Um corpo nunca será livre enquanto a mente ainda tiver senhores

Por Sergio Viula




Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo? (Lucas 6:46)

No dia da Consciência Negra, celebramos a libertação dos escravos no Brasil. Não nos apressemos em acreditar que foi um ato de generosidade. O Brasil foi o último país da América Latina a reconhecer o direito à liberdade da numerosa população negra, tratada como propriedade da elite branca escravocrata. A exploração cruel e desumana da força de trabalho e até da capacidade reprodutiva de negras e negros contava com abomináveis leis que só foram banidas em 1888, quando foi oficialmente assinada a Lei Áurea no Brasil. Digo oficialmente, porque até hoje há quem trabalhe como escravo nos rincões desse país. Felizmente, a lei agora está a serviço de combater tal abominação, não de legitimá-la. E todo cidadão que tome conhecimento ou suspeite de exploração de trabalho escravo deve denunciá-lo. O número 100 pode ser usado em todo o território nacional para essa denúncia.

Outro tipo de escravidão

Mas hoje eu gostaria de fazer uma outra denúncia. Eu quero denunciar a escravidão dos corpos a partir da dominação da mente. Não há mais chicotes, troncos, algemas, gargalheira, palmatória, peia, vira-mundo, libambos ou máscaras de flandres, tão prazeirosamente utilizados por feitores que se deleitavam no sofrimento dos negros escravizados em nome dos senhores de engenho, esses ‘nobres’ cristãos pais de família, cujas esposas e filhos eram mimados pelas negras que, por causa disso, nunca puderam cuidar de seus próprios filhos como convinha, porque o leite branco que seus peitos negros produziam era primeiro dos filhos dos senhores. Uma senhora escravocrata colocando suas tetas nas bocas insaciáveis de seus próprios rebentos para amamentá-los? Isso era um absurdo. As mamas das escravas é que deviam garantir a vida dos escravocratas mirins – os mesmos que torturariam seus filhos pretinhos. Mas não é essa a minha denúncia hoje, apesar de já tê-la registrado só por mencionar essas crueldades.
Provavelmente, alguns devem ter pensado que eu falaria sobre o absurdo bíblico da autorização da escravidão pelo texto considerado ‘sagrado’, mas também não é esse meu foco hoje. De qualquer modo, já que falamos nisso, vale lembrar que a Bíblia foi usada por escravocratas para justificar religiosamente o que eles provavelmente fariam por amor ao dinheiro com ou sem ela, mas a consciência desses ‘ilustríssimos’ senhores podiam contar com a aprovação e a bênção divina sobre o massacre, graças aos profetas e apóstolos bíblicos.
Vejamos alguns exemplos:
E quanto a teu escravo ou a tua escrava que tiveres, serão das nações que estão ao redor de vós; deles comprareis escravos e escravas. (Levítico 25:44)
Em outras palavras: Judeus, vocês podem comprar escravos de outros povos. O Brasil, pelas mãos dos portugueses, foi buscá-los na África.
Se alguém ferir a seu servo, ou a sua serva, com pau, e morrer debaixo da sua mão, certamente será castigado; Porém se sobreviver por um ou dois dias, não será castigado, porque é dinheiro seu. (Êxodo 21:20,21)
Em outras palavras: Torturar pode. Matar, não. Mas se morrer um ou dois dias depois, mesmo que em decorrência das torturas, não tem problema. Ficará impune.
Geralmente, se pensa que não se podia ter um escravo hebreu, ou seja, do povo judeu, mas o livro de Êxodo, o mesmo que conta a saída do povo de Israel do Egito, permite, desde que não seja pelo resto da vida. Veja:
Se comprares um servo hebreu, seis anos servirá; mas ao sétimo sairá livre, de graça. (Êxodo 21:2)
Até os sacerdotes da tribo de Levi compravam escravos:
Mas quando o sacerdote comprar alguma pessoa com o seu dinheiro, aquela comerá delas, e os nascidos na sua casa, estes comerão do seu pão. Levítico 22:11
Daí, já se vê que a Bíblia não é mesmo um livro de onde se possa extrair boa moralidade, exceto se, guiados pela razão esclarecida a partir de conhecimentos que vão muito além dela, o leitor escolher aqui e ali alguma passagem que escape dos hábitos típicos da era do bronze e da lógica dos impérios que vieram bem depois dela.

Minha denúncia sobre escravidão hoje é outra

Mas o que quero denunciar hoje é como o cristianismo continua dominando as mentes das pessoas sob o pretexto dessa relação senhor/escravo. Por isso , abri esse artigo com o versículo “Por que me chamais Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos digo? “(Lucas 6:46). Concedendo, para fins de argumentação, que Jesus tenha mesmo dito tais palavras, ele próprio estaria partindo de uma dialética escravocrata para dizer o que esperava de seus seguidores. E se isso é verdade, pode-se dizer que Jesus também reproduzia os discursos que circulavam em sua época. E isso nos faz lembrar que ele não constituía exceção a essa regra.
A passagem acima é uma repreensão aos que reconhecem seu senhorio, mas não agem como seus escravos. Seriam aqueles que dizem que ele é Senhor (a tradição a coloca em maiúscula quando atribuída a Jesus), mas não fazem o que ele diz. O raciocínio é o seguinte:
Senhor = dono de escravos. Escravos têm que fazer o que seu dono diz, caso contrário serão castigados. O castigo que esse Senhor, chamado Jesus aplicará aos que o chamavam de ‘Senhor’, mas não faziam o que ele diz, é muito pior do que todos os instrumentos de tortura juntos. É um castigo eterno – um fogo que não se apaga. Ele deixa isso bem claro nos trechos abaixo:
Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus.
Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas?
E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade. (Mateus 7:21-23)
Em outra passagem recheada de termos como servo e senhor, ele encerra dizendo qual será o destino dos que não o serviram:
Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos; (Mateus 25:41)
Mas, a lógica escravocrata no Novo Testamento não é utilizada apenas por Jesus, a quem geralmente se atribui uma doçura extraordinária (nem sempre correspondente ao que está escrito); ela também é utilizada pelos apóstolos. Paulo, por exemplo, escreve aos Coríntios, ou seja, aos cidadãos de uma cidade de cultura helênica acostumados a discutir filosofia, política e valorizar a saúde, a força e a beleza dos corpos, a seguinte exortação:
Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens. (1 Coríntios 7:23)
Em outras palavras: Não vos façais escravos dos homens, exceto se esse homem for Jesus ou um de seus apóstolos, é claro.
E o que Paulinho quer dizer com isso?
Essas palavras foram ditas num contexto em que Paulo discutia sobre relações sexuais e casamento, instando os coríntios a terem uma esposa em regime conjugal monogâmico e vitalício. Mas é também nesse capítulo que ele exorta os que se converteram sendo escravos na casa de algum rico a não procurarem a abolição, a libertação, e só a aceitassem se esta lhes fosse oferecida. A passagem é de um conformismo irritante. Tudo o que Paulo quer é que as pessoas se submetam a Cristo — o que significa sujeitar-se completamente ao comando dos líderes da igreja, inclusive dele mesmo. Fiquem quietas e obedeçam – era a ordem. Não pensem em escravidão, trabalhem (para eles e para nós). ^^ Veja o contexto imediatamente anterior ao versículo acima.
Cada um fique na vocação em que foi chamado. Foste chamado sendo servo? não te dê cuidado; e, se ainda podes ser livre, aproveita a ocasião. Porque o que é chamado pelo Senhor, sendo servo, é liberto do Senhor; e da mesma maneira também o que é chamado sendo livre, servo é de Cristo. Fostes comprados por bom preço; não vos façais servos dos homens. Irmãos, cada um fique diante de Deus no estado em que foi chamado. (1 Coríntios 7:20-24 – grifo meu)
De qualquer modo, é bom que se diga que a palavra Senhor, que significa dono de escravos e que foi romantizada pelo uso piega que os cristãos fizeram dela, aparece pelo menos 740 vezes no Novo Testamento. O termo original é de origem grega, língua em que foram escritos os quatro evangelhos canônicos e o Novo Testamento como um todo. O termo grego é κύριος (lê-se Kyrios): Senhor, ou dono de escravos.
Ora, se ele é Senhor, aqueles que o consideram assim são seus escravos. Aberta está a porta para a dominação de todo tipo de liderança inescrupulosa que simplesmente declare “Assim diz o Senhor”, e isso é o que mais fazem os líderes cristãos, especialmente os evangélicos pentecostais.

E por que é que traduziram a palavra escravo para servo no Novo Testamento?

Porque os termos escravo ou escrava — tais como são — provocam desconforto nos leitores. E devem provocar mesmo, senhoras e senhores. Esses termos são herança de uma cultura escravocrata que foi grandemente, mas não totalmente (ainda), superada por ideias iluministas, racionalistas, humanistas. Como o que está escrito não poderia ser facilmente modificado, principalmente quando se repete centenas de vezes, os tradutores optaram por suavizar o termo, trocando ‘escravo’ por ‘servo’, mas essa artimanha não escapa a uma simples verificação nos manuscritos gregos.
Em grego, a palavra  δούλος (lê-se doulos) significa escravo e tem sido traduzida por servo. Mas esperem aí! Um servo, geralmente visto como um empregado, não seria alguém sujeito a ser amarrado. Contudo, a palavra δούλος (doulos) é derivada de um verbo que indica a ação de “amarrar” (δέω,  lê-se “deu”), ou seja, exatamente um escravo, aquele que está amarrado a outro e é propriedade sua.
Não por mera coincidência, a resposta de Maria ao anjo Gabriel, quando este lhe anunciou que ela seria a mãe de Jesus por ação direta de Deus, sem intercurso sexual, foi a seguinte:”ἰδοὺ ἡ δούλη [doulé] κυρίου” (Lc 1, 38). Essa passagem é traduzida assim: Eis aqui a serva do Senhor. O correto, porém, seria: Eis aqui a escrava do Senhor.
Vejam bem, os senhores podiam fazer uso sexual de suas escravas. Seus filhos eram considerados bastardos, pois não tinham a paternidade reconhecida. Diferentemente, dos filhos ‘legítimos’, eles eram colocados a trabalhar. Muitas vezes, eram odiados pelas senhoras (as esposas dos senhores) e pelos herdeiros destes. E isso acontecia no período greco-romano e no período da escravatura no Brasil.
A reposta de Maria, apesar de também romantizada pela Igreja, segue o padrão de submissão das escravas: os senhores podiam fazer o que quisessem dos corpos delas, pois eram propriedades deles. Claro que no Brasil a Igreja Católica tentava (nem sempre conseguia) evitar isso em nome da castidade do matrimônio, mas o contexto de Maria era o greco-romano. Ela disse literalmente que o Senhor podia fazer dela como quisesse, porque ela era sua escrava.
Disse então Maria: Eis aqui a ESCRAVA do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra. E o anjo ausentou-se dela. Lucas 1:38 (os tradutores modernos colocaram a palavra serva para amaciar a dureza do texto bíblico, mas o que está dito no texto grego é escrava (ἰδοὺ ἡ δούλη [doulé] κυρίου).
A submissão ao comando de outro como sendo seu senhor, seu dono, proprietário da sua vida, mesmo que se diga que o preço para a sua compra como escravo foi o próprio sangue dele, é perigosíssimo. Especialmente, porque aqui entra um componente afetivo gerador de culpa. Se não há obediência e submissão, além de rebelde, você é ingrato. Afinal, como pode desprezar o sangue dele na cruz? E blá, blá, blá. Os padres e pastores manipuladores de mentes adoram isso.
E para não deixar esse sentimento de culpa e de dívida cair no esquecimento, existe todo um aparato. Sim, porque ele teria morrido abnegadamente por você, mas vai te mandar para o inferno eterno sem pensar duas vezes se você não se submeter totalmente a ele. Sobre o aparato da memória culpada, o catolicismo instituiu cada missa como a repetição do sacrifício de Jesus na forma da Eucaristia. Toda missa, ele é recrucificado. O pão verdadeiramente seu corpo e o vinho é verdadeiramente seu sangue. No protestantismo, há uma pequena diferença: cada culto de ceia é um lembrete desse sacrifício, não uma repetição dele. Podíamos dizer que o choro dos participantes é livre, mas nem tanto, pois até o choro é escravo de um sentimento de culpa e dívida.
Quando Jesus diz “não podeis servir a dois senhores”, ele deixa claro que exige exclusividade, mas como mortos não mandam em ninguém, quem realmente manda são seus supostos representantes. E para se certificarem de que sejam obedecidos até pelos relutantes, eles dizem que Jesus vai voltar e é bom que os encontrem servindo, ou seja, agindo como escravos. Os apóstolos foram os primeiros, mas não os únicos a perceberem isso. E o mecanismo funciona. Colocaram na boca de Jesus palavras muito convenientes, legitimando seu comando como líderes da igreja:
Quem vos ouve a vós, a mim me ouve; e quem vos rejeita a vós, a mim me rejeita; e quem a mim me rejeita, rejeita aquele que me enviou. (Lucas 10:16)
Em outras palavras: Se não fizerem o que vocês mandam (apóstolos), estão desobedecendo a mim (Jesus). Daí, a transferir isso para pastores, padres, cardeais, bispos, auto-proclamados apóstolos, missionários, diáconos, freiras, frades, etc. foi só uma questão de tempo.
E é disso que os pastores e padres vivem. Se você não obedece ao que eles dizem, você está desobedecendo ao próprio Senhor (dono de escravos) Jesus. Mas se você ouve o que eles dizem (obedece ao seu comando), então você está servindo ao Senhor (o escravocrata celeste) como bom e obediente escravo.
Existe um componente extra para manter os escravinhos de Jesus servindo pacientemente. Trata-se do seguinte:
Escravos nunca ganhavam nada por servirem bem. Jesus teria prometido recompensas depois da morte. Quão sedutor! Só que não.

Ah, se isso não bastasse para manter o escravo sempre servindo, havia o outro lado da moeda: o castigo eterno. E quanto mais improvável ou difícil de verificar for uma ameaça, maior ela tem que parecer para fazer efeito. Essa tática funciona a partir daquele pensamento: “E se for verdade?” Isso, por sua vez, leva o indivíduo a obedecer mesmo que seja só por via das dúvidas.
Tal raciocínio é o mesmo que leva um crente a dizer a um ateu: “Prefiro continuar fazendo isso, porque se você estiver certo, eu não vou sofrer nada depois da morte, mas se eu estiver certo, você está perdido.”
Aqui está o chave do poder que o inferno exerce sobre os crédulos. E essa chave é muito bem manuseada por pastores e padres para arrancar dinheiro, mão de obra grátis, votos em eleições, pressão contra projetos de lei que favoreçam os direitos civis de pessoas a quem muitos desses pastores e padres odeiam gratuitamente, entre outras coisas.
E se alguém questionar tal coisa, eles rapidamente sacam o seguinte versículo da cartola, quero dizer da Bíblia:
Vigiai, pois, porque não sabeis quando virá o senhor da casa; se à tarde, se à meia-noite, se ao cantar do galo, se pela manhã, Para que, vindo de improviso, não vos ache dormindo. (Marcos 13:35,36)
Em outras palavras, escravo tem que trabalhar. Se o dono do escravo chegar e pegá-lo dormindo, esse escravo vai se ver com ele. Isso cria um estado de alerta e ansiedade que faz qualquer cristão um pouquinho mais literalista viver sob a égide do medo. Qualquer trovoada, e o ‘fiel’ se mija todo.

A escravidão é um ‘negócio’ rentável, mas só para uma minoria

O enriquecimento fabuloso de pastores e padres a partir da dominação das mentes dessas pessoas e do controle de seus corpos é um dos mais eloquentes sinais de sua vileza, mas eles não poderiam fazer coisa alguma se os próprios ESCRAVOS não achassem que é um privilégio sustentar a ganância de seus feitores como se prestassem um serviço ao seu SENHOR (aquele judeu que supostamente os comprou como sua propriedade).
Não apenas isso. Além de perderem dinheiro, deixam de viver experiências maravilhosas e de descobrir coisas fantásticas sobre si mesmos, o mundo em que habitamos, as espécies com as quais o dividimos, o universo ao redor dele, etc. E tudo porque estão agindo com base no medo (e se for verdade), na culpa (sou pecador e preciso de perdão) ou da ganância (se eu servir a Deus, ele vai me recompensar). Em nada disso há nobreza, só um bando de escravos sujeitos a aproveitadores acreditando que se perderem sua vida, achá-la-ão. Só que não. Perdendo suas vidas, perdem tudo. E passar a vida a serviço desses feitores é perder tudo.
Como é lastimável que, em pleno século 21, tanta gente ainda viva relações abusivas com a religião sentindo-se confortável com uma dominação da qual deveriam querer se libertar imediatamente. E tudo isso numa lógica escravocrata.
Diga não aos senhores e seus feitores!
Seja livre! Seja dono de si mesmo.

Sobre isso, sugiro também a leitura desse post (basta clicar no título abaixo):

Você é dono dos seus pensamentos?

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