Obscurantistas perdem



Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA







As forças obscurantistas gritam enquanto vão sendo derrotadas pelo esclarecimento humanistas secular


É comum vermos muita comoção quando um obscurantista faz pronunciamentos desumanos, ignorantes, anticientíficos, discriminatórios, preconceituosos e produtores de sentidos iníquos e que desafiam a dignidade e as liberdades humanas. A impressão que temos é que tais trevas sejam onipresentes e insuperáveis. Isso é um equívoco, e para quem adora laborar no erro, como é o caso de fundamentalistas, conservadores, moralistas, fanáticos e outros obscurantistas, essa noção equivocada se constitui numa vantagem, porque cria uma sensação geral de desalento entre aqueles que desejam construir um mundo mais livre, justo, igualitário e, consequentemente, belo.


E por que digo que isso é um engano?


Por que as forças tenebrosas da ignorância têm perdido território em diversas áreas da vida humana de norte a sul, de leste a oeste, desse mundo incrivelmente diverso. Vejamos alguns campos no campo do conhecimento e como eles afetam tudo mais:


Graças à dedicação de homens e mulheres que amam o saber, que desejam conhecer o mundo que nos rodeia, bem como as múltiplas relações que caracterizam a existência de cada corpo neste vasto universo de dimensões ainda desconhecidas, sabemos mais sobre um número incalculavelmente maior de coisas do que todos os nossos antepassados. Isso afeta diretamente o modo como nos entendemos, compreendemos o mundo ao nosso redor, bem como os papéis que podemos adotar nesse intrincado jogo da vida, seja biológica, sexual, afetiva,ética, econômica, artística ou politicamente. Isso vale para qualquer outra categoria que já tenhamos inventado ou que venhamos a criar.


Os obscurantistas piram com o fato inegável de que não temos origem em seus mitos de criação e nem teremos o fim predito em seus apocalipsismos. E é graças à produção de conhecimento científico e à aplicação deste à vida prática, por meio de uma razão treinada em pensar humanística e secularizadamente, que temos visto avanços em todos os campos grifados acima e em muitos outros. Sugiro alguns desses avanços para deleite dos humanistas, secularistas, ateus, agnósticos, céticos e religiosos com nível de esclarecimento acima da média que me deem o privilégio de sua atenção.


No jogo da vida humana, os obscurantistas vão perdendo onde costumavam ganhar:



Biologicamente

A origem e a evolução das espécies dispensam explicações criacionistas de qualquer matiz. E, ressentidos dessa vergonhosa derrota, alguns setores obscurantistas fazem barulho, tentando espalhar mentiras sobre temas que mal conhecem. Quem surpreendeu foi Pio 12 (ou Pio XII), que em 1950, reconheceu a teoria do Big Bang (teoria cosmológica que abre caminho para a teoria da evolução das espécies). Aliás, ele se referiu à própria teoria da evolução como válida e disse que a Igreja Católica nunca havia banido o livro de Darwin, “A origem das espécies”. Contudo, a Igreja Católica reagira de modo extremamente negativo, e nunca se desculpou por isso. Todo palavrório e esforço inútil de fundamentalistas evangélicos para restabelecer visões criacionistas como explicação para a origem do universo e da vida no planeta Terra equivale a chorar um morto que apodrece rapidamente diante de seus próprios olhos. Deviam enterra-lo definitivamente. 


Sexualmente

A ideia de sexo para procriação pode até ecoar aqui e ali ainda, como efeito retardado de uma voz que já não tem mais legitimidade diante dos fatos. A procriação passa pelo sexo, mas o sexo não se esgota como meio para procriar. Primeiro, porque está claro que através de suas atividades sexuais, o ser humano busca prazer, aventura, companheirismo, acalento. Além disso, a procriação pode acontecer por via sexual ou não. E o sexo pode acontecer entre pessoas férteis ou não; de sexos diferentes ou iguais; até mesmo entre pessoas e objetos erotizados, como é o caso dos dildos, dos vibradores femininos, masculinos e até aqueles que são indefinidos em sua aparência. Para uma leitura psicodélica e extremamente provocativa sobre esse tema, sugiro o “Manifesto Contrassexual”, de Beatriz/Paul Preciado. E associado à ideia de sexualidade, temos avanços no campo das identidades de gênero, que incluem todos os tipos, inclusive aqueles que, de tão fluidos, nem se podem encaixar nas superadas categorias de masculino e feminino. As mulheres são cada vez mais livres para decidirem quando, como e onde se relacionarão sexualmente com seus parceiros e/ou parceiras. Os homens não precisam escolher entre o casamento ou o prostíbulo para se realizarem sexualmente. Com a liberação feminina, dificilmente alguém vai ser assassinado porque “desonrou” a filha do senhor fulano de tal. O jogo passou a ser visto como sendo jogado entre pessoas iguais e livres, exceto em casos de violência sexual – o que é outro departamento. Os homossexuais deixaram de ter suas relações criminalizadas em 133 países. Os que restam são geralmente influenciados por religiões e sistemas jurídicos arcaicos, mas muitos tendem a mudar essa realidade nos próximos anos. 



Afetivamente

O amor é muito mais livre do que jamais foi. Casar com quem a família determinou, porque ele é supostamente um “moço de família” ou ela, uma “moça direita”, é quase peça de museu em vários lugares do mundo. Ainda existem lugares que resistem, mas são aqueles em que o obscurantismo religioso ainda dá as cartas por estar associado ao Estado, portanto aos tribunais e às armas. Isso, porém, vai mudando rapidamente. O divórcio, ainda não digerido pela Igreja Católica, apesar de muito absorvido por diversas outras denominações e religiões, foi reconhecido como um direito humano, tanto quanto o casamento. E por ser um direito humano, desconhece diferenças incidentais entre os membros da espécie. Daí, os avanços na efetivação do casamento feito por livre e espontânea vontade entre duas pessoas, quaisquer que sejam suas características: gênero, cor, classe social, etc. Nos EUA, por exemplo, o casamento entre negro e branca (ou branco e negra) só deixou de ser crime em todos os estados daquele país em 1967. O casamento homoafetivo, por sua vez, já é reconhecido em 36 estados e no Distrito de Columbia. Em breve a Suprema Corte tomará uma decisão em nível federal. Frequentemente, recebemos notícias de novos países aprovando legislação para o casamento igualitário. Veja a diferença entre casamento e união civil aqui.Chile e Equador são dois dos países que mais recentemente aprovaram legislação pró-igualdade no casamento. A católica Irlanda será a próxima a decidir sobre isso. O governo tem se mostrado favorável. O casamento igualitário já é realidade na Inglaterra e na Escócia, com declarações simpáticas da Rainha Elizabeth, inclusive. 


Eticamente

Nossa ética tem passado por modificações profundas, graças ao fomento de discussões filosóficas, sociológicas, antropológicas, psicológicas e de outros campos das ciências humanas, conjugados com as ciências da vida. Daí, os fantásticos “híbridos” como a bioética, que têm gerado avanços em discussões que, há alguns anos, não poderiam sequer ser sugeridas. Entram aqui, o direito do indivíduo sobre seu próprio corpo, seja para preserva-lo, transforma-lo ou mesmo desistir dele. A eutanásia e o suicídio assistido são dois pontos altos dessas discussões, mas já são permitidos em pelo menos 5 países: Estados Unidos, Holanda, Bélgica, Suíça e Alemanha. Também há discussões e casos registrados no Uruguai e na Colômbia. O campo da ética, porém, é muito mais amplo e merece carinhosa atenção da parte de humanistas, secularistas, ateus e outros livres pensadores. 


Economicamente

É inegável que existem muitas desigualdades econômicas no mundo, mas diversos avanços vêm sendo feitos em termos de se pensar as relações de trabalho (patrão / empregado), as oportunidades para novos negócios, especialmente por micro, pequenos e médios empreendedores. Também se tem feito avanços na relação indústria / meio ambiente, conduzindo a boas práticas em termos de economia sustentável. Existem grandes embates sendo travados nessa área, porque poderosos empresários, sem qualquer respeito pelo meio ambiente e pelas populações nativas desses espaços, têm financiado campanhas de políticos inescrupulosos com o objetivo de aprovarem leis que favoreçam seus interesses, a despeito dos prejuízos inestimáveis para a natureza e populações tradicionais e vulneráveis que historicamente souberam viver nesses ambientes sem depreda-los. Exemplo disso é a bancada ruralista, não por coincidência, cheia de fundamentalistas e conservadores que também integram as bancadas evangélica e da bala. Daí o nome ironicamente dado a elas de Bancadas BBB, ou seja, bala, boi e bíblia. Bala diz respeito aos deputados que defendem a indústria do armamento sob o argumento de que o cidadão tem o direito de ter uma arma. Nada mais medieval do que isso. Mas, humanistas, secularistas e outros livres pensadores têm se colocado contra isso, chamando a atenção da população para as falácias desses discursos e os perigos dessas práticas. Até mesmo os EUA, onde o lobby desses empresários da morte costumava permanecer relativamente inquestionado, têm visto uma mudança, com diversas inciativas anti-porte-de-armas, inclusive o presidente Barack Obama, que entrou na ‘briga’, defendendo a suspensão da venda de armas para cidadãos. Vale a pena ver essa animação pelo irônico e brilhante Michael Moore:




Vale lembrar que ateus, agnósticos e outros céticos só deixaram de correr perigo de vida, graças aos avanços feitos por renascentistas e iluministas. Existem, porém, países que ainda condenam ateus à pena capital ou à prisão. Antes de ser a favor da pena de morte, ateus conservadores deveriam pensar sobre quem decide quem vive e quem morre, quem decide o que é passível de morte ou não, em que princípio se baseiam para dizer que podem dispor da vida do outro sem serem assassinos, com apenas uma diferença essencial: têm o Estado como álibi, porque em sete países o governo acredita que esses mesmos ateus merecem perecer. Fora os que prendem e punem desertores da religião de outras maneiras. Os avanços que garantem segurança a um ateu, como ilustríssimo Richard Dawkins que escreve e dá palestras e faz vídeos na Inglaterra e onde é convidado não vieram da boa vontade de católicos, anglicanos e outros religiosos. Foi a pressão exercida por livres pensadores através da política, literatura, artes em geral, e educação que conquistou esse direito. Mas isso ainda está distante de quem vive em Estados teocráticos. Há muito a se fazer, a despeito do progresso já obtido. 


Artisticamente

A Igreja Católica, por muito tempo, exerceu extraordinário poder sobre a produção artística na Europa e em suas colônias. Não por acaso, seus templos são ricamente adornados, e muito de sua arquitetura e decoração é assinada por gênios das artes como Caravaggio, Da Vinci, Michelangelo, Aleijadinho. Isso só para citar o que pode ser visto. Quanto ao que pode ser ouvido em vez de visto, a música sacra inclui nomes como Bach e Mozart. Como não ficar absolutamente deslumbrado pela fineza e grandeza, ao mesmo tempo, da Pietá, por exemplo?




Como não se encantar ao som de Aleluia, por Mozart? https://www.youtube.com/watch?v=4jhApZ2yG_E

Mas, o fato de ser a Igreja Católica, muitas vezes, a única patrocinadora da arte até a Renascença, não sem interesses absolutamente egoístas, impedia que os artistas dessem forma a seu fluxo criativo livremente. Foi, portanto, na Renascença que a arte deixou de voltar-se para o céu e dirigiu seu olhar para a terra, deixou de pensar em anjos para pensar em humanos, deixou de estar a serviço de deus para ser livre para retratar e até recriar a realidade. O boom criativo que daí vem é de uma dimensão praticamente imensurável e em todos os campos da arte, por assim dizer.


Politicamente

Podemos celebrar uma mudança de paradigma impressionamente radical no campo político: do teocrático ao democrático, do nacionalista ao globalizado, da democracia grega (tão aristocrática) ao conceito de democracias pluralistas e valorizadoras da diversidade e das liberdades civis, com políticas de igualdade que não ignoram as diferenças, mas garantem o direito à cidade por parte de todos os integrantes dessas sociedades. Pensadores humanistas contribuíram muito para esses avanços. De Voltaire a Habermas, passando por Hume, Mills, e outros, vimos um amadurecimento do conceito de democracia que vai muito além da ideia de governo da maioria. Pelo contrário, é o governo executado a partir do poder que emana do povo, mas é de todos, por todos e para todos, não apenas de alguns, por alguns e para alguns, e também não é de muitos, por muitos e para muitos. TODOS inclui CADA indivíduo, grupo social, cultural, identitário, etc. Felizmente, graças à prevalência cada vez maior dessas ideias humanistas, políticas afirmativas têm sido desenvolvidas e implementadas, beneficiando indivíduos iguais em direitos, mas diferentes em necessidades e potencialidades – o que direta ou indiretamente faz da sociedade assim governada um lugar melhor para todos. Mas as vozes roucas do conservadorismo e do fundamentalismo se ressentem disso, inventando todo o tipo de mentiras e distorções, a fim de criar pânico moral e social e mobilizar mentes e corações desavisados, geralmente pouco informados e menos ainda treinados em pensar em categorias igualmente racionais, humanistas e secularistas. Mas, a despeito deles, avanços vão sendo feitos em diversas áreas de nossa sociedade e em diversos países do mundo.

Por essas e outras razões, quero celebrar, nesse domingo, 17 de maio, DIA MUNDIAL DE COMBATE À HOMOFOBIA E TRANSFOBIA, os avanços feitos a partir de uma visão desmitificada do mundo e da vida, ao mesmo tempo em que chamo a atenção do querido leitor ou da querida leitora para a necessidade de mais mobilização em torno dos temas que promovem a liberdade, a felicidade e a dignidade humanas. 


Sugiro duas leituras: 

IDAHOT: 17 de maio – Levante sua voz pelos jovens LGBTQI: http://www.foradoarmario.net/2015/05/idahot-17-de-maio-levante-sua-voz-pelos.html 


Relatório ILGA 2015 sobre homofobia e transfobia patrocinadas pelo Estado: 
http://www.foradoarmario.net/2015/05/ilga-relatorio-sobre-homofobia.html

Mas luta continua por avanços em todos os campos. Arregace as mangas e venha com a gente!






Republicado em 25 de outubro de 2016 antes de figurar aqui.




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