Um crente que não foi chato. Aleluia! Eles existem!


Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA




Acabo de chegar de uma jornada que faria Nárnia parecerem logo ali. Sabe aquela distância toda entre os dois mundos? Pois, então. Hoje, meu marido fez uma prova de concurso numa escola que fica a duas horas de distância de nossa casa, totalizando quatro horas de transporte entre ônibus direto (ida) e BRT (volta). Se contarmos também com as três horas que esperei do lado de fora, isso daria um total de pouco mais de 11 horas, incluindo também o caminho entre os pontos de chegada/partida dos transportes e a escola em que a prova foi aplicada.

Meu plano era ler um livro enquanto esperava, mas um jovem que estava do lado de fora puxou conversa e acabamos trocando ideia durante todo o tempo da prova. Logo de cara, ele me perguntou se éramos parentes, e eu disse que não, completando logo em seguida com a seguinte frase:

Somos parceiros, e eu vim só para dar apoio mesmo, porque sabia que seria barra chegar aqui.

Depois, perguntei por quem ele esperava ali do lado de fora. Ele me disse que era pela namorada dele, com quem já estava há três anos.

Conversamos sobre todo os tipos de coisas, inclusive sobre nossos respectivos relacionamentos. Fiquei positivamente impressionado quando ele me perguntou como nos conhecemos, se morávamos juntos, como nossas famílias se relacionavam conosco, etc.

Fui falando com aquela naturalidade e bom humor que me são típicos. Quem já proseou comigo sabe do que estou falando. :)


Ele me disse que conheceu a namorada na igreja. Descobri que se tratava de um jovem evangélico – o que fez admirá-lo ainda mais, pois ele não apenas estava se formando como analista de sistemas, mas namorava uma moça baiana, formada em enfermagem na mesma universidade que o Marcos (meu parceiro), que também é baiano, e em momento algum fez a mais leve careta ou franzimento de sobrancelha quando eu disse que somos um casal..

Fizemos uma aposta sobre quem terminaria primeiro a prova. Ganhei. Foi o Marcos. Assim que ele saiu, conversamos mais um pouco, mas não esperamos pela namorada do meu novo amigo. Afinal, ainda restava uma hora para o encerramento oficial do exame.

Depois que nos despedimos e ganhamos distância, comentei com o Marcos sobre as conversas que travamos enquanto esperávamos nossos amores do lado de fora. Queria poder ouvir o papo que deve ter rolado entre meu companheiro de espera e namorada dele, ao voltarem para casa.

O que eu mais gostei de ouvir do jovem crente foi o seguinte: as pessoas perdem muito quando julgam as outras, sem sequer conhecê-las. Ele disse isso logo depois que respondi a pergunta dele sobre como minha família encarava meu relacionamento com o Marcos, e eu disse que numa boa, apesar dos meus pais serem crentes e terem me criado problemas no começo da minha emancipação.

Honestamente, o tempo em que esperamos do lado de fora passou rápido. E isso só aconteceu por que Eliseu não é um daqueles crentes chatos que querem salvar até quem não está perdido. E isso, apesar do nome significar Deus é salvação. Mas, como eu já me achei faz tempo, Eliseu só me salvou mesmo foi do tédio da espera.

Então, fica a lição: se ser religioso não é necessariamente sinônimo de ser um chato obtuso, ateísmo também não é garantia de ser realmente um livre pensador.

De qualquer maneira, prefiro pensar que haja mais ateus desencanados do que crentes excepcionais como Eliseu. Pelo menos, conheço um bom número desses iluminados pela razão e pela empatia que caracteriza os seres humanos mais lindos do mundo!

Será que dá muito trabalho viver simplesmente de bem com a vida? Garanto que não.






Republicado em 25 de outubro de 2016 antes de figurar aqui.

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