Os armários tremem!


Por Sergio Viula

Originalmente publicado no AASA




OS ARMÁRIOS TREMEM

Lembram daquele meu post “Obscurantistas perdem”? Pois é, eles perderam outra essa semana.


Sem querer, um pastoreco de terceira que passa a vida na primeira classe, graças à tolice dos que lhe sustentam os caprichos mais megalomaníacos, acabou se tornando o mais novo garoto propaganda d’O Boticário. A campanha do Dia dos Namorados (2015), que poderia não ter recebido o menor destaque na arena pública, tornou-se um dos mais estrondosos sucessos de marketing da história da marca. E por quê? Porque odito cujo convocou um boicote que foi um tiro no próprio pé. Ele não contava que muita gente inteligente, esclarecida e ciente do que ele e seus amiguinhos fundamentalistas pretendem, faria exatamente o oposto daquilo que ele conclamava seu ‘povinho’ a fazer. Ele disse: “Boicotem!”. Mas essas pessoas lindas foram lá e compraram. E por quê? Porque sabem que gente neurótica como ele, quando levada a sério, é uma ameaça para dois princípios humanistas fundamentais: o da liberdade e o da dignidade humanas. Resumo da ópera: os obscurantistas perderam de novo.

Ah, se O Boticário lucrou com isso? Sim, felizmente, porque empresas que agem corretamente devem lucrar mesmo e inspirar outras a seguirem o mesmo caminho. O contrário disso, sim, seria uma catástrofe para além das tesourarias dessas empresas. Seria prejudicial à sociedade, que ficaria privada do arejamento de ideias e de boas e justas representações.

Como têm feito nos últimos anos, o pastoreco e sua turma realizaram um evento no Rio de Janeiro que poderia ser chamado marcha-crentralha-cabeça-de-papel-se-não-marchar-direito-você-não-vai-pro-céu.

Daí, o que vejo nos jornais e nas redes sociais? Um certo deputado federal, eleito pelo Rio de Janeiro, saudosista da ditadura, misógino, homofóbico, transfóbico, xenofóbico, racista, entre outros adjetivos nada invejáveis, que recebeu votos – digo-o com vergonha alheia – de alguns ateus cabeças ocas que eu conheço, estava lá abraçadinho com duas figuras que seriam cômicas se não fossem trágicas para a vida de tanta gente – doispastorecos que colocam qualquer Belzebu no chinelo. Como é que vocês acham que eu fiquei quando vi aquele retrato da mais satirizada trindade satânica, não obstante, levada a sério por tanta gente? Só conseguia pensar na mentalidade de quem lhes dá crédito como sendo a de ovelhas que confiam em lobos ou, para não ficar só na metáfora bíblica, de galinhas que contratam raposas para serem babás de seus pintinhos. Em outras palavras, a cabeça desse povo é pobre, pobre, pobre de marré deci?

Além disso, fiquei pensando sobre o que esperavam, afinal, esses ateus feitos nas coxas quando votaram nesse traste dinossáurico para deputado federal pelo Rio de Janeiro. Esperavam o que de alguém que vive de braço dado com a bancada evangélica na hora de oprimir pessoas LGBT e outros cidadãos em seus direitos? Não digo que foi a maioria dos ateus votantes, mas me surpreende que alguns assistam tanto as falas de Richard Dawkins e outros “cavaleiros do ateísmo” e não aprendam nada. Se apenas tivessem pensado assim “o que faria alguém com o cabedal de conhecimento e compromisso que têm este e outros ilustres ateus, gente profundamente responsável, se estivessem no meu lugar?”, obviamente jamais teriam sequer considerado votar em alguém assim. Ateu que se preza não dá colher de chá para esse tipo de gente neurótica e ansiosa por sabotar as liberdades civis. Mas vai tentar ensinar uma porta a dançar valsa… impossível. De novo, a musiquinha para eles: “eu sou pobre, pobre, pobre…”

Mas, não parou aí.

Quinta-feira passada, dia de Corpus Christi, a festa católica da Hóstia, os fundamentalistas fizeram um segundo evento do tipomarcha-crentralha-cabeça-de-papel-se-não-marchar-direito-você-não-vai-pro-céu. Na realidade, eles não aguentam ver os católicos fazendo procissão e tapetes de sal colorido com os temas do dia santo. Eles têm que colocar aqueles cantores gospel que mais gritam do que cantam; música de gente de mal com a vida, sempre arrependida, sempre querendo ser salva de si mesma, sublimando suas pulsões através de uma suposta entrega a um amante invisível; pessoas que se dizem tocadas por mãos invisíveis que as conduzem a espasmos quase orgásmicos, mas que são nada nada mais, nada menos, que fruto de sua própria imaginação condicionada pela pregação tempestuosa e pelos tons altíssimos das vozes gritadas desses ídolos gospel (Jeová castiga os idólatras, amiguinhos) e dos dirigentes de louvor. Ai, meu Jesuíno Nazarético, que pobreza!

Seria tão bom se os crentes que injetam dinheiro nas contas desses pastores caça-níqueis colocassem esse dinheiro na UNICEF, nos Médicos sem Fronteiras, na Sociedade Pestalozzi, na UNAIDS, na Anistia Internacional, etc. Mas, não… eles preferem fingir que não estão vendo o pastor acumular milhões, enquanto milhões morrem de fome e eles mesmos mal conseguem pagar um tratamento dentário.

Felizmente, a maioria da população brasileira não pertence a essas igrejas. Os ateus, menos ainda. Então, meu amigo e minha amiga hereges, coloquem a mão na massa e não fiquem só reclamando que os outros acreditam nesse ou naquele deus. Façam a diferença! A lista dos ateus que ajudaram a mudar esse mundo para melhor é imensa! E não foi cultivando preconceitos contra as mesmas pessoas às quais esses fundamentalistas e outros conservadores perseguem que eles fizeram isso. Foi através da promoção do conhecimento, da tecnologia, dos direitos humanos, do atendimento às necessidades básicas dos indivíduos em estado de vulnerabilidade ou calamidade. E isso é fantástico! Mais ainda, porque esses ateus altruístas e humanistas não o fizeram por medo, culpa ou ambição, como é o caso dos seguidores dos pastorecos da Teologia da Prosperidade e de outras vertentes teológicas, mas por compromisso ético guiado por uma razão treinada na compaixão.

Outra coisa, hoje, 07/06/15, a cidade de São Paulo vai receber a 19ª Parada do Orgulho LGBT. Não é fantástico que a maior Parada LGBT do Brasil aconteça numa cidade que tem o nome de um dos mais neuróticos apóstolos: “São” Paulo? Se bem que chama-lo de apóstolo no mesmo nível que aqueles a quem Jesus chamou e ensinou, é um exagero. Paulo nunca andou realmente com Cristo.

E não me venham com essa conversa de que ele teria visto Jesus no caminho de Damasco. Isso foi o que ele disse a favor de si mesmo diante dos apóstolos “originais”. Nenhum apóstolo que andou com Jesus estava lá para confirmar a tal visão. Falar com Jesus pessoalmente, em carne e osso, isso ele nunca fez. Agora, há quem diga que Jesus nem sequer existiu. E isso não é nada improvável, mas também não é garantido.

Então, voltando à vaca fria, não é fantástico que, na cidade que leva o nome de um “santo” misógino, homofóbico, que odiava a cultura greco-romana, só para dizer o mínimo, seja realizada a maior manifestação contra a LGBT-fobia, que é, ao mesmo tempo, a maior celebração da diversidade sexual e de gênero a céu aberto do Brasil e talvez do mundo?

Chora, Paulinho, porque o teu veneno não durou para sempre. Na verdade, muita gente já o superou. E quem fica feliz com isso, diga He-Man!

Ah, e tem mais: o slogan da Parada LGBT tem tudo a ver com liberdade, autonomia e dignidade, enfim, viver sem medo e com orgulho de ser “si mesmo”.

Muita gente não percebe o significado de uma concentração como essa, mas os fundamentalistas farejam a importância desse evento de longe, e por isso o odeiam. Infelizmente, tem uns LGBT que embarcam no discurso deles, escravizados por ideias às quais foram submetidos desde cedo, e também tem alguns ateus que fazem o mesmo, irrefletidamente, mas isso é cada vez mais raro.

Na verdade, a reivindicação da autonomia sobre o próprio corpo e a demanda pelo reconhecimento da dignidade do Amor, sem qualquer discriminação por orientação sexual ou gênero entre os amantes, são duas das mais belas razões para dizer orgulhosamente eu sou o que sou! Então, vai aqui um gostoso flashback, em estilo Caraoquê, para marcar esse momento. Ouça e cante junto, por que não? É para a Gloria (de) Gaynor. hehehe




Veja o banner da Parada LGBT de São Paulo que está rolando no mesmo dia em que publico esse post:





Nada mais oportuno do que aproveitar para colocar aqui uma ilustração que meu amigo Laudenir Araújo compartilhou do perfil do Novo Ateu. A figura diz muito sobre alguns ateus, mas a ilustração é meio exagerada, porque nem todo LGBT está fora do armário, assim como nem todo ateu se encontra mais lá dentro.

Na verdade, conheço muitos ateus e sexodiversos que ainda não experimentaram o ar puro de uma vida sem esconderijos, mas é fato que os LGBT têm conseguido se mobilizar muito mais do que os ateus, e isso não é motivo para querelas. Talvez, uma das razões para isso seja que a identidade e a afetividade humanas residem num nível muito mais essencial do que nossas posturas filosóficas. 


Por isso, as questões LGBT tornam-se tão urgentes para as pessoas que se identificam como lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis, etc.

Bem, pessoalmente, uma coisa faço: sempre que dou alguma entrevista sobre os temas LGBT, especialmente quando as perguntas têm a ver com minha experiência sobre sair do armário, falo sobre meu ateísmo. Os fundamentalecas piram. kkkk

Então, para concluir, nesse domingo tenho dois motivos para me orgulhar:

1. Porque saí do armário da heteronormatividade e posso dizer “Eu sou o que sou… e o que eu sou não precisa de desculpas… É uma vida só e não há retorno nem depósito, uma vida, então é hora de abrir seu armário. A vida não vale nada, até você poder gritar eu sou o que sou.” (I am what I am – Gloria Gaynor, 1969 – ano em que nasci… deliciosa coincidência);

2. Porque, quando saí do armário da heteronormatividade, saí também do armário do ateísmo, apesar de uma coisa não ter sido condicionada pela outra. Mas, garanto, sem medo de errar, que foi melhor matar os dois coelhos com um tiro só, apesar de terem sido dois processos que aconteceram em velocidades diferentes, mas que chegaram ao clímax simultaneamente – coisa como o orgasmo atingido por dois amantes ao mesmo tempo, apesar de serem indivíduos distintos, ou seja, cada um com suas próprias particularidades.

Desde 2004, tenho colocado as questões LGBT, sempre acompanhadas da minha assunção com relação ao ateísmo. E tenho feito isso nos mais variados meios:

1. Revista Época;

2. Fantástico;

3. Diversos jornais;

4. Site da UOL;

5. Site da revista The Advocate (reproduzida em diversas línguas, inclusive chinês);

6. Diversos blogs e sites com entrevistas, inclusive o Bule Voador, administrado pela Liga Humanista Secular do Brasil (LiHS);

7. Meu próprio blog (www.foradoarmario.net);

8. Vários documentários, inclusive o Brasil Místico na GloboSat;

9. Meu próprio canal do Youtube;

10. Hangouts d’ARCA.

E por aí vai.

Quando vejo algum ateu dizendo que ateus não devem se envolver nas demandas LGBT nem na luta desse segmento contra o fundamentalismo LGBT-fóbico, sinto vontade de rir. Não porque ateísmo e LGBT sejam a mesma coisa. Há ateus de todos os tipos, até mesmo heterossexuais (risos). Na verdade, gays ateus são uma minoria dentro de outra, mas isso não muda o fato de que são demandas legítimas e que ninguém tem enfrentado mais duramente e mais ininterruptamente o fundamentalismo do que os movimentos e a comunidade LGBT. Porém, é um fato que não podemos hierarquizar essas lutas sem cairmos numa armadilha que nos enfraqueceria a todos. Essas lutas são legítimas, urgentes e não são excludentes.

Esses dias fui interpelado por uma pessoa com esse tipo de discurso. Minha resposta foi que meu mundo é maior do que “ateu resistindo ao Datena” ou “LGBT resistindo aos fundamentalistas“. É óbvio que meu universo pessoal comporta esses dois mundos (ateus e LGBT), especialmente por estarem inscritos em mim mesmo, no meu corpo, na minha própria subjetividade, mas meu universo pessoal também comporta muitos outros, tais como: a luta contra o racismo, a luta contra o machismo, a luta contra a xenofobia, a luta contra a discriminação imposta a pessoas com necessidades especiais, a luta das pessoas que não tem teto ou terra, a luta contra a devastação do meio ambiente, e por aí vai. Não dá para ser menor que isso e achar que se atingiu aquele Esclarecimento do qual os fundamentalistas, cujo dogmatismo cego tanto repudiamos, carecem desesperadamente, sem sequer perceberem sua própria pobreza intelectual, afetiva, enfim, sua miséria existencial. Na verdade, se não formos melhores que isso, não teremos do que nos orgulhar de modo algum.

Então, nesse domingo, celebre a diversidade, a vida, o amor, o conhecimento sem atravessamentos preconceituosos, a emancipação dos dogmas religiosos e das correntes que eles representam para a existência e a felicidade humanas. E já que não acreditamos no poder da oração para ajudar esses fundamentalistas a saírem da caverna, usemos o da oratória mesmo, mas sempre com simpatia e bom humor, porque o amor de um pode vencer o ódio de milhões.

Como dizia o grande avatar do rock tupiniquim, ex-vocalista da Legião Urbana, banda que bateu recordes ainda não superados de venda de discos, CDs ou álbuns, nosso saudoso Renato Russo, sexodiverso e – ao que tudo indica – ateu:

“É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã. Porque se você parar pra pensar, na verdade, não há.”

É logo a primeira música desse vídeo:




Que tal subverter a ordem do ódio, da ganância, da exploração mental com o amor irrestrito e incondicional, com a afirmação dos mais elevados valores humanistas, racionalistas, secularistas e laicistas? Eu vou por aqui, e você?




Republicado em 25 de outubro de 2016.





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