O que é um ateu? – Pensando ateísmo com um viés humanista.


Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA





O que é um ateu?
Pensando ateísmo com um viés humanista.



Ser ateu é simplesmente não afirmar a existência de divindade alguma ou afirmar a inexistência de qualquer uma delas. O termo já foi aplicado a quem negasse um ou mais deuses de um panteão, ou a quem simplesmente não sacrificasse a tais deuses, ou a quem não lhes desse um status maior do que o mítico. Daí, terem os cristãos sido chamados de ateus nos primórdios de sua comunidade. Explico: Como eles não adoravam mais os deuses romanos e nem sacrificavam ao imperador de Roma, eram acusados de ateísmo. Arrumaram uma dupla celeuma, já que mesmo afirmando a crença no deus judaico, eram odiados pelos judeus, que viam neles hereges corruptores da religião ao atribuírem a Jesus uma posição superior à de Moisés, além de considerarem os escritos evangélicos e epistolares como sendo a última revelação divina.


Resumo da ópera: Os primeiros cristãos eram vistos pelos fariseus e saduceus como uma seita do judaísmo, ainda que herege (a dos Nazarenos), e pelos romanos acusados de serem ateus e inimigos do imperador.


Portanto, historicamente, os termos ateu e ateísmo não têm muito do que se gloriar, uma vez que esses cristãos não eram ateus de modo algum. Eram teístas, mas de um deus só, ou seja, MONO-TEÍSTAS.


Ateísmo, como o definimos hoje, é a total falta de crença em qualquer divindade, vida pós-morte, julgamentos e recompensas, ou qualquer outra ideia relacionada ao sobrenatural.


Partindo dessa definição do que é ser ateu, algumas perguntas surgem. Abordarei quatro delas:
Então, a vida é só isso aqui?
De onde um ateu extrai sua moralidade, sua ética?
A quem um ateu recorre nas horas de crise?
Será que o ateu não tem medo de estar enganado?


Essas perguntas surgem porque, mesmo a pessoa menos comprometida com sua religião ou crença, pensa que seria impossível viver sem ela.


Vejamos, então, o que este ateu pode sugerir como resposta a cada um desses questionamentos.
A vida é só isso aqui?


O primeiro equívoco é o advérbio de exclusão “só”. Ele indica exclusão da vida além, mas também parece lamentar que tenhamos apenas essa vida aqui e agora, como se isso fosse pouca coisa. Viver é fantástico, salvo quando há dor insuportável e intermitente ou quando nossas faculdades mentais e capacidades motoras são comprometidas ao ponto de apenas vegetarmos.


Exceto por essas ditas circunstâncias, quando olhamos em volta e vemos todas as possibilidades de experiências sensório-motoras, bem como todos os estímulos cognitivos que nos cercam, e todo o potencial que temos em nós mesmos para lidar com tudo isso, produzindo coisas novas a partir da combinação de nossas experiências com a inteligência que já desenvolvemos, não há como usar o advérbio “só” em relação à vida e ao mundo que nos cerca, sem termos ignorado muito dessa realidade. E isso é o que faz a maioria das crenças: desprezar a realidade, desprezar o mundo que nos cerca, desprezar o corpo e suas potencialidades, desprezar o prazer, a alegria, e a felicidade aqui e agora, adiando tudo isso para mundos imaginários e existências fora do corpo ou, quando muito, num corpo espiritualizado.


Os ateus não se iludem com promessas infantis e que nunca podem ser verificadas. Não apostam o que têm para tentar ganhar o que não existe ou que não pode ser demonstrado. Por isso, não acham que a vida é “só” isso aqui; acham que a vida é “tudo” isso aqui e que “nada” disso aqui pode ser desperdiçado, porque é único, é fantástico, e não vai durar para sempre.
De onde um ateu extrai sua moralidade, sua ética?


Moralidade vem do latim “mores”, que quer dizer costumes. É importante observar que os costumes mudam, felizmente mudam. Ateus não se atém a uma moralidade com ares de sagrada, de ordem divinamente desenhada para o funcionamento do mundo da vida. Não. A moralidade evolui conforme nossa inteligência e experiências também avançam. Daí, a oposição ferrenha de muitos ateus ao moralismo. Lembrando que moralismo é a tentativa de conservar os costumes que foram, em determinado momento da história, considerados como preceitos divinos ou dados inquestionavelmente naturais. Cada religião tem seu próprio moralismo. A religião judaica quer conservar os costumes dos tempos de Moisés; a religião cristã quer conservar os costumes dos tempos de Jesus, dos apóstolos, dos patriarcas da igreja (católicos e ortodoxos) ou dos reformadores (protestantes); os muçulmanos querem conservar os costumes dos tempos de Maomé. E assim, o conservadorismo moralista dessas religiões vai criando obstáculos à revolução dos costumes, que se dá como resultado de novas evidências científicas, de novas questões que se colocam diante de nós todos os dias, de novas e legítimas demandas individuais e sociais – rejeitam tudo isso em nome de conservar os costumes supostamente sagrados atribuídos a este ou aquele profeta (vejam que são todos homens) num determinado momento histórico.


Etimologicamente, a palavra grega “ethos”, de onde vem ética, corresponde à palavra latina “mores”, de onde vem moral. Por isso, as duas são usadas alternadamente para falar dos costumes. Com o tempo, a palavra ética passou a se referir às nossas reflexões sistemáticas e à atitude filosófica que tratam da nossa subjetividade e de como lidamos com essas prescrições de conduta, se aceitamos de forma integral ou não esses valores normativos. Os valores deixam de ter aquela aura de sagrado. Podemos valorar os valores ou não valorá-los mais. Essa é uma ideia que assusta os que absolutizam os costumes em nome de suas divindades. Eles tremem diante da ideia de que somos nós mesmos que estabelecemos por meio da razão e da interação com outros seres humanos o que é correto adotar como ético ou moral e o que devemos considerar antiético ou imoral. O que é curioso notar é que grande parte dos preceitos e mandamentos religiosos considerados sagrados ontem não passam pelo teste da racionalidade secularista e humanista hoje. Por isso, não é de admirar que esses religiosos queiram impedir o avanço do livre pensamento.


Infelizmente, há ateus que apenas repetem o mantra dos conservadores que diz “estamos perdendo os valores” ou “ninguém mais honra os antigos valores”. Essas frases são muitas vezes fruto de um ressentimento disfarçado diante dos avanços que temos feito à revelia do moralismo religioso. Cito alguns: os direitos humanos, especificamente os direitos femininos, o combate ao racismo, os direitos LGBT; a secularização da educação; o recurso à ciência como explicação para os fenômenos da natureza; o evolucionismo como explicação para a diversidade biológica; o direito à eutanásia; o direito ao aborto; o uso da camisinha, etc.


De acordo com a Associação Britânica de Humanistas (British Humanist Association), em 2011:


“O humanismo é uma abordagem à vida baseada na humanidade e na razão. Humanistas reconhecem que valores morais são apropriadamente fundamentados exclusivamente na natureza humana e na experiência e que os alvos da moralidade deveriam ser o bem-estar humano, a felicidade e a realização. Nossas decisões são baseadas nas evidências disponíveis e na nossa avaliação dos resultados de nossas ações, não em qualquer dogma ou texto sagrado.”


Assim, a moral ou a ética de um ateu deve ser fruto de sua reflexão racional, considerando todas as evidências disponíveis, e priorizando a felicidade e o desenvolvimento humanos aqui e agora, preferencialmente com uma abordagem consequencialista. É claro que muitos ateus não estão habituados a essa prática e acabam, como qualquer outra pessoa, sendo levados ao sabor dos ventos de doutrina que aparecem por aí, sejam elas religiosas, políticas ou apenas preconceitos com nova roupagem. Tais ateus ainda estão vivendo sob o domínio conservador que as religiões vigentes adoram cultivar, mas ainda não se deram conta disso. Tudo isso, porque não é fácil viver racionalmente. É muito mais fácil achar que se vive racionalmente, só para contradizer a si mesmo logo em seguida, seja por atos ou palavras. Isso acontece com elevada frequência no campo das discussões éticas ou morais.
A quem os ateus recorrem nas horas de crise?


A qualquer pessoa ou solução disponível, menos aos deuses. Para um ateu, rezadeiras, benzedeiras, correntes, orações oferendas, promessas, votos, e coisas do tipo nada mais são do que rituais vazios. São gestuais e palavrórios sem qualquer ressonância na realidade. Por isso, um ateu de fato não tem o menor receio de maldições, mandingas, olho grande, etc., assim como também não deposita a menor esperança no contrário disso.


Quando um ateu enfrenta uma crise, ele conta consigo mesmo; com as possibilidades que o mundo da vida lhe oferecem; com seus verdadeiros amigos e entes queridos. E quando não há solução disponível, como no caso de um câncer ainda sem cura, ele procura viver seus dias com dignidade, ainda que sofra diante da ideia de que, dentro em pouco, não mais verá as pessoas e as coisas que ama. Mas, ele sabe que a morte é o fim da dor e que se os deuses e seus rituais realmente funcionassem, o cemitério estaria vazio e os hospitais seriam apenas figuras decorativas sem a menor utilidade. Não é o que acontece, visto que os crentes morrem das mesmas coisas que os ateus, não importando o quanto orem e chorem diante de seus deuses.


Por isso, é lógico pensar que um ateu viverá com responsabilidade . Isso em tese, porque há ateus irresponsáveis que acabam vivendo menos do que poderiam viver ou numa condição pior do que poderiam desfrutar, porque não puseram a cabeça para funcionar antes de tomarem certas decisões. Para toda ação, há uma ou mais reações, e quando o ateu encara a vida assim, ele acaba evitando muitos problemas. Se ainda assim, surgir uma crise em sua vida, ele pensará o mais racionalmente possível sobre como agir diante dela, porque sabe que não pode contar com mãozinhas invisíveis, assim como os crentes também não. A diferença é que o ateu sabe disso e nem perde seu tempo falando sozinho.


E por isso também um ateu, ao menos um ateu humanista, nunca responderá ao sofrimento humano com uma frase de efeito do tipo “deus vai te ajudar” ou “deus sabe o que faz”. Muito menos com frases carregadas de culpa e julgamento: “deve ser teu carma” ou “deus está te disciplinando”. Pelo contrário, diante das misérias humanas ou de acidentes naturais, um ateu, ao menos um ateu humanista, fará o que estiver a seu alcance e mobilizará outros para eliminarem juntos as causas do sofrimento ou reduzirem-no ao máximo. Ateus insensíveis diante do sofrimento humano não são melhores do que muitos de seus parentes mamíferos (macacos, golfinhos, elefantes), os quais demonstram solidariedade em níveis comoventes, mesmo sem terem atingido o nível de consciência que nós, animais da espécie humana, já desenvolvemos. Por outro lado, ateus não devem se comover com o discurso malicioso de aproveitadores que usam o sofrimento humano como ferramenta de manipulação para arrancar dinheiro aos trouxas. Desta estirpe, podemos encontrar em todos os níveis – desde pedintes profissionais em transporte público até pastores e sacerdotes de todos os tipos.
Será que o ateu não tem medo de estar enganado?


Essa pergunta já traz em si aquele velho medinho que as religiões adoram usar para manterem seus templos cheios.


Muitos ateus não foram ateus a vida toda. Muitos tiveram religião ou crença numa divindade qualquer. Alguns foram extremamente comprometidos com os deuses que cultuavam em tempos idos. Fez parte do processo de emancipação do pensamento religioso sentir algum medo de estar enganado sobre a não-existência de tais deuses. Mas, esse medo era parte daquele sistema de crenças. Uma vez que a pessoa esteja emancipada literal e honestamente dos vícios do pensamento religioso, ela não terá mais medo de que, afinal, algum deus exista. Pelo contrário, ela se perguntará como é que pôde acreditar, amar e temer aqueles deuses e suas doutrinas por tanto tempo.


Além disso, crer neste ou naquele deus não garante que, caso existisse mesmo vida além da morte, a pessoa que crê estaria em bons termos com a divindade. Explico por quê:


Cada um dos deuses no ‘mercado’ religioso concorre entre si. Alguns deles são inimigos mortais. Os atributos que são sagrados num deles são profanos nos outros. Por exemplo, Alá não é Jeová. Quem adora Alá ofende Jeová e quem adora Jeová ofende a Alá. Dizer que Deus tem um filho é motivo para ir para o inferno islâmico. Dizer que Jesus não é Filho de Deus é motivo para ir para o inferno cristão. Assim sendo, crer num ou em mais de um deus não garante que você creia no deus certo ou do jeito certo; não garante que você está agradando realmente ao deus verdadeiro. Ao contrário, você pode até estar ofendendo gravemente esse deus. O problema é que todo mundo acha que seu deus é o verdadeiro e seu jeito de cultua-lo é o certo. Isso, porém, é absolutamente arbitrário. Até a escolha de qual livro considerar sagrado ou de qual tradição oral reputar como fiel é arbitrária. Mesmo a crença no conforto do divino, como se os deuses pudessem nos dizer o que fazer, não passa de uma ilusão, porque, no final das contas, é o crente que tem que decidir qual é a crença verdadeira. E o resumo da ópera é que ele não sabe. Nunca saberá com certeza. Daí, os crentes recorrerem ao artifício da fé: “Ah, mas eu creio”. Oh, que grande garantia! Que evidência fantástica! Só que não!


Crer é nada mais que atribuir a uma ideia um status de realidade que ela não tem. Mesmo sem evidência, o crente continuará dizendo que deus é tão real quanto o ar que ele respira. Porém, autossugestão não comove pessoas acostumadas ao livre pensamento. Os ateus não sentem a menor comoção diante de assertivas baseadas em crença. Crer nada mais é do que atribuir uma enorme carga de afetividade a uma ideia completamente vazia de realidade fora do âmbito do pensamento. Deus é uma ideia. O problema é que os crentes consideram essa ideia uma realidade com existência própria. Eis aí seu maior engano.


Agora, vejam que são esses exatamente esses crentes que nos perguntam se não temos medo de estarmos enganados. Diante disso, rimos ou choramos, amigas e amigos? É difícil dizer.


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* Sergio Viula foi pastor batista, é formado em filosofia, administrador do blog Fora do Armário www.foradoarmario.net, autor de Em Busca de Mim Mesmo, livro que fala sobre religião, sexualidade e ateísmo, é membro da Liga Humanista Secular do Brasil, e pode ser encontrado no Facebook em:https://www.facebook.com/sergio.viula




Republicado em 25 de outubro de 2016 antes de figurar aqui.

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