Prazer e fundamentalismo.


Por Sergio Viula
Originalmente publicado no foradoarmario.net




(Esse texto é uma reedição de um post que escrevi em 2009)


Por Sergio Viula


Prazer é uma palavra que assusta a uns e fascina a outros. Mas é vero que todos agimos irrefletidamente de acordo com o princípio do prazer e da dor. Buscamos o que nos satisfaz e evitamos o que nos causa dor. Podemos suportar uma dor em nome de um prazer maior. Até o mais elevados atos heroicos seguem esse princípio.


Quem dera que todas as nossas relações fossem sempre assim: cheias de prazer! E não me refiro somente e nem principalmente ao sexo – o que adoro! Tudo é relação: comer, dormir, escrever, ler, conversar, respirar, amar, odiar, e assim por diante. É relação entre corpos: o meu e os dos outros, sejam vivos ou brutos. Mantenha isso em mente enquanto estiver lendo esse post.


Então, vejamos…


Há muita gente neurótica nesse mundo – disso não há dúvida. Mas é provável que nenhuma neurose seja pior do que a do fundamentalista – eleve-se tudo isso à milésima potência quando esse fundamentalista for um fanático dos três maiores monoteísmos (judaísmo, cristianismo, islamismo).


Todo ser humano é um agente. Mas é agente, porque tudo é relação. Muito dessas relações passa pela carência. O agente é carente porque é corpo, e como todo corpo mantém diversas relações com diversos outros corpos ao seu redor.


É óbvio que os corpos afetam-se mutuamente de muitas maneiras. O mais surpreendente é como pode haver gente que ainda não percebeu que o que despreza em si, é, no final das contas, simplesmente ele mesmo. É certo que fazemos escolhas, mas quem disse que estas são inteiramente livres? Há sempre algum tipo de limitação imposta pelo próprio corpo ou por outros corpos que se relacionam com ele em alguma intensidade.


Um exemplo muito elementar: sinto fome – isso é uma manifestação do corpo, fruto de uma carência básica: a necessidade de energia. Penso que posso comer o que quiser, mas isso não é verdade. Ingiro necessariamente aquilo que o corpo deseja e que o corpo suporta. Pedra não é alimento. Sua composição não combina com a minha. A relação é péssima.


Isso quer dizer que há limitações impostas pela própria constituição dos corpos. Neste caso, eu e a pedra. Mas isso se estende a tudo que entra em relação comigo.


Existem fantásticas relações de necessidade, potência e limite em todas as coisas e entre todas elas.


Destes dois despretensiosos exemplos, os leitores mais argutos podem deduzir tudo o mais: somos corpo(s). Como poderíamos ser desprezadores do corpo sem que fôssemos, por definição, desprezadores da vida – ou o inverso, se preferirem?


Por isso, o fanático religioso e outros ultraconservadores odeiam tudo o que se relaciona com o corpo. Também odeiam, talvez por inveja e ressentimento contra si mesmos, todo e qualquer outro ser humano cuja relação com o corpo não seja conflituosa como a deles. Chegam a atribuir virtude ao conflito, citando coisas como o que Paulo escreveu em I Coríntios 9:27:


“Mas esmurro meu corpo e faço dele meu escravo, para que, depois de ter pregado aos outros, eu mesmo não venha a ser reprovado.”


Só não percebe que já está enganado na premissa de que precisa “esmurrar o corpo”, eufemismo para desprezar, renegar, privar de prazer.


Esta semana recebi umas mensagens que me fizeram pensar bastante nessa questão. Não há como não enxergar que as crenças em vidas futuras, sejam castigos ou recompensas, passam por esse desprezo ao corpo, e o alimentam. Tanto desprezam o próprio corpo que acabam por desprezar tudo o que o excita, incita ou estimula de algum modo que não passe por um estupidificador processo de sublimação. Desprezam o mundo, a vida, e tudo o que remeta à alegria de viver no único mundo a que terão acesso: este aqui!


Há certas passagens que valem a citação. Há uma em que Gilles Deleuze fala sobre Espinosa que merece destaque nesse artigo.


Para quem ainda não ouviu falar de Espinosa ou não conhece sua obra, pode-se dizer simplesmente que ele privilegiou – com seu pensamento – a natureza, o corpo, a vida! Aí vai um recorte do que disse Gilles Deleuze sobre Espinosa:


“Quando Espinosa diz: o espantoso é o corpo… não sabemos ainda o que pode um corpo… Com isso ele não quer fazer do corpo um modelo, e da alma uma simples dependência do corpo. O seu empreendimento é mais sutil. Quer abater a pseudo-superioridade da alma sobre o corpo. Há a alma e o corpo, e ambos exprimem uma única e mesma coisa: um atributo do corpo é também uma expressão da alma (a velocidade, por exemplo). Do mesmo modo que vocês não sabem o que pode um corpo, assim há muitas coisas no corpo que não conhecem, que ultrapassam o vosso conhecimento, e analogamente há na alma muitas coisas que ultrapassam a vossa consciência. Eis a questão: o que é que pode um corpo? de que afetos é que são capazes? Experimentem, mas é necessária muita prudência. Vivemos num mundo muito desagradável, onde não somente as pessoas mas também os poderes estabelecidos têm interesse em nos comunicar afetos tristes. A tristeza, e os afetos tristes, são todos aqueles que diminuem a nossa potência de agir. Os poderes estabelecidos precisam de nossas tristezas para fazer de nós escravos. O tirano, o padre, os ladrões de almas, necessitam de nos persuadir de que a vida é dura e pesada. Os poderes precisam menos de nos reprimir do que de nos angustiar, ou, como diz Virgílio, de administrar e organizar os nossos pequenos e íntimos terrores. A longa lamentação universal sobre a vida: a falta-de-ser que é a vida… Podemos dizer “dancemos” que nem por isso ficamos alegres. Podemos dizer “que desgraça é a morte”, mas era preciso que tivéssemos vivido para termos algo a perder. Os doentes, tanto da alma como do corpo, não nos darão descanso, são vampiros, enquanto não nos tiverem comunicado a sua neurose e a sua angústia, a sua querida castração, o ressentimento contra a vida, o seu imundo contágio. Tudo é uma questão de sangue. Não é fácil ser um homem livre: fugir da peste, organizar os encontros, aumentar a potência de agir, afetar-se de alegria, multiplicar os afetos que exprimem ou encerram um máximo de afirmação. Fazer do corpo uma potência que não se reduz ao organismo, fazer do pensamento uma potência que não se reduz à consciência. (…) a Alma e o Corpo, a alma não está em cima nem em baixo, está “com”, está na estrada, exposta a todos os contatos, encontros, em companhia daqueles que seguem o mesmo caminho, “sentir com eles, captar a vibração da sua alma e da sua carne ao passar”, o contrário de uma moral de salão – ensinar a alma a viver sua vida, não a salvá-la” (Deleuze, Gilles; Parnet Claire: Diálogos, Relógio D’água Editores, Lisboa, 2004, p. 79-81)


Portanto, meus amigos e minhas amigas, só existe um remédio para a neurose dos fundamentalistas: entrar em contato e sintonia com o próprio corpo. Não temer a alegria. Fundamentalistas riem pouquíssimo (quando riem!).


A alegria é a própria força da vida! Como me alegro em ter deixado as amarras existenciais que me atavam à bigorna dos dogmas e arrastavam-me para um poço existencial sem fundo. Que gostoso respirar livremente. Livremente aqui não significa sem contingências, mas na própria relação com elas, ora forçando os limites, ora conformando-me a eles, numa relação sustentável e que enriquece a própria vida com experiências que seriam impossíveis sem essa elasticidade, sem essa flexibilidade. Diferentemente do fundamentalista, que se engessa com medo das mudanças, que odeia toda variação, que treme diante de qualquer dúvida, pois quer ter certeza, mesmo que não haja qualquer evidência. Acredita que aquilo que aprendeu – não importa quão errado esteja (ele nem pensa nessa possibilidade) – jamais poderá mudar sem que alguma catástrofe universal se abata sobre ele. Quando vê que outros têm mobilidade, flexibilidade, que agem de acordo com sua própria potência, o fundamentalista jura e repete para si mesmo que algum dia um juízo sobrenatural virá sobre esses rebeldes. Só não percebe que ele mesmo é que está em rebelião contra si mesmo, contra sua própria natureza, contra a constituição de seu corpo e contra as relações que poderiam aumentar sua potência de agir, de existir. Assim perde sua própria vida, tentando salvá-la, pois não vive de fato. Apenas existe.


Abrir-se às diversas possibilidades do próprio corpo e dos demais corpos ao seu redor pode demandar uma capacidade muito grande de senso crítico e coragem para agir de modo diferente do que tradicionalmente acreditou ser verdadeiro, mas nada se compara à alegria de viver assim.


Para Espinosa, corpo e alma são um só. Não existe essa entidade supostamente imortal, independente, supostamente superior ao que é material, que os supersticiosos chamam de alma. Alma é o corpo pensando, sentindo, desejando, lembrando.


Muitos corpos têm sido sacrificados em nome da manutenção e aperfeiçoamento do meu e do seu: animais, vegetais, minerais, etc. Mas chegará o dia em que os nossos corpos também serão oferecidos à manutenção e ao aperfeiçoamento de outros. Talvez meros micróbios. Isso também é relação, mas até que está relação finalmente se realize – e vai se realizar, porque nenhum de nós viverá para sempre – temos a oportunidade de experimentar outras e deliciosas relações que aumentam nossa potência de agir.


Ora com prudência, ora com ousadia, vivamos tudo o que há para viver. Não deixemos que aqueles que vivenciam paixões de morte nos contagiem com sua morbidez existencial. O antídoto para isso é a alegria – essa paixão de vida; esse elixir que fortalece nosso ser como nenhum outro.


Que corpos se relacionam conosco produzindo alegria? Isso depende das características de cada um. Temos algumas em comum, donde nos é possível falar em corpo humano, mente humana, paixões humanas, mas cada um de nós carrega em si mesmo suas próprias especificidades. Viva de acordo com as suas e não se espante demasiadamente com a percepção de que as dos outros podem ser diametralmente opostas. Qualquer tentativa de uniformizar as variações que caracterizam a Natureza seria perda de tempo e diminuição da potência de agir, da força de existir, ou seja, o mesmo uma prévia da morte. Viver é justamente ser si mesmo, mantendo relações saudáveis com tudo o que aumenta sua alegria, ou seja, com corpos que interagem bem com esse corpo que é você.


************************


Nota: Tanto Espinosa, como Espinoza ou ainda Spinoza são grafias usadas para nomear o filósofo holandês que viveu no século XVII. Não há um consenso sobre qual seria a melhor.



——————————————————


* Sergio Viula foi pastor batista, é formado em filosofia, administrador do blog Fora do Armário www.foradoarmario.net, autor de Em Busca de Mim Mesmo, livro que fala sobre religião, sexualidade e ateísmo, é membro da Liga Humanista Secular do Brasil, e pode ser encontrado no Facebook em:https://www.facebook.com/sergio.viula




Republicado em 25 de outubro de 2016 antes de figurar aqui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A face mutante do Diabo e sua utilidade para a igreja

Os fantasmas da (i)moralidade religiosa querendo assombrar o ensino de biologia

O tempo e o senso comum