PÁSCOA: A festa do coelho et cetera


A festa do coelho et cetera


Por Sergio Viula





Minha gente, que roubo estão os ovos de Páscoa! Como podem ser tão abusadas essas fábricas de chocolate e seus revendedores? Tem ovo mixuruca de 50 reais. Você abre o pacote, tira o suporte de plástico que mantém o ovo em pé, e só sobra uma fina casca de chocolate, que poderia custar uns cinco ou seis reais, caso fosse transformada em barra. Tudo isso é uma descarada exorbitância!

Mas, claro. A famosa lei da oferta e da procura, associada aos quase monopólios ou verdadeiros cartéis no mercado de chocolates faz com que essa mistura de cacau custe o mesmo que ouro. Só que não vale nada se comparada ao precioso metal e o que se pode fazer dele.

Os mais religiosos dirão: “Ah, mas chocolate não tem nada a ver com a Páscoa. Ela tem a ver com a morte e ressurreição de Jesus.”



Eu direi: Seimmm, mas você já parou para pensar que a Páscoa cristã é uma atualização da Páscoa judaica – a original?

Sim, porque a Páscoa era uma festa exclusivamente judaica. Tinha a ver com a suposta saída do povo de Israel das terras do Egito. Digo suposta, porque não há prova alguma de que os judeus tenham vivido no Egito. Supreso(a)? Não fique. Sabe quais são os únicos textos antigos que afirmam que os judeus viveram no Egito? Acertou! Os textos bíblicos, ou sejam, os textos religiosos dos próprios judeus.

Não há nada de romântico na Páscoa em si. Páscoa é a noite da passagem. E não é a passagem dos judeus para fora do Egito, como pensa o cristão mediano. Era a passagem de um anjo assassino, enviado por deus, sobre a casa dos judeus sem ferir o primeiro filho homem de cada família hebreia. A condição para isso? Marcar os umbrais das portas com sangue de um cordeiro macho sem defeito. Imagina quantos cordeiros foram sacrificados só para fazer essa marcação. A própria Bíblia diz que deus conhece os seus, mas se o anjo não visse a borra de sangue na porta, ele mataria obstinadamente o coitado do primeiro filho daquela família, fosse qual fosse sua idade.


 
Perto do assassino serial chamado anjo da morte no Egito, Chucky é ‘café pequeno’.




Todos os primogênitos dos egípcios teriam sido assassinados naquela noite. A Bíblia diz que o anjo não passou por sobre aquelas casas, mas entrou nelas e feriu de morte o desafortunado que nasceu macho e teve o azar de ser o primeiro.

Se assumirmos que trata-se de uma história real, a coisa fica bem constrangedora para o caráter de um deus supostamente justo e amoroso. Afinal, um ato desses não é justo. Muito menos, amoroso. E isso sob qualquer ponto de vista.

Se aceitarmos que trata-se de uma fabricação, ainda assim a Páscoa continua atrelada à chacina de criancinhas, jovens, adultos e velhos egípcios que deram o azar de serem homens e os primeiros da linhagem de seus pais.

Mas, não pára aí.

O Novo Testamento, essa releitura do judaísmo ortodoxo para a incluir pessoas de todos os povos – aqueles que outrora os próprios judeus consideravam imundos – vai complicar as coisas um pouco mais. Agora, não é o filho de Faraó que é morto por um anjo sanguinário sob as ordens de um deus que deixa qualquer assassino em série no chinelo, pelo menos no suposto episódio da noite da Páscoa no Egito. Não se trata mais do primogênito de Faraó, mas o unigênito de deus. E não é um anjo que o mata, são os homens. Ele também não é egípcio ou romano (os dominadores da vez), mas um judeu entregue à morte por seus próprios compatriotas. Se os judeus queriam que crêssemos que o sangue dos egípcios foi a última cartada para que Faraó liberasse a saída dos judeus, os cristãos querem nos fazer crer que o sangue de Jesus foi o preço para a nossa libertação.

Mas, espere um minuto…

Que mania é essa de se pensar escravo precisando ser liberto? Minha gente, vocês nasceram e morrerão livres! Tão livres que podem até escolher se submeter a um ou mais senhores. Jesus, querendo dedicação exclusiva, usa a seguinte lógica:

Mateus 6:24: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou será leal a um e desprezará o outro.”

Essa declaração parte do princípio de que teremos que servir a alguém. Ou servimos a deus ou às riquezas – essa é a continuação do versículo. Só que não temos que servir a NINGUÉM. Podemos nos realizar plenamente dando curso ao que somos capazes de fazer a partir de nossas próprias capacidades, respeitando nossas próprias limitações, sem nos conformarmos com contingências que podem ser superadas a partir de nosso potencial criativo.




Sim, é fantástica a nossa capacidade de amar, criar, desfrutar de inúmeros prazeres produzidos por intrincadas interações neurais a partir de minuciosos e espetaculares processos bioquímicos, a partir das interações estabelecidas entre nossos corpos e outros. E isso em diversos níveis ou direções: desde a alegria de degustar nosso alimento favorito, seja ele comida ou bebida, até uma simples caminhada por um arvoredo, ou fazer amor gostoso com quem a gente deseja.

Ora, nossa felicidade repousa exatamente em realizar todo o nosso potencial a cada momento vivido e com cada ente com o qual interagimos, seja ele mineral, vegetal, animal ou humano (este não deixando de ser animal também), seja no plano virtual ou no real, no abstrato ou no concreto.

Então, foi uma boa coisa que tenham colocado coelhos e ovos de Páscoa no meio dessas carnificinas que os sacerdotes nos apresentaram como sagradas – no Egito e em Jerusalém – antes mesmo que aprendêssemos a falar.

Mas, façamos jus aos fatos: o coelho e os ovos também faziam alusão à fecundidade que se esperava da terra na primavera, celebrada justamente nessa época nos países nórdicos, onde o inverno lhes parecia a morte do planeta e a primavera, a renovação da vida. Alguns desses povos, porém, nem imaginavam que as estações fossem invertidas de um hemisfério para o outro.

Nenhum problema em comer ovos de chocolate e outras guloseimas feitas com cacau, exceto pelo preço. Gente, dá para comprar um quilo de bacalhau ao preço de certos ovos. E estou sendo modesto, porque tem ovos custando mais do que essa faixa de 50 a 80 reais. Só que esses ovos pesam apenas 150 gramas, ou seja, 15% do que se poderia comprar daquela fina iguaria dos mares do norte.


 
Procissão do Senhor morto.


Bem, penso que nós, ateus, devemos respeitar as pessoas religiosas em seus ritos pascais. Não as incomodemos. Que acendam suas velas, façam suas orações, rezem suas missas, tomem suas eucaristias/ceias, façam suas novenas e procissões. Não há problema algum. Façamos o possível, porém, para aproveitarmos o feriado ao nosso modo. Há muitas coisas ótimas que podemos fazer: de leituras e passeios ao mais ‘caliente’ amor com a pessoa que amamos.

 
Páscoa judaica


Pessoalmente, essa Páscoa vai ser especialíssima para mim. Entre o carnaval e a Páscoa, passei uma verdadeira quaresma longe do meu amor, mas ele chega na sexta-feira da paixão.

Apesar da coincidência no termo ‘paixão’, a semântica é bem diferente. No caso da sexta-feira da crucificação de Jesus, paixão quer dizer sofrimento. Portanto, sexta-feira da paixão é literalmente a sexta-feira do suplício. Paixão aqui quer dizer sofrimento, dores.

Porém, no meu caso, paixão significa outra coisa. Recorro ao dicionário léxico de português online para esclarecer seu sentido:

“Sentimento profundo e intenso que possui a capacidade de alterar o comportamento, o pensamento, a postura, entre outras; amor, carinho, alegria ou desejo demonstrado de forma extremista.”

Por isso, a sexta-feira, 25 de março de 2016, será da paixão para mim num sentido extremamente feliz: meu amor vem de Belo Horizonte para finalmente comungarmos do que a vida nos oferecer agora e doravante, bem como do que conseguimos construir a partir do que ela nos apresentar. Não será só mais um feriado vivido no afã de aproveitar o máximo, porque logo acabará. Será a inauguração de uma nova fase. E não será nem preciso esperar domingo para falar em renovação da vida. A renovação será na sexta-feira mesmo, porque o amor pede passagem.

Mas e se alguém não está apaixonado? Fazer o quê?

Faça algo que você curta. Se ficar só nisso, já será lucro. Mas ainda pode ser que o amor te surpreenda. Vai que…



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SUGESTÃO DE LEITURA:
O 10 GRANDES PROBLEMAS DA BÍBLIA: 




Publicado originalmente em 20 de março de 2016.

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