O que penso quando vejo a figura de Jesus sendo usada para legitimar isso ou aquilo.

Por Sergio Viula




Dia desses, eu estava assistindo o Programa Milênio (GloboNews), que geralmente traz interessantes entrevistas de gente que se destaca no mundo da literatura, da filosofia, da política, da economia e de outros campos da atuação humana, e fiquei muito bem impressionado com a fala do filósofo francês Michel Onfray, provocado pelas perguntas da jornalista Elizabeth Carvalho. 

Entre as coisas que me chamaram atenção, estava o fato de Onfray ser ateu e de afirmar que o que conhecemos de Jesus é uma construção mítica - "o mito do judeu errante", como destacou a jornalista a partir de um trecho do livro Decadência – Vida e morte do judeo-cristianismo, que já inaugura seu primeiro capítulo dizendo a que veio: 

"A civilização judaico-cristã se constrói sobre uma ficção: a de um Jesus que nunca teve uma existência a não ser alegórica, metafórica, simbólica e mitológica.”


Michel Onfray

Reproduzo abaixo um trecho da entrevista em que Michel Onfray discorre a respeito do mito Jesus. A compilação vem do site Consultor Jurídico, que gentilmente a transcreveu.



O fato desse mito ter prevalecido sobre outros, ou de ícones religiosos serem considerados como um determinado padrão a ser seguido pela multidão de fanáticos, que enchem templos, motivados pelo medo, pela culpa e pela ambição - uma tríade muito bem utilizada por aqueles que se esmeram na arte de manipular mentes - teve e continua tendo várias consequências para o pensamento e para as relações humanas. Mas antes de falar sobre como os mais diferentes tipos ou grupos de pessoas se utilizam desses mitos para atingirem seus objetivos pessoais, gostaria de fazer algumas pontuações sobre esse tripé que sustenta o fanatismo e alimenta, com muito dinheiro e poder, os que se arvoram representantes do divino.

O medo

Muita gente procura os templos religiosos por medo de que algo lhes aconteça nessa vida ou em supostas vidas futuras. Em poucas palavras, é medo do diabo (leia "A face mutante do diabo e sua utilidade para a igreja"), medo de maldição, medo de olho-grande, medo de ficar doente, medo de perder o marido ou a esposa, medo de ser castigado por alguma coisa que fez, medo de ir para o inferno ou de voltar numa futura encarnação com a cara do cão-chupando-manga, e por aí vai. 

O medo, que pode ser útil na preservação da vida diante de um possível perigo, acaba se tornando um instrumento de auto-destruição, de auto-anulação, de renúncia ao pensamento racional, aquele que deve ser baseado nas melhores evidências disponíveis. 

É como se o medo se tornasse uma doença auto-imune, ou seja, ele devia ser um mecanismo de proteção, mas acaba se tornando em dispositivo de autodestruição. Para refletir mais sobre isso, leia: "Medo: Do útil ao nocivo".

A culpa

Há quem diga que a culpa surge da noção de que não atendemos às expectativas do outro ou às nossas próprias expectativas a respeito de nós mesmos. Ela é maximizada quando potencializamos o outro na figura de um ser que vê tudo o tempo todo em todo lugar, inclusive o que pensamos antes de pensarmos. Puta merda! Será que o ser humano já foi capaz de inventar uma figura mais nociva do que essa? Muitos dirão que sim - o diabo. Não. A figura do diabo perto disso não é nada. Ele mesmo teria sido, de acordo com o mito judaico-cristão, uma vítima desse facínora (sim, porque na própria Bíblia, deus mata mais do que o diabo) incherido e debochado que é capaz de perguntar a Adão "Quem te mostrou que estavas nu? Comeste tu da árvore de que te ordenei que não comesses?" (Gênesis 3:11), apesar de saber exatamente o que ele havia feito. NOTA: Falo sobre isso como mais um mito ou uma fábula, não mais verdadeira do que as fábulas de Monteiro Lobato. Pelo contrário, considero as fábulas de Lobato muito mais úteis à boa educação dos seres humanos do que as fábulas do rabinato judeu que atribuiu a Moisés coisas que ele talvez nunca tenha sonhado escrever - se é que ele mesmo não é outro mito, ao estilo de Jesus, só que em período bem anterior. Os seres humanos não aprendem mesmo...

Pois bem, feita essa digressão, gostaria de retornar ao ponto e dizer que a culpa é uma ferramenta de manipulação das mais eficazes. Uma vez considerando-se pecador e carente de salvação, o ser humano será capaz de tudo para salvar a própria pele - inclusive atirar aviões de transporte de passageiros contra edifícios civis na esperança de herdar a vida eterna e gozar de prazeres inenarráveis por aquelas paragens. A culpa já foi usada para manipular judeus, cristãos e muçulmanos - os três maiores grupos monoteístas nos últimos séculos da história humana. 

A ambição

Mas se o medo e a culpa falharem, os manipuladores de mentes ainda têm uma carta na manga. Trata-se da ambição, esse insaciável desejo humano por mais poder, mais status, mais segurança, mais reconhecimento, e por aí vai. É por meio da manipulação da ambição de seus rebanhos que padres, pastores e gurus de todos os matizes conseguem extrair rios de dinheiro de seus seguidores. Não é porque estes sejam generosos compulsivos. Pelo contrário, é porque são ambiciosos em diversas medidas diferentes - uns mais, outros menos, mas todos ambiciosos. A ideia de semeadura e colheita é uma metáfora muito utilizada por esses aproveitadores de hipócritas: Aproveitam-se da generosidade fingida dos idiotas que acreditam que vão ganhar mais se apostarem nesse jogo. É aquela velha história de dar 10% e prosperar, ou de dar e receber. Chegaram a enfiar um versículo no Novo Testamento, entre muitos outros, para justificarem essa fraude: "Dai, e ser-vos-á dado; boa medida, recalcada, sacudida e transbordando vos deitarão no regaço..." (Lucas 6:38) Aí, o "fiel" pensa: "Quanto mais eu der, mais vou receber. Então, vale a pena dar." E tem gente dando casa, carro, o dinheiro do aluguel, a poupança que vinha fazendo para a faculdade do filho, etc. 


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MALAFAIA PEDE QUE OS FIÉIS LHE ENTREGUEM 
O DINHEIRO DE SEUS ALUGUÉIS


Só muito tempo depois é que vão perceber a armadilha na qual caíram, mas geralmente tarde demais. E tudo o que poderão fazer quando perceberem isso, será sair daquela igreja ou agremiação de qualquer outro tipo com menos do que tinham quando entraram. E mesmo quando prosperam, não é por uma relação de causa e efeito entre a oferta e a prosperidade, mas por causa de conjunturas sobre as quais nem o ofertante nem aquele que recebe a oferta têm qualquer domínio. Basta ver que a crise atual (refiro-me especificamente a 2016-2017) tem feito esses pastores estrelas que se gabam de prosperar graças à fé encerrarem alguns de seus negócios e até recorrerem a empréstimos porque a fonte que vinha das ovelhas secou. É tudo humano. Nada há de divino nisso tudo porque, no final das contas, divino não há mesmo.

Apropriando-se do mito

Agora, sim, passo a falar do que tinha em mente quando decidi escrever hoje. Prometo não me alongar mais. 

É lamentável que as pessoas recorram ao mito Jesus ou a quaisquer outros mitos desse tipo para legitimarem o que consideram importante em suas vidas ou no mundo como um todo.

É gente dizendo que Jesus foi o primeiro hippie para legitimar o movimento hippie. É gente dizendo que Jesus foi o primeiro comunista para legitimar o sistema comunista. É gente dizendo que Jesus foi o maior revolucionário para justificar esta ou aquela revolução. É gente dizendo que Jesus foi o primeiro missionário sustentado pelas ofertas do povo, visto que tinha tesoureiro (Judas) e bolsa na qual se lançavam as ofertas. E por aí vai... 

Essa semana soube de uma pastora trans que teria dito que "Jesus foi o primeiro trans". O site do canal Vice registra a fala e traz matéria sobre essa pastora (aqui) e vai muito além dessa treta que ganhou volume nas redes sociais. Mas, antes de tudo, quero deixar claro alguns pontos aqui, visto que muita gente pensa muita coisa contra ou a favor de tudo isso que não tem nada a ver com o meu modo de ver as coisas. Vamos lá!

1. Vejo pastores ou pastoras transgêneros (transexuais, travestis, de gênero não binarista, drag queens, transformistas, etc) como tão legítimos quanto pastores ou pastoras cisgêneros (aqueles que não são transgêneros, sejam eles heterossexuais, bissexuais ou homossexuais). A meu ver, qualquer pessoa reconhecida por uma congregação religiosa como sendo capaz de liderá-la pode ser consagrada ao cargo de líder religioso, seja lá que religião for. Dizer que alguém não pode liderar uma congregação porque é trans, é ridículo. Dizer que não pode liderar porque é gay, lésbica ou bissexual, é igualmente ridículo. Uma liderança independe da identidade de gênero ou da orientação sexual de uma pessoa e deve ser considerada benéfica ou maléfica, dependendo de seus fins e de seus meios, mas essa valoração varia dependendo do ponto de vista de quem julga isso. E a prova disso é a existência de tantos casos de inaptidão e até mesmo de abusos cometidos por lideranças consideradas cisgêneras e heterossexuais, muitas vezes até mesmo heteronormativas, ao ponto de serem LGBTfóbicas.

Se parece exagero, sugiro que visite e siga o blog MAIS UM PASTOR NA CADEIA. Você ficará impressionado com o número de casos de pastores presos no Brasil. Menciono abaixo apenas alguns que ocorreram esse ano:


Pastor é preso por estuprar e comprar silêncio de adolescente por cinco anos

Pastor estuprava e torturava enteada de 3 anos de idade

Pastor pagava 50 reais a menina de 11 anos em troca de sexo

Pastor é preso suspeito de estuprar as filhas no Piauí

Pastor que atuava em Seara (SC) é preso por abuso sexual no Rio Grande do Sul



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2. Não sinto a menor falta e nem vejo a menor necessidade de religião ou crença, sejam elas quais forem, e me pergunto porque tanta gente alimenta esses sistemas, gastando tempo, dinheiro, energia corporal (física/mental), quando poderiam fazer tanta coisa melhor com tudo isso. E quando digo tanta coisa melhor, é difícil encontrar alguma coisa pior do que religião, para falar a verdade. 

3. Não vejo porque uma pessoa transexual precisaria de Jesus para validar a si mesma. Na verdade, sua construção identitária é muito mais real do que o próprio suposto filho de deus. 

4. Não considero, como o fazem os fanáticos, ser uma blasfêmia dizer que Jesus foi o primeiro trans. Considero uma pobreza querer legitimar a transexualidade de quem quer que seja usando como ícone um cabra que não passa de um mito, e tentar dar uma nova conformação a esse mito para que a própria pessoa trans se sinta menos divergente do que é de fato. E bendita seja a divergência, a diferença, a diversidade, a inconformação, a subversão, a trans-forma-ação! E isso tudo é o que os manipuladores de mentes mais detestam. Eles gostam de conformação, uniformização, fascismos castradores das liberdades de ir e vir (trans-itar). Dizer que Jesus foi o primeiro trans não dá às pessoas trans mais dignidade, mas a Jesus mais primazia. Deixem o cadáver desse mito carcomido onde o encontraram e sigam adiante sem o peso de quem morreu sem jamais ter vivido. Leia mais AQUI.

5. E mesmo que Jesus tivesse existido de fato, que diferença faria se ele era isso ou aquilo? Que diferença faria se Maomé era isso ou aquilo? Que diferença faria se Oxalá era isso ou aquilo? Que diferença faria se Krishna era isso ou aquilo? E por aí vai, passando por Buda, Confúcio, Seth, Zeus, Thor, etc. Que diferença faz se eles comeram ou foram comidos, se eles se vestiam de calça ou de vestido, se eles gemiam quando gozavam ou rangiam os dentes por falta de orgasmo? Fodam-se todos eles! Não fazem a menor diferença para quem está livre da manipulação que os sacerdotes e profetas desses ícones cadavéricos fazem a partir do medo, da culpa e da ganância. 

Em resumo, uma pessoa livre de crenças religiosas não pode ser manipulada por esses líderes religiosos, metidos a donos da verdade, profetas do engano. Poderá ser perseguida ou até morta por esses ensandecidos seguidores de discursos construídos sobre o vento - aquela calculada corrente de ar que faz vibrar as pregas vocais e que produz as mais libertadoras ou as mais opressoras ferramentas já inventadas pelo homem: as palavras! E quando são escritas podem ser ainda mais perigosas. Leia: Os 10 grandes problemas da Bíblia, e veja por que ela é um dos mais nocivos livros já escritos até hoje. Não é o único, mas além de ser ruim em si mesmo, já inspirou incontáveis outros tão nocivos quanto ela mesma. Querer legitimar qualquer coisa a partir da Bíblia não é uma elevação, mas um rebaixamento, uma alienação de todo o bom senso.

TRABALHEMOS POR UM MUNDO 
NO QUAL PREDOMINEM 
A RACIONALIDADE, NÃO A CRENÇA; 
ARTE, NÃO A RELIGIÃO; 
FILOSOFIA, NÃO A TEOLOGIA; 
CIÊNCIA, NÃO O MITO; 
A LIBERDADE, NÃO O FASCISMO; 
A IGUALDADE NA DIVERSIDADE, 
NÃO A UNIFORMIZAÇÃO 
EM DETRIMENTO DA DIFERENÇA.


Esse post pode ser ouvido em forma de podcast nesse vídeo:

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