo e transformaram-na numa crença fundamental para o judaísmo - o influenciando o cristianismo e o islamismo posteriormente. 

Quando olhamos tudo isso, vemos claramente que a religião é mera produção humana, ou seja, é produção cultural. O judaísmo, assim como todas as religiões anteriores e posteriores surgem a partir da mesma dinâmica e não têm nada de divino nem em seus rituais nem em suas escrituras ou tradições orais. 

Além disso, temos as profecias que nunca se cumpriram, como a de Zacarias 14:12-19, que viveu no final do domínio babilônico sobre Israel. Ele teria começado a profetizar no ano 520 a.C. Veja:

E esta será a praga com que o Senhor ferirá a todos os povos que guerrearam contra Jerusalém: a sua carne apodrecerá, estando eles em pé, e lhes apodrecerão os olhos nas suas órbitas, e a língua lhes apodrecerá na sua boca.

Naquele dia também acontecerá que haverá da parte do Senhor uma grande perturbação entre eles; porque cada um pegará na mão do seu próximo, e cada um levantará a mão contra o seu próximo.

E também Judá pelejará em Jerusalém, e as riquezas de todos os gentios serão ajuntadas ao redor, ouro e prata e roupas em grande abundância.

Assim será também a praga dos cavalos, dos mulos, dos camelos e dos jumentos e de todos os animais que estiverem naqueles arraiais, como foi esta praga.

E acontecerá que, todos os que restarem de todas as nações que vieram contra Jerusalém, subirão de ano em ano para adorar o Rei, o Senhor dos Exércitos, e para celebrarem a festa dos tabernáculos.

E acontecerá que, se alguma das famílias da terra não subir a Jerusalém, para adorar o Rei, o Senhor dos Exércitos, não virá sobre ela a chuva.

E, se a família dos egípcios não subir, nem vier, não virá sobre ela a chuva; virá sobre eles a praga com que o Senhor ferirá os gentios que não subirem a celebrar a festa dos tabernáculos.

Este será o castigo do pecado dos egípcios e o castigo do pecado de todas as nações que não subirem a celebrar a festa dos tabernáculos.

Nada disso jamais aconteceu. Desde  520 a.C., quando Zacarias teria começado a profetizar, passaram-se mais de 2.500 anos, mas a profecia nunca se cumpriu. Foi exatamente o oposto - Israel sendo dominado por povo após povo até ser espalhado pelo mundo. E mesmo agora que voltou a ter território nenhuma dessas profecias se cumpriu.

A promessa de castigo é sobre aqueles que não comparecessem à festa dos tabernáculos, mas em vez de serem castigados os ausentes, foi a festa dos tabernáculos que desapareceu. E ainda que alguns judeus mais radicais possam tê-la celebrado de algum modo, as outras nações nunca receberam esses castigos por não terem comparecido.


Além disso, que mal fizeram "os cavalos, os mulos, os camelos, os jumentos e todos os animais que estiverem naqueles arraiais"?

Outra profecia se encontra no livro atribuído ao profeta Malaquias, que teria sido escrito em 430 a.C. Vejamos o que ela diz.

Malaquias 4:1-3:

Porque eis que aquele dia vem ardendo como fornalha; todos os soberbos, e todos os que cometem impiedade, serão como a palha; e o dia que está para vir os abrasará, diz o SENHOR dos Exércitos, de sorte que lhes não deixará nem raiz nem ramo.

Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça, e cura trará nas suas asas; e saireis e saltareis como bezerros da estrebaria.


E pisareis os ímpios, porque se farão cinza debaixo das plantas de vossos pés, naquele dia que estou preparando, diz o Senhor dos Exércitos.


Vê-se claramente aqui a ideia de bem e de mal, influenciada pelo zoroastrismo, especialmente na promessa de que os inimigos dos judeus seriam destruídos e que esses mesmos judeus dançariam sobre suas cinzas.

De novo, a ideia do fogo como purificador do mal - ideia importada dos persas. Além disso, os judeus continuaram sendo conquistados, como já foi dito, por vários povos: persas, gregos, romanos, etc. As coisas não saíram nada parecidas com o que dizia Malaquias e seus colegas profetas.

O Cristianismo - mais uma seita judaica

Os cristãos fizeram o mesmo que o judeus, só que agora misturando elementos dos romanos e dos gregos - povos que dominavam Israel no tempo em que a seita cristã foi fundada.

Diversas religiões baseadas na ressurreição de um deus, salvador ou messias vicejavam por toda parte.

Osíris, Adônis, Rômulo, Inanna, Zalmoxis eram filhos de deus que ressuscitaram.

Sobre Inanna, que era filha de deus, existem tábuas que datam de 700 a.C. relatando que ela descera ao mundo dos mortos, fora julgada e pregada (basicamente, crucificada), sendo alimentada com a água e a comida da vida eterna depois de três dias morta. Inanna teria, então, ressuscitado dos mortos e subido à glória.

Parece familiar?

Todos esses deuses e diversos outros têm histórias semelhantes.

E mais: Todos eles muito anteriores aos evangelhos e estavam presentes nas culturas que circundavam os escritores do Novo Testamento.

Rômulo era o deus do Estado romano e por isso mesmo o mais próximo dos cristãos, que viviam sob o domínio do Império Romano. Rômulo era celebrado em peças teatrais anuais que relatavam sua paixão (sofrimento), morte e ressurreição. 

Os seguidores de Osíris, uma vez batizados, à semelhança de sua morte e ressurreição, podiam entrar na vida eterna com ele depois da morte. Parece familiar?

Zalmoxis, um deus trácio (céltico?), tem seu culto descrito por Heródoto, autor grego que todos os que pretendiam dominar a língua grega tinham que ler. Os escritores do Novo Testamento conheciam grego e muito provavelmente não aprenderam a escrever sem os textos de Heródoto. Portanto, eles sabiam sobre Zalmoxis, esse deus que havia morrido e ressuscitado para garantir vida eterna a seus seguidores.

Há deuses que oferecem vida eterna, mesmo não havendo ressuscitado. É o caso de Mitra que enfrentou a morte e se declarou vitorioso sobre ela. Ele não ressuscitou. Porém, por meio de sua paixão (sofrimento) e morte, ele garante a vida eterna a seus seguidores. Portanto, a semelhança com o cristianismo continua ali, apesar da diferença de não ter ressuscitado. 

Mas o que esses deuses mortos e ressuscitados têm em comum, inclusive aqueles que, como Mitra, não ressuscitaram? 


Semelhanças entre esses deuses:


1. Todos eles são salvadores divinos;

2. Todos eles são filhos de deus;

3. Todos eles se submetem à paixão (sofrimento);

4. Todos eles conquistam a vitória sobre a morte, compartilhando-a com seus seguidores;

5. Todos eles transmitem essa vida eterna através de um batismo, comunhão ou ambos;

6. Todos eles são anteriores ao cristianismo.


Então, o que vemos aqui é o mesmo cenário que vimos sobre o zoroastrismo e os judeus exilados na Pérsia - os cristãos tomaram emprestadas essas crenças de outras religiões.

São todas religiões produzidas a partir da cultura circundante. São sistemas fabricados pelos homens e baseados em crenças igualmente produzidas e transmitidas, com maior o menor fidelidade, a partir das interações entre os diversos grupos humanos. 

Do que se gabam os judeus, os cristãos e os muçulmanos, então, quando dizem ter a revelação final de deus?

O que temem seus seguidores, uma vez que tais crenças não passam de fábulas e mitos? 

E pensar que tem gente capaz de matar e morrer por essas fabricações humanas... 

Viver sob o medo de castigo divino ou à espera de recompensa celestial ou coisa parecida é o mais completo desperdício de energia, tempo e dinheiro. Experimente viver sem esse peso morto.

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