O que o Facebook me ensinou?


Por que eliminei meu perfil com quase 4 mil pessoas?


O que o Facebook me ensinou?

Por Sergio Viula

Antes de mais nada, preciso dizer que, durante muito tempo, mantive dois perfis no Facebook: um aberto a todo mundo e outro voltado apenas para os meus alunos e colegas de trabalho. O meu perfil irrestrito tornou-se uma plataforma de militância em prol da comunidade LGBT. Também divulgava conteúdos ateus. Tanto que esse blog tinha fan page lá sob o mesmo nome. Pois bem, era nesse perfil meio ‘ativista’ que eu também publicava muitas informações sobre a minha vida pessoal: relacionamento conjugal, atividades nos meus horários livres, enfim, quase tudo o que me viesse à mente (e fosse publicável, é claro… ^^). Minha participação naquela rede social incluía várias fan pages e um grupo – tudo isso bastante frequentado. Graças a isso, fiz alguns amigos que me acrescentaram muito e mantive contato com pessoas com as quais não poderia interagir tão facilmente sem aquela ferramenta por causa da distância ou correria do dia-a-dia.
Por que foi, então, que eu saí do Facebook há dois meses, e  refiro-me ao meu perfil “militante”?
Alguns dos motivos foram os seguintes:
  1. Graças às ferramentas de publicação e compartilhamento do Facebook, fui “alvejado” inúmeras vezes por publicações que pendulavam da mais pobre estupidez ao mais desprezível discurso de ódio. E digo “alvejado” porque elas acertavam minha timeline como “balas perdidas”, mesmo quando não eram dirigidas a mim. Muitas vezes, ignorava a postagem e nem perdia tempo tentando discutir com quem, a despeito de tantas ferramentas para checar as informações, preferia viver na ilusão de que a mentira em que acreditava fosse a mais pura verdade. Houve pouquíssimas exceções. Uma delas foi quando um casal heterossexual publicou uma história “fake” sobre um suposto casal gay que teria abusado sexualmente de um filho adotado. Além de divulgar coisa falsa como verdadeira, a pessoa ainda se deu o trabalho de dizer o seguinte: “É para isso que eles querem adotar”. A história, porém, havia sido montada por algum desafeto da comunidade LGBT e já tinha sido desmentida por sites que investigam boatos. Pois bem, dessa vez, excepcionalmente, fiz uma intervenção. Fui lá e disse: Isso já foi provado que é “fake”, mas isso aqui é verdade. E coloquei a seguinte postagem como resposta: “Pastor abusa de filha desde que ela tinha 6 anos de idade”. A matéria jornalística acompanhava a manchete. A pessoa teve, pelo menos, o bom senso de se calar, mas muitos conseguem se enfiar ainda mais na lama da idiotice, tentando salvar a própria face em meio a desbunde total de ser pego num ato de má-fé. E se não puderem salvaguardar coisa alguma do que disseram, tentam usar a válvula de escape, ao estilo Chapolin Colorado: “Foi sem querer querendo”.
  1. Foi também graças à facilidade de se produzir e reproduzir absurdos, principalmente, em forma de textos ou de fotos legendadas, muitos deles pautados em moralismos baseados em crenças dogmáticas, especialmente aquelas com características fundamentalistas, sejam da ala católica ou da ala evangélica mais radicais, que muitas pessoas por quem eu nutria uma certa admiração me mostraram que não eram tão admiráveis quanto eu pensava até então. Que tristeza ser arrancado de uma doce ilusão por um choque de realidade como esse. Deve ser semelhante ao que sente o religioso quando percebe que se sacrificou em vão em nome de uma entidade espiritual (seja ela um deus, ou deusa, ou o que o valha) não mais real do que os Ursinhos Carinhosos, por exemplo. Se bem que os Ursinhos Carinhosos são muito mais úteis à formação moral das criancinhas do que qualquer catequese ou escola bíblica.
  1. As conexões que o Facebook faz entre um usuário e uma gama de pessoas completamente desconhecidas, só porque são amigas de outro usuário, podem se constituir num verdadeiro inferno existencial. Agora, multiplique esse potencial por quase 4 mil seguidores, que era o número de “amigos” que eu tinha (alguns eram e continuam sendo meus amigos de fato, mas a maioria não fazia jus à semântica do termo). Isso quer dizer que minhas publicações poderão ser expostas a centenas de milhares de pessoas em minutos. Também significa que eu verei o que essas centenas de milhares de desconhecidos também publicam. Alguns me acrescentavam muito, mas outros tantos, muitos outros mesmo, não faziam a menor diferença ou – muito mais tristemente – me faziam perceber que o sintagma “ser humano” está longe de poder ser devidamente qualificado como “evoluído”, especialmente quando se trata de ética, política, racionalidade, ciência, sexualidade, identidade e papéis de gênero, e coisas afins. Uma pessoa pode ser facilmente intoxicada por tanto veneno intelectual, moral e emocional ao mesmo tempo, constantemente veiculados pelos usuários da rede. Ah, e tem esses novos recursos que o Facebook passou a disponibilizar, que são o reconhecimento silencioso de que ódio, falsidade e fofoca marcam presença quase onipresente naquele espaço cibernético: você pode bloquear, só deixar de seguir ou desfazer amizade, além de uma série de outras restrições que você pode impor às pessoas sigilosamente, as quais poderão também ser usadas contra você e, em última análise, deixar todo mundo falando sozinho, enquanto acredita que outros ainda possam ouvi-lo. É a árvore podando a si mesma, isto é, a rede social trabalhando com a lógica do isolamento.
  1. E justamente porque uma simples frase pode gerar uma “treta” infindável, visto que muitas pessoas acreditam que podem dizer o que quiserem, sem qualquer noção de limite quantitativo ou qualitativo, perde-se um tempo preciosíssimo apontando a lua, enquanto elas olham o dedo. Uma argumentação bem construída também poderá gerar simplesmente um “block” que impedirá que ela chegue a outras pessoas que vinham acompanhando a discussão mesmo sem serem amigas ou seguidoras do cuidadoso argumentador. É como construir castelos de areia diante de verdadeiros tsunamis. Em outras palavras, o Facebook é amplificador de falatórios que dificilmente levam a algum crescimento, porque tudo o que se quer é dar a resposta que vai deixar o outro sem palavras. Rarissimamente, há silêncio diante de algo de que se discorda ou que se reprova por alguma razão. As pessoas parecem não compreender que é possível que esse silêncio diante do questionável – que raramente ocorre – não seja mera falta de argumento, mas apenas o famoso “deixar no vácuo”, quando se chega à conclusão de que, mesmo tendo um bom argumento para apresentar, não vale a pena seguir falando. Como supostamente teria dito um judeu não muito querido em seu próprio círculo, isso seria como “jogar pérolas aos porcos” – o poderia ser parafraseado assim: “Não dê a quem não é capaz de perceber o valor da dádiva aquilo que você tem de mais precioso”. Isso é o que frequentemente acontece no Facebook, infelizmente. Tenho amigas e amigos que escrevem textos brilhantes, os quais são ridicularizados por gente que não tem um grama de neurônios para entender o que eles tão brilhantemente expuseram. Fico feliz por ter amigos assim, mas sinto-me extremamente pessimista quanto à humanidade como um todo quando vejo como funciona aquela parte que revela o pior de si mesma nas redes sociais.
  1. A “mentalidade de gado” demonstrada por tanta gente que usa as redes sociais é outra coisa que me cansa. O indivíduo ouve uma frase de teor extremamente questionável, mas que lhe parece muito inteligente, e a reproduz ao infinito. Como ele, haverá centenas, talvez milhares, de indivíduos com as mesmas limitações cognitivas que repassarão aquela “pérola de sabedoria”. Qual é o resultado? Agora, você tem um bloco discursivo monolítico com ares de senso comum, ou seja, uma coisa que a gente pensa que todo mundo pensa e, por causa disso, tende a pensar como todo mundo, mas que, no final das contas, estava equivocada desde o começo, apesar de parecer se encaixar tão perfeitamente no mundinho quadradinho de um, e depois de outro, e depois de vários, e depois de muitos, para finalmente parecer até que é a opinião de todos, com ares de verdade universal. Só que não. As pessoas nem sempre percebem que foi sua própria “mentalidade de gado” que permitiu o surgimento dessa formação discursiva e sua cristalização. Nessa categoria, entram chavões, boatos, preconceitos, falas discriminatórias, condenações a réus que nunca compareceram diante de um juiz, incluindo casos como o da dona de casa que, acusada de usar crianças em rituais macabros, foi linchada em praça pública, só para, depois disso, perceberem os seus algozes que tudo não passava de invenção. Muitos deles, porém, acreditavam estar fazendo a “obra de deus”, livrando-se de uma bruxa – bem ao estilo medieval. Idiotas para quem não tenho adjetivos adequados.
  1. A morosidade do Facebook em banir promotores de discursos de ódio, inclusive os que fazem ameaças de morte (até mesmo de terroristas) tem permitido o uso dessa mídia para recrutamento de perigosos imbecis que vão de gangs urbanas a jovens que juram fidelidade ao Estado Islâmico, os quais são capazes de praticar atrocidades como o ataque à Boate Pulse em Orlando, ou os ataques em Paris, ou o ataque ao mercado de natal na Alemanha. Pior ainda, nossas informações pessoais ficam expostas a esses canalhas e podem ser usadas por eles.
Por essas e por outras, se há uma coisa que o Facebook me ensinou é que estar conectado a tanta gente ao mesmo tempo, com tantas possibilidades de interação, sendo tantos de nós ainda tão pouco evoluídos, do ponto de vista das mais básicas noções de humanismo, pode ser muito danoso para as relações e para a saúde mental, tanto a minha quanto a de outras pessoas. Talvez seja verdade que, através dessas interações, a gente possa descobrir quem é sincero com a gente ou quem age com falsidade (será mesmo?), mas eu cheguei a duas conclusões, pelo menos:
  1. Não acredito que possa transformar a minha própria realidade através do Facebook, muito menos mudar o mundo sendo trolado e respondendo a essas tretas sem pé nem cabeça num eterno encadeamento de enunciados inúteis.
  2. Não estou disposto a investir meu tempo livre na investigação de quem presta e quem não presta, quem é coerente e quem é incoerente, quem é evoluído, humanisticamente falando, e quem é um completo retardado sob, praticamente, todos os pontos de vista.
Alguns poderiam objetar que se eu encarasse o Facebook apenas como diversão, especialmente em se tratando de memes, eu não veria tanto mal nele. Concordo que alguns deles são engraçadinhos, mas até nisso tem gente que desrespeita qualquer noção de razoabilidade. Além disso, ficar no Facebook por causa de alguns memes divertidinhos é como suportar o cheiro de um cadáver só para poder aproveitar os sapatos de couro novinhos que o infeliz usava quando morreu. Simplesmente, o benefício não vale o custo. E nada em comunicação de massas é tão inofensivo ou inocente como querem nos fazer crer aqueles que dizem que o Facebook pode ser apenas uma diversão. Ele nunca será apenas uma diversão, pelo menos não para boa parte do usuários. As pessoas tomam decisões que vão das urnas ao divórcio por causa de tretas produzidas nesse ambiente virtual.
Agora, uma coisa é verdade: Tem muita gente maravilhosa no Facebook – meu marido, inclusive. Talvez, daqueles quase quatro mil “amigos” que eu acumulei, uns 50 fossem desse naipe, mas é simplesmente impossível manter controle absoluto sobre uma rede social como essa sem que nos tornemos praticamente funcionários – sem salário – do bilionário Zuckerberg, trabalhando criteriosa e dedicadamente para tentar construir um espaço livre de estupidez – o que, no final das contas, há de se mostrar uma grande e frustrante utopia. As ações do Facebook na bolsa de valores, por outro lado, se tornarão cada vez mais valiosas.
Não posso dizer “NUNCA” (aprendi com o Justin Bieber…^^), mas garanto que eu, DIFICILMENTE, criaria outro perfil no Facebook novamente. E para aumentar as probabilidades de que nada publicado por mim continuasse rodando naquele “mundo paralelo” sem minha possível participação, fiz o seguinte:
  1. Tornei todas as minhas postagens privadas. E em seguida, excluí todas elas. Assim, cerquei cada uma delas por dois lados diferentes, mas não posso garantir que ninguém tenha salvo alguma e possa republicá-la. Essa é uma probabilidade.
  2. Desassociei todos os meus amigos através de um aplicativo que faz o trabalho do “Cérebro” no filme dos X-Men… hehehehe Ele localiza todos eles e os deleta do meu círculo em segundos. Tchau, queridos! De alguns de vocês, eu sentirei saudades sinceras, mas vocês têm meu e-mail e podem falar comigo por esse blog e pelo foradoarmario.net. Sejam bem-vindos.
  3. Por fim, excluí a página definitivamente – o que significa que não a suspendi, apenas. Ela não existirá nunca mais. Outra poderia ser criada, mas essa não será reativada.
Lamentavelmente, uma ferramenta que poderia promover mais amizade, conhecimento e debates minimamente úteis e muito bem argumentados tem servido para promover muita desarmonia, desinformação, equívocos, acusações baratas e sem qualquer critério de racionalidade, entre outras coisas. E quando alguém, eventualmente, pega seu celular e tenta me atualizar de alguma treta, dizendo “olha só o que publicaram no Facebook”, eu só respondo que essa rede social está cada vez mais podre. E grande parte dessa podridão é produzida e mantida por indivíduos que se consideram “cidadãos de bem” e muito acima da margem, só que não percebem o quanto têm de fascismo em si mesmos. Muitos desses “seres superiores”, fidelíssimos à “moral e aos bons costumes” (só que não) são os mesmos que perderam o bonde da evolução intelectual, emocional e ética. Enquanto isso, algumas pessoas que jamais serão capazes de escrever uma só linha no Facebook ou em qualquer outra rede social – porque são analfabetas – se mostram mais sábias que todos eles. Eu conheço algumas que, sem terem pisado na escola ou permanecido lá por tempo suficiente para aprenderem a ler e a escrever, são pessoas infinitamente mais evoluídas do que aquelas que se põem a escrever comentários ridiculamente despropositados ou absolutamente equivocados, não só em suas timelines, mas nas postagens de outras pessoas, as quais nunca lhes pediram qualquer opinião.
Infelizmente, sair do Facebook não garante que estejamos longe de sua influência, tendo em vista que qualquer coisa que se diga fora dele poderá ser introduzida em sua esfera a qualquer momento, bastando que alguém a reproduza através de um parágrafo ou de uma foto ou de um vídeo. Feito isso, qualquer banalidade entra no fluxo interativo dos usuários do Facebook. E se for coisa realmente relevante, as consequências podem ser ainda mais desastrosas.
Verdadeiros infernos podem ser armados dentro de uma família, de um escritório e/ou de qualquer outro ambiente onde as pessoas tenham contato ao vivo ou mantenham relações nem sempre fáceis de romper em caso de intensa desavença. O que se pode fazer, então? Apertar o botão do “dane-se” (estou sendo mais gentil do que geralmente sou) e seguir em frente? O problema é que há casos em que o prejuízo pessoal causado por uma rede de fofoqueiros pode ser materialmente e/ou emocionalmente alto demais, até mesmo irreparável. Basta que vejamos quantas pessoas já se suicidaram por causa de cyberbullying. Definitivamente, nada disso configura mera diversão inocente.
Que pena que o Pokémon Go não colou… Se tivesse vingado, a gente não precisaria mandar certas pessoas caçarem aquilo que um determinado pastor procura até agora, né, Boechat? Elas já estariam caçando um monte de bonequinhos inocentes.
Infelizmente, o que mais tem nesse mundo é gente disposta a defender posicionamentos como os do referido pregador em nome da “moralidade”, dos “bons costumes” e da “família”. Só não percebem como esse mantra é – ele mesmo – um daqueles chavões repetidos sem o menor escrutínio racional, tratando-se quase de um encantamento que torna as pessoas automaticamente insensíveis diante de questões que são verdadeiramente relevantes para a felicidade e harmonia individual e social. Enquanto isso, esses patifes vão depenando o pouco que elas têm sem que nem se deem conta disso. É provável que essas pessoas até acreditem que são uma classe especial de indivíduos, uma espécie de casta que conta com algum tipo de favor divino, exclusivamente concedido aos que juram fidelidade a tais embusteiros e às suas repetidas violações contra a dignidade das pessoas. Só que não. Elas estão apenas servindo de massa de manobra. Por outro lado, existem muitas que, sentindo-se indignadas com tanta estupidez, não se submetem a esses patifes de modo algum. Gosto de pensar que sou dessas! E acho que eles sabem disso. ^^

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