Países mais ateus do mundo: Basta dizer não creio?

Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA

Foto: estátua de Cristo na Polônia é maior que a do Rio

O site Mundo Estranho, que pertence à Editora Abril, publicou uma matéria sobre o ateísmo no mundo, sob o título “Qual é o país mais ateu do mundo?” 
Copio abaixo um resumo apresentado pelo próprio site:
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Crer ou não crer? – Os números da religião e do ateísmo no mundo

Suécia: 85%
  • População: 8,9 milhões
  • Ateus: 7,6 milhões
Vietnã: 81%
  • População: 82,6 milhões
  • Ateus: 66,9 milhões
O budismo e o taoísmo, religiões comuns por lá, são vistos como uma tradição, e não crença.
Dinamarca: 80%
  • População: 5,4 milhões
  • Ateus: 4,3 milhões
Um levantamento da ONU aponta que países com boa taxa de alfabetização tendem a ser mais descrentes.
Noruega: 72%
  • População:4,5 milhões
  • Ateus: 3,2 milhões
Japão: 65%
  • População: 127 milhões
  • Ateus:82 milhões
Em 2008, o pesquisador britânico Richard Lynn concluiu que países com alto QI são mais ateus. É o caso da população japonesa, que mantém a média 105 – uma das mais altas já registradas.
República Tcheca: 61%
  • População: 10 milhões
  • Ateus: 6,2 milhões
Finlândia: 60%
  • População: 5,2 milhões
  • Ateus: 3,1 milhões
França: 54%
  • População: 60,4 milhões
  • Ateus: 32,6 milhões
Coreia do Sul: 52%
  • População: 48,5 milhões
  • Ateus: 25,2 milhões
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REFLEXÃO DE SERGIO VIULA
 
                    Vê-se pelo quadro que os países, conquanto apresentem maioria de ateus em sua população, não são necessariamente igualmente emancipados quanto às visões tradicionalmente sustentadas pelas religiões. Suas posturas diante de diversas questões que afetam a vida humana, seja em seu plano individual ou coletivo, variam entre o nada tradicional e o extremamente influenciado pela tradição. Os suecos, por exemplo, respeitam os direitos humanos e valorizam as liberdades civis num nível muito mais intenso e amplo que o Vietnã, por exemplo, onde a população vive sob intenso controle governamental, inclusive em temas de foro privado.

                    A França, por exemplo, enfrentou forte oposição da parcela católica de sua população quando decidiu regulamentar os casamento para todas as pessoas, independentemente do sexo dos cônjuges. Venceu a legislação inclusiva, justa, igualitária, mas foi preciso empenho da parte da presidência daquela república em manter-se fiel à laicidade que os franceses vêm construindo ao longo dos últimos séculos. Venceu o laicismo. Casamento igualitário aprovado.

                    O que quero dizer com isso, então? Quero dizer que é fantástico ver que a maioria dos países com maior número de ateus é a dos que apresentam níveis de educação e bem-estar social mais elevados.Porém, quero chamar atenção para o fato de que não basta ser ateu. Dependendo da sociedade em que o ateu vive, ele precisa ir além do não crer. Ele precisa assumir uma postura subversiva, revolucionária. Deixo claro que não me refiro ao uso de armas e facções paramilitares. SUBVERTER O QUE ESTÁ ESTABELECIDO COMO TRADIÇÃO OU VERDADE INQUESTIONÁVEL SEM O USO DE ARMAS. Nossa estratégia tem que ser a de construir e promover CONHECIMENTO e manter um compromisso incondicional com a TRANSFORMAÇÃO, não com a CONSERVAÇÃO do que tradicionalmente é pensado, dito e feito em sociedades dominadas por normatividades nascidas de religiões totalitárias e que pretende controlar e ditar o que se deve pensar e como se deve viver em todas as perspectivas que a existência pode comportar.

                    É preciso ser subversivo, reformador, transformador.Precisamos ser parteiras e parteiros de uma cosmovisão que suplante tudo que veio sendo reforçado com base numa visão judaico-cristã em nossa sociedade, seja em termos de valores morais, interpretações da realidade, relações de toda sorte entre seres humanos e entre estes e a natureza que os rodeia. Incluem-se aqui também os modos de subjetivação e a pluralidade das subjetividades, o Direito, a Política, a Economia, a produção de conhecimento, as relações internacionais, e por aí vai.

                    Gente que conserva o que a neurose judaico-cristã produziu, por mais que diga ser ateia, continua agindo como um crente, com a diferença de que não ora. Isso é muito pouco. Pode ser até melhor deixar que os religiosos continuem fazendo isso, porque ver ateus irrefletidamente repetindo tais discursos e comportamentos, sujeitados a uma mimética do absurdo, é lastimável. E isso para não dizer profundamente prejudicial para qualquer movimento ateu que se preze.

                    Ateu que assina embaixo de coisas ditas por fundamentalistas e conservadores contra qualquer tentativa de romper com as subjugações, ou seja, com as subalternidades sacralizadas de muitos modos é mais religioso do que pensa, mesmo que despreze a cabeça do cadáver, ainda conserva o corpo. Diz que despreza deuses e qualquer tentativa metafísica de explicar a realidade, mas prescreve ou preserva como verdadeiros e mandatórios pensamentos e comportamentos que não se sustentam sem aqueles mesmos deuses e aquela(s) mesma(s) metafísica(s) que historicamente assombra o pensamento humano.

                    Para não esticar muito, como é que eu poderia resumir o que quero dizer numa frase? Não poderia. Mas vou tentar:

“Seja ateu em todos os sentidos, caso contrário não faz sentido ser ateu.” (Sergio Viula)

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