O tempo e o senso comum

O tempo e o senso comum



Por Sergio Viula

Publicado originalmente no AASA


Depois de trocar umas ideias com um amigo a respeito do tempo e sua suposta ação sobre sobre nós, achei interessante escrever a coluna de hoje com essa temática. Não pretendo dizer o que é o tempo. Filósofos e cientistas já tentaram fazê-lo e não foram bem-sucedidos. O que pretendo fazer é abordar alguns pensamentos do senso comum a respeito do tempo e ‘seu poder’.
O amor vem com o tempo
Quando o amor acontece, ele não pergunta que dia é hoje e nem que horas são. Ele simplesmente acontece e não oferece a menor explicação para isso. A ideia de que a intimidade que alimenta o amor precisa de um período relativamente definido para ser considerada suficiente não corresponde ao que testemunhamos nessa rede de relações a que chamamos de realidade. Pessoas juntas há anos podem ser duas ilustres desconhecidas em muitos sentidos, enquanto outras se deleitam em desfiar seus mais profundos sentimentos e pensamentos, suas mais preciosas memórias, ou seus mais queridos planos para o futuro em tempo recorde.
Não é improvável que você possa trocar mais intimidade com seu amado (ou sua amada) em poucos dias do que outras pessoas em meses e até anos. Talvez, você já tenha vivido em relacionamentos que também não desfrutaram da intimidade e confiança que você desfruta atualmente. Não é o tempo que determinará se haverá intimidade ou não. São as pessoas envolvidas que decidem se constroem simulacros de si mesmos para tentar agradar ao outro com uma realidade artificial ou se mostram suas verdadeiras cores (lembra da música True Colors?).
O que quero dizer é que se duas pessoas forem honestas entre si, elas provavelmente construirão um relacionamento satisfatório, independentemente do tempo que já conviveram. Diversas variáveis podem influenciar ou determinar o curso dessa relação, mas o tempo provavelmente não é uma delas.
É claro que através da convivência, o amor poderá se fortalecer e aprofundar, mas isso não depende de calendários – essa tentativa nossa de fragmentar e controlar uma abstração. O que favorecerá o aumento ou a redução da intimidade é a relação. É o modo como interagem quando estão próximos ou distantes. O tempo não é pai nem mãe de coisa alguma, muito menos do amor. Não é o tempo em si – se é que existe um ’em si’ para o tempo – que determinará o sucesso ou o fracasso do que quer que seja.
O tempo corrói tudo
O poder de corrosão, desgaste, erosão, envelhecimento não é uma propriedade ou ação do tempo. Isso é outra ilusão do senso comum. São os corpos que agem uns sobre os outros, combinando-se ou não, que se fortalecem ou enfraquecem, modificando ou reforçando suas características a partir dessas relações.Em outras palavras, o tempo não tem o poder de corroer coisa alguma se as relações entre os corpos não desencadearem corrosão. E o contrário também pode ser dito: o tempo não pode impedir que a corrosão resultante dessas relações ocorra.
Por exemplo, o desgaste da montanha não é provocado pela “ação” do tempo. O tempo não age. Quem age é a chuva e o vento no sentido de interagir com a matéria da montanha e produzir o que chamamos de erosão. Contudo, a montanha também ‘obriga’ o vento a reduzir sua velocidade ou a mudar de curso pelo atrito que ele sofre ao passar por ela. Portanto, os dois se alteram de alguma forma. Não fossem essas e outras relações extrínsecas e intrínsecas às montanhas, elas  estariam ali eternamente sem sofrerem mudanças a despeito de quanto tempo tivesse ‘passado’. Interessante o que acabo de dizer, não? Dizemos que o tempo passa, como se ele fosse um rio que arrastasse tudo, mas o que parece ser a passagem do tempo é apenas nossa percepção das alterações que ocorrem em todos os elementos do cenário que nos cerca e em nós mesmos – alterações essas causadas pelas relações que se estabelecem continuamente em todos os níveis da existência e funcionamento dos corpos, sejam eles vivos ou não-vivos. Uma rede capilar de relações de poder entre os mais diversos elementos e fatores da natureza.
O tempo nos envelhece
Não mesmo. O envelhecimento é resultado das modificações que se dão a partir das interações entre os diversos elementos que compõem o nosso corpo, seja em nível micro ou macro, bem como as relações que ele mantém com outros elementos: luz, calor, frio, alimento, sono, micro-organismos, outros seres humanos, sedentarismo, tipo de trabalho realizado ao longo da vida, etc. É interessante notar que o envelhecimento não se dá igualmente para todos. Há pessoas mais velhas (que viveram mais tempo) que parecem mais novas do que pessoas bem mais jovens (que viveram menos tempo). O tempo não está no comando de nada aqui. Essas diferenças dizem respeito a cada corpo em sua constituição e funcionamento, bem como às relações que ele estabeleceu com outros corpos ao longo da vida.
O tempo cura tudo
O tempo não cura nada. Em se tratando de patologias, o que nos cura são os remédios, que ao entrarem em contato com o nosso organismo, comportam-se de maneira a restabelecer sua ordem anterior. Às vezes, o próprio corpo restabelece o equilíbrio por mecanismos próprios.
E quando a dor é emocional, como uma decepção, por exemplo, superamos o sofrimento quando chegamos à conclusão de que não vale mais a pena gastar energia psíquica com uma ofensa que nem deveria ser mais atualizada. O ressentimento atualiza a ofensa e sua dor, mas ele é obra de nosso próprio cérebro. Não podemos decidir como os outros nos tratarão, mas podemos decidir o que faremos daquilo que eles fazem ou fizeram conosco. E, de novo, não é o tempo que está agindo, mas nossa consciência, essa projeção do cérebro, que, por sua vez, adora trabalhar no “modo economia”, eliminando o desconforto e o desperdício de energia para poder se dedicar ao que realmente interessa: à manutenção e fortalecimento do corpo.
Mas a física não lida com noções de tempo?
Sim, mas isso pode ser considerado uma abstração. E o mais interessante é que foi um dos maiores físicos de todos os tempos que pensou a Teoria da Relatividade. Ela basicamente afirma que tempo é relativo, ou seja, não há universalismos que deem conta do tempo.
O tempo não é o mesmo em todos os lugares desse vasto universo. Se pudéssemos viajar por milhares de anos-luz, experimentaríamos o que chamamos de tempo de modos muito inusitados. Quando voltássemos, descobriríamos que o tempo da Terra não “passou” na mesma velocidade que o tempo dos planetas onde estivemos ao longo da jornada. E isso nos leva a outra questão: O tempo não é uma linha reta, sequenciada, como gostamos de pensar.A linearidade do tempo é mais uma ilusão dos sentidos.
Então, o tempo não tem a menor importância?
Apesar de ser relativo, não podemos dizer que o tempo não tenha importância. Vale considerar o pensamento de Kant sobre o tempo, que o via como uma intuição que, juntamente com a noção de espaço,  viabilizaria a percepção e o processamento dos dados que nos chegam pelos cinco sentidos: visão, audição, tato, paladar e olfato.
Conclusão
O tempo não é um elemento mágico e nem exerce qualquer poder sobre os corpos. Não é um ente entre outros. Na verdade, são os corpos, vivos ou não, que interagem, ganhando ou perdendo força, podendo, inclusive, sofrer e provocar modificações, até mesmo ao ponto de não serem mais reconhecidos em sua constituição inicial. E sendo mortais como somos, não me parece uma boa ideia desperdiçarmos oportunidades de encontros que possam aumentar nossa potência. Em outras palavras, quero estar em contato com aquilo e aqueles com quem possamos estabelecer relações que me fortaleçam e expandam minha potência (alguns chamam de poder) em todos os sentidos, numa perspectiva ética da felicidade. O contrário disso pode ser danoso e até fatal.

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