Sexo anal é normal?


Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA







Com essa pergunta, uma oradora que muita gente nas redes sociais acredita ser médica começa sua palestra de patologização de todo sexo que não seja rigorosamente executado pelo pênis dentro de uma vagina, sem digressões de qualquer espécie. Na verdade, ela é uma pregadora religiosa, uma oradora espírita. E, como geralmente ocorre nos círculos espíritas, ela adora revestir suas crenças religiosas e seus preconceitos infundados com uma aparente capa de cientificidade. Isso geralmente é o suficiente para que alguns trouxas caiam na conversa fiada de qualquer charlatão. Provavelmente, isso explique porque tem gente que nem é religiosa acreditando que todo esse papo furado tem algo de científico.

Para confirmar o que estou dizendo, basta acessar esse link que a ferramenta de pesquisa do Google fornece quando se coloca o nome dessa pregadora espírita: https://www.google.com.br/search?q=Dra+Anete+Guimar%C3%A3es&ie=utf-8&oe=utf-8&gws_rd=cr&ei=6O-iVaWZDoybwgTw1YqoBA#q=Dra+Anete+Guimar%C3%A3es&tbm=vid

NADA MAIS QUE RELIGIÃO CARREGADA DE PRECONCEITOS CONTRA TUDO O QUE ESCAPE DE UMA PRETENSA NORMALIDADE. E isso já pode ser visto quando ela abre seu vídeo sobre sexo anal com a pergunta “sexo anal é normal?”.

Cheguei a pensar em responder às loucuras que ela fala no vídeo, mas descobri que um blogueiro chamado André Dezão Guimarães já havia costurado uma resposta interessante em seu círculo do Google+. Coloco o texto dele logo depois dessas minhas considerações.

Antes, gostaria apenas de chamar atenção para a necessidade que algumas pessoas, supostamente livres das amarras da crença religiosa continuamente demonstram de acreditar que algo do discurso normativo das religiões sobre o corpo ainda se salva. Em outras palavras, essas pessoas adorariam encontrar respaldo científico as crenças que sobreviveram à sua saída dos círculos religiosos, especialmente aquelas que dizem respeito à corporalidade, à sexualidade, à diversidade erótico-afetiva que constitui o que chamamos de humanidade. Isso é extremamente sintomático e diz mais a respeito dessas pessoas do que qualquer coisa a que elas pretendam sancionar ou vetar, do ponto de vista da experiência afetivo-sexual humana.

Nem Deus, nem Deuses, nem a Natureza: ninguém projetou nada para nada. Não há qualquer princípio teleológico por trás dos corpos que povoam o universo, sejam estelares ou fúngicos. Não há arquiteto do universo, seja ele ou ela quem for. Os corpos surgem e ganham determinadas características, possibilidade e limitações, a partir da interação com o ambiente ao seu redor. A boca não foi feita para falar, mas fala. Muitos seres tem boca, mas não falam. Alguns emitem sons, mas nem boca têm. Ânus não foi feito para defecar, mas defeca. Muitos seres eliminam excrementos sem ânus. Vagina não foi feita para urinar, menstruar, parir, entre outras funções, mas urina, menstrua e pare. O pênis não foi feito para urinar, mas urina. Não feito para ejacular, mas ejacula. Não existe uma engenharia planejada previamente. Se alguma engenharia pode ser identificada em cada um desses órgãos e nas funções que desempenham, isso se dá a partir das múltiplas relações dos corpos com outros corpos. E por corpos, penso em tudo o que é material. E o que não é material em se tratando de evolução biológica? Assim não há intencionalidade em fazer a boca para comer, o ânus para defecar, a vagina para urinar, menstruar e parir, ou o pênis para urinar e ejacular, também não há qualquer veto a que cada um deles seja usado para o prazer sexual, seja na entrega de si mesmo(a) a outro(a) ou no desfrute de prazeres solitários, mas muito compensatórios, como a masturbação, por exemplo.

Infelizmente, muitas pessoas desenvolvem uma relação esquizofrênica com o próprio corpo em nome de uma suposta pureza de alma, salvação ou mesmo evolução do espírito. Um erro puxa o outro. Sobre essas invencionices a respeito de uma alma imortal, sugiro que assistam um vídeo que eu preparei faz um tempinho lá no Youtube.




Sugiro também uma olhada no meu post “A neurose cristã sobre a masturbação”: http://viulaateu.blogspot.com.br/2017/04/a-neurose-crista-sobre-masturbacao.html


Aproveito para ressaltar que o corpo se estraga com o tempo tanto quanto com o uso, sendo esses dois inseparáveis muitas vezes, já que viver é explorar o corpo de alguma maneira. Até o simples ato de se alimentar custa a saúde dos dentes. Então, perca as esperanças quanto a se preservar eternamente jovem e saudável. Você está morrendo todos os dias. Viva todos os dias!!! E com isso, quero dizer: coma, beba, durma, caminhe, transe, leia, dance, transe mais um pouco, limpe a casa, fique à toa… Tudo isso é maravilhoso e daqui a 50 ou 100 anos, não deixará nem memória, nem mesmo entre aqueles que tanto fiscalizam o cu alheio. 😉


Com a palavra, André Dezão Guimarães, acessado em 12/07/15 em https://plus.google.com/105876503634799053493/posts/QG9rXudCRkD:

Essa senhora, Anete Guimarães, jamais foi médica!!!(https://www.facebook.com/…/Anete-Guimar…/232516400206911). É uma oradora espírita que se apresenta, hora como parapsicóloga, hora como médica, hora como psicóloga, hora como filósofa, hora como professora… e faz palestras dogmáticas sobre sexualidade e outros temas com falsa propaganda de “comprovação científica”, sendo que não apresenta nenhuma fonte dos dados que apresenta. Não encontrei nenhum dado acadêmico dela na internet (por qual instituição ela é formada etc.), nem mesmo o Currículo Lattes, que é obrigatório para graduandos, graduados e pós-graduados, nenhum artigo científico publicado. Nenhum registro em Conselho Regional de Medicina, nem em Conselho Regional de Psicologia. É preciso ter cuidado com o que se compartilha e com o que se toma como verdade e como informação científica na internet. É sempre bom checar as fontes. Pesquisando no Google, irão encontrar outros vídeos e referências sobre essa senhora, sem nenhuma comprovação de atuação profissional ou de formação acadêmica. 

1º O sexo anal não é normal porque a mídia geral e a mídia pornográfica dizem que é normal. É normal porque é praticado em diferentes partes do mundo e em diferentes culturas desde que o mundo é mundo.

2º Sim! As mulheres sentem prazer com sexo anal, que não é necessariamente um ato sádico, violento ou humilhante. Nenhuma atividade sexual precisa ser agressiva para proporcionar prazer. Isso varia de acordo com as singularidades de cada pessoa.

3º Hoje o avanço das ciências da saúde leva a uma visão de homem/mulher para além do ponto de vista biológico: somos seres biopsicossociais e culturais e espirituais… A sexualidade é vista tanto do ponto de vista biológico e reprodutivo, como do ponto de vista legítimo do prazer, e também para além dos órgãos genitais: pênis e vagina. É possível sentir prazer de várias formas e a partir de várias partes do corpo. E isso é sexualidade e é natural.

4º A oradora, diz ter trabalhado numa enfermaria com doentes terminais de AIDS e ter escrito uma monografia sobre as doenças oportunistas em casos de imunodeficiência provocada pelo vírus HIV. A oradora afirma que todos os pacientes da enfermaria eram homossexuais e que todos tinham endocardite bacteriana (infecção cardiovascular), provocada pela suposta migração de bactérias do intestino através de ferimentos causados pela atividade do sexo anal. Contudo, como ela mesma cita, na época ainda não existia o coquetel anti-HIV. Nesta época também provavelmente não havia a cultura do uso de preservativos nem de lubrificantes adequados. Hoje, tomando o coquetel anti-HIV regularmente, os soropositivos de HIV não adquirem mais a AIDS, os doentes de AIDS recuperam a imunidade a partir da baixa da carga viral com o uso do coquetel e, portanto, é possível que resistam a infecções tão bem como um não-portador do vírus HIV.

5º Além disso, na verdade, a endocardite bacteriana pode ser adquirida por qualquer pessoa praticante ou não de sexo anal e pode ser curada com tratamento a base de antibióticos, sendo que, em alguns casos, quando há lesão em alguma válvula do coração é necessário ainda fazer uma cirurgia. Bactérias alojadas na garganta ou em outras partes do corpo podem migrar para o coração. Não há nenhum estudo científico que comprove que sexo anal provoca endocardite bacteriana. Para se ter uma ideia, fezes ressecadas em casos de prisão de ventre também causam ferimentos no reto e também no tubo intestinal, também por onde bactérias poderiam entrar na corrente sanguínea e chegar ao coração e isso provavelmente seria mais comum do que com a prática do sexo anal. Também, vivemos rodeados de fatores cancerígenos mais graves do que os possibilitados pela prática do sexo anal.

6º Hoje se tem conhecimento de várias estratégias e facilidades para a prática mais segura do sexo anal, como a higenização prévia, o uso de gel lubrificante e, claro, o uso de preservativo.

7º A prática de sexo anal, sim, pode provocar doenças, assim como o sexo convencional, assim como o consumo de açúcar, gordura, álcool e outras drogas, assim como o levar de uma mão suja contaminada com um vírus ou bactéria à boca ou aos olhos, assim como emoções fortes… Enfim, viver provoca doenças e a morte. O adoecimento e a morte fazem parte da vida, assim como os prazeres. A responsabilidade deve estar no uso dos prazeres para promover a saúde, a vida e mais prazeres até que a morte, que é certa, não chegue.



Republicado em 25 de outubro de 2016 antes de figurar aqui.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A face mutante do Diabo e sua utilidade para a igreja

Os fantasmas da (i)moralidade religiosa querendo assombrar o ensino de biologia

De onde vem essa história de que a carne é fraca?