O sofrimento humano e as crenças na visão de um ateu



Por Sergio Viula


O sofrimento humano e as crenças


Originalmente escrito para o Blog Fora do Armário em 23/12/13.


As crenças podem ser tão variadas quanto os seres humanos. Há até quem creia na própria crença como meio para aliviar sofrimentos e superar dificuldades pessoais. A questão já não é mais se a fé é remédio ou placebo. Afinal, placebo que ‘funciona’ é remédio, pragmaticamente falando. Mas, para funcionar é preciso que a pessoa que faz uso dele realmente acredite que se trata de um genuíno remédio, pois se o paciente suspeitar de que está diante de um mero placebo, o efeito já não será o esperado.

Assim mesmo é com a fé: é preciso que a pessoa acredite realmente que os conteúdos de sua crença têm correspondência no mundo real, ou seja, que não são apenas ideais.

1. Crenças podem ser belas sob o ponto de vista estético.

Como não considerar belos os paramentos sacerdotais do catolicismo, do islamismo, do candomblé, da umbanda, que são indubitavelmente muito mais belos do que o mero paletó da maioria dos pastores protestantes ou mesmo do que a estola negra dos reformados? E o que dizer da maioria de seus templos, rituais, dietas, etc.?

2. Crenças podem ser boas sob o ponto de vista filantrópico.

Pessoas que acreditam ter a missão de aliviar o sofrimento que grassa pelo mundo a fora podem fazer muito bem ao próximo, ainda que esse conceito de bem possa ser questionado quando ambições pós-morte entram na economia desses atos de ‘caridade’.

3. Crenças podem ser consideradas tipos de ‘saberes’, especialmente do ponto de vista dos foucaultianos e das tradições.

Elas baseiam-se em oralidade, tradições escritas, rituais, preceitos e outros conteúdos. Algumas vezes podem envolver até conhecimentos sobre saúde, tais como ervas que curam e coisas a serem evitadas para a preservação do corpo e da mente.

Claro que o oposto também ocorre: crenças podem ser feias, cruéis, venenosas, destrutivas ao corpo e à mente. Rituais de iniciação que colocam em risco a integridade física e mental de crianças, adolescentes, nubentes, e por aí vai.

Um preço alto

De uma coisa, porém, qualquer crença carece: liberdade de pensamento. No momento em que o indivíduo crê, ele começa a usar o conteúdo de sua crença como crivo da verdade. Ela passa a ser o contrapeso da balança, a peneira, a régua, o esquadro e o compasso, através dos quais tudo será medido, pesado, julgado. Tudo estará sujeito à crença em primeiro lugar e mesmo que o indivíduo reveja algum conceito, isso geralmente se dará com base na própria crença, isto é, haverá alguma justificativa baseada nos conteúdos dessa mesma fé.

O ser humano que nutre alguma crença no sobrenatural, e daí deduz regras para a vida, parâmetros para a análise do que acontece ao seu redor e para a interpretação de si mesmo e de sua relação com esse derredor, terá sua percepção e sua razão dominadas pelos fantasmas evocados dessas mesmas crenças – o que também determinará, em grande parte, suas ações e reações a tudo isso.

Essa dinâmica interior é tão intensa e aparentemente tão real que o indivíduo que passa por tais experiências [na verdade, psíquicas] tende a ver uma espécie de confirmação da veracidade de suas crenças em tudo o que acontece a ele mesmo e aos que o cercam.

Hoje, presenciei uma situação assim: um jovem que aspira à felicidade e a uma vida equilibrada com a pessoa que ele ama; trabalhador; sofrido por acumular várias decepções na vida; pensando que havia finalmente encontrado a pessoa certa para compartilhar seus dias e se aprumar, sofreu a decepção de vê-la arruinar tudo, numa espécie de crise psicótica [sei lá que nome dar a isso].

Amando-a e querendo continuar com ela, mas vendo que não podia fazer nada contra a ira, a ofensa e a agressão, especialmente porque não queria revidar, queria apenas apaziguar os ânimos, ele entra numa espécie de colapso nervoso e não consegue parar de chorar e de falar desesperadamente.

Ela, que tem um background evangélico pentecostal, compartilha da ideia de que o diabo existe, pode possuir corpos, e que só Deus pode libertar. Contudo, considera que não tem sido boa bastante para contar com o favor divino e acha que também tem sua cota de demônios.

Ele, que tem um background de umbanda ou candomblé [não está claro], acredita que ela tenha um encosto para agir assim, do nada.

Acreditando que o Deus judaico-cristão possa lhe oferecer uma vida melhor do que os Deuses africanos, desesperado por ajuda e tendo sido cercado por quatro ou cinco crentes na hora do desespero, acaba por pedir oração. Foi o suficiente para que o circo fosse armado. Ele, cuja fé inclui a incorporação, se submetia àqueles cuja fé inclui o exorcismo. Prato cheio para mais gritaria.

Tive compaixão do rapaz. Decidi intervir. Pedi que parassem de gritar e me deixassem conversar com ele. Falei carinhosamente que ele não precisava se sujeitar a essa humilhação, que tudo isso não passava de um tipo de colapso. Disse-lhe que a sobrecarga emocional, o sofrimento acumulado e a crise daquele momento eram pesados demais para que ele carregasse tudo isso sozinho. Ele precisava conversar. Disse-lhe – prostrado e em profundo sofrimento sob o eco de “liberta, Jesus” – que sua imaginação o estava traindo. Pedi que ele se controlasse, porque tudo se ajeitaria. Disse-lhe que ele só precisava relaxar e que não devia deixar as pessoas trata-lo como possuído por algo maligno, que seus deuses não eram piores do que o deus deles. Ele se acalmou.

Os crentes não gostaram nada disso. Quiseram me convencer de que eu ‘sabia’ a ‘verdade’ e que não podia renega-la. Talvez tenham pensado, a partir de suas crenças (de novo!), que o ‘demônio’ podia estar se aquietando para não me dar motivos para crer. Afinal, a presença do demônio seria uma prova da existência de Deus – pensam os próprios exorcistas. Mais uma vez, a crença ditava juízos a partir de uma razão viciada em encarar mitos como realidades autônomas.

Pessoalmente, já não sabia de quem sentir mais compaixão. Tentei convencê-los de que aquela gritaria exorcista só piorava o estado do rapaz. Disse que não estavam ajudando o moço a superar a dor, mas multiplicando seu sofrimento em meio a tudo aquilo. Como já era previsível, não me deram ouvidos.

O rapaz continuou implorando “eu quero Deus”.

Saí, dizendo que não sabia quem seria pior nessa história toda – deus ou o diabo.

Que deus é esse que não age. Que deus é esse que precisa dessa gritaria toda para ouvir um pedido? E que demônio é esse que não obedece ao seu Criador? O povo gritava a ficar rouco. Sem exagero algum, as alas psiquiátricas de qualquer hospital pareceria menos louca.

Senti muita pena do rapaz e dos exorcistas de plantão. No fundo, sei que todos eles querem o melhor. É por amor que fazem isso. Mas, amor sem conhecimento pode ser instrumento de sujeição, tanto de si mesmo a outros quanto de outros a si mesmo.

Mas era justamente o “filtro” da crença que não permitia que “possuído” e “exorcistas” vissem a contradição em que estavam envolvidos. Tudo fazia sentido de acordo com suas crenças: o mal que ele sofria era obra do capeta; a solução era Jesus. Ele mesmo deve ter achado que essa crença ‘limpinha’ – sem charuto, sem cachaça, sem defumador – só podia ser melhor do que a dele. Ledo engano. Os crentes têm outros vícios – entre eles, o da contradição: Deus pode fazer todo o bem que deseja, mas não faz. Agora, se Deus não faz o bem, podendo fazê-lo, então não pode ser bom. Contudo, eles continuam cantando “louvai ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua benignidade dura para sempre.” (Salmos 136:1)

A música amolece o coração e sua repetição entorpece o entendimento.

O resumo da ópera é que o rapaz continua cheio de problemas e frustrações, enquanto os exorcistas seguem cheios de fantasias e ilusões. E grande parte desses sofrimentos e fantasias é fruto das crenças que cada um abraçou ao longo da vida.

Todos eles precisam mais da psicanálise do que imaginam. A moça, talvez até de psiquiatria.

Viver dói. As crenças poderiam anestesiar a dor de alguma forma [placebo], mas ao mesmo tempo em que aliviam algumas, criam outras – a pior delas é a ideia de que não posso conduzir minha vida de modo belo, bom e sábio sem as muletas da fé. Pessoas que, do ponto de vista existencial, têm capacidade para andar sozinhas, para correr, pular, chutar, mas preferem mancar apoiados na fé. Pior ainda: sentem-se gratas por aquilo de que não precisam. Até estranham que outros não tenham muletas ou que – por via das dúvidas- façam uso delas, mas sem muita convicção.

Todo ser humano deveria caminhar pelas próprias pernas, lançando tais muletas por terra, criando seu próprio caminho a cada passo que dessem, fosse no dia da alegria ou da tristeza, do prazer ou da dor, porque a vida não é só uma coisa nem [só] outra. E todas elas terminam quando a morte chega – todas igualmente. Impreterivelmente.

Emancipar-se das crenças é sinal de amadurecimento, mas ser adulto dói. A maioria prefere viver eternamente sob a tutela de pais/mães imaginários, cercados de ‘irmãos’ que também se consideram filhos destes.

Não digo isso com arrogância. Digo-o com tristeza, porque sei que nenhuma evidência, argumento ou lição na vida – ao contradizer a crença – será sequer levado a sério pela maioria das pessoas. E a razão é simples: a maioria crê em alguma entidade imortal, sejam vários deuses ou um só, imanentes ou transcendentes, pessoais ou impessoais; bajulados por um séquito de colaboradores e contrariados por um ou mais adversários contumazes, sejam lá quais forem seus nomes.

Muita gente pensa que a vida sem fé no sobrenatural é mais difícil. Esse é outro juízo equivocado nascido da crença; apenas outro mecanismo de defesa. E não me surpreenderia que a maioria das pessoas nem sequer chegasse a ler metade desse texto. As mais resistentes talvez cheguem ao fim, mas com aquele pensamento nada original: “quando as coisas apertarem, ele vai correr para Deus. Todo mundo pode ser ateu em tempos de paz. Quero ver na hora da dor.”

Dizendo isso, apenas revelam que não podem conceber um ser humano absolutamente desprovido de crença no sobrenatural, no divino, no pós-morte, etc. Elas pensam que, bem lá no fundo, deve existir uma fagulha de fé que – se alimentada pela lenha da necessidade – há de se tornar numa fornalha de devoção. Esse é apenas um dos modos como quem crê lida com o desconforto de ver que há quem viva sem o menor vestígio de fé. E isso diz muito mais a respeito dos que creem do que a respeito dos que não.

Ironicamente, enquanto sofro por esse rapaz, essa moça e demais envolvidos, nutrindo o desejo de que todos eles se emancipem das crenças que iludem sua percepção e juízo, cerceando sua liberdade, acho que isso dificilmente acontecerá. Estatisticamente, é uma minoria que desperta do sono dogmático.

A vida, porém, ignorando teístas e ateus, segue sempre adiante, mas nunca em linha reta.




Também publicado no wordpress em 11 de julho de 2016.

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