O que aprendemos com o jovem egípcio preso por ser ateu e defender uma abordagem científica para com a vida?


Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA



Foto (perfil no FB): Sherif Gaber, jovem universitário ateu preso por defender uma atitude científica para com os temas de uma aula de ciência.



Fonte: The Huff Atheist
Tradução Sergio Viula



Um universitário de 22 anos de idade foi sentenciado por uma corte egípcia a um ano de prisão por “desprezo à religião”, de acordo com o Daily News Egypt.


Sherif Gaber estava estudando comércio na Universidade do Canal do Suez em Ismailia quando a administração da instituição o denunciou para as autoridades em 2013 por supostamente criar uma página pró-ateísmo no Facebook. De acordo com a sentença da corte, Gaber poderia ser liberado sob uma fiança de aproximadamente 130 dólares até que sua apelação começasse, disseram fontes jurídicas a AFP.

“As condições de livre expressão nas universidades egípcias são muito ruins” – disse Fatma Serag, uma advogada da Associação para o Livre Pensamento e Expressão (Association for Freedom of Thought and Expression [AFTE]), ao Daily News Egypt. “Eu condeno fortemente a sentença publicada contra Sherif Gaber, e espero que sua inocência seja garantida através da apelação.”

Os apoiadores do estudante criaram uma petição chamada “Free Sherif Gaber” no site Change.org e uma página no Facebook para conscientizar as pessoas sobre o caso, que é uma de várias condenações contra apoiadores do ateísmo no Egito nos últimos anos.

Em janeiro, o jovem Karim Ashraf Mohammed al-Banna, 21 anos, foi sentenciado a três anos de prisão por insultar o Islã promovendo ateísmo no Facebook. Alber Saber, um blogueiro de 27 anos, foi acusado de blasfêmia e recebeu uma sentença de três anos em 2012 por criar uma página na internet chamada “Ateus Egípcios”.

O artigo 64 da Constituição egípcia declara que “a liberdade de religião é absoluta”, de acordo com a organização de direitos humanos Human Rights Watch. Mas o artigo 98 do Código Penal egípcio diz que uma pessoa pode ser sentenciada a uma pena que varia de seis meses a cinco anos de prisão por “explorar a religião, seja por palavras, texto ou quaisquer outros meios, ou ideias extremas, com o propósito de incitar desavença, ridicularizando ou insultando (as fés abraâmicas) ou alguma seita delas, ou prejudicando a unidade nacional.”

——————————————

COMENTÁRIO DE SERGIO VIULA


Depois de ter contato com essa notícia, saí em busca de mais informações sobre Sherif Gaber. Encontrei um Wiki sobre ele que explicava exatamente qual foi o embate que resultou em sua entrega às autoridades pela universidade.

Ele estava matriculado numa aula de ciência, sob a responsabilidade de um professor chamado Elsaid Farrag. Em uma das aulas, o Professor Farrag estava dando uma palestra sobre homossexualidade e declarou: “A homossexualidade é pecado. Gays e lésbicas devem ser crucificados no meio das ruas, apedrejados, e queimados até a morte! É um pecado nojento de se cometer e quem o apoia é contra o plano de Deus”.

Em resposta à declaração do professor, Gaber sugeriu que se olhasse para a homossexualidade de um ponto de vista científico, uma vez que aquela era uma aula de ciência. Ele perguntou: “Existe alguma teoria científica que sugira que a homossexualidade não seja natural ou que seja errada?”.

Farrag não respondeu sua pergunta e passou a questionar as crenças religiosas do jovem Gaber. Foi então que Gaber lhe disse que acreditava na ciência, uma vez que ela tinha mais suporte do que o Corão e listou um punhado de associações científicas que têm provado cientificamente que a homossexualidade não é uma escolha e nem antinatural.

“Então você é gay e ama homens, não é?”, perguntou o professor. Gaber lhe disse que se ele fosse gay, ele teria lhe dito e que não é algo do que alguém deva se envergonhar, porque não é errado”. Ele continuou: “O que você disse momentos atrás, sobre mata-los, isso seria um ato criminoso.”

Farrag então proibiu que ele participasse da aula de novo, ameaçando estender seu tempo na instituição para oito anos, e ameaçou lhe dar uma nota de reprovação em cada curso. O professor continuou a assediá-lo publicamente pelas restantes duas horas de aula.

Na semana seguinte, Farrag com outros professores, um deles chamado Ramy Mohammad Husien seguravam uma versão impressa de tudo o que ele tinha postado em sua página no Facebook e que consideravam contraditórias com o que Islã ensina ou que fossem a favor da livre expressão. Eles leram as publicações em voz alta para a turma. O professor Farrag concluiu dizendo a Gaber, e a toda a sua turma, que entregaria os papéis ao promotor público para prendê-lo. Gaber recebeu um F (nota de reprovação) naquela matéria em junho de 2013, mesmo tendo tirado um A+ (nota máxima) no final do primeiro semestre, em janeiro de 2013.

O que me chama atenção aqui, entre outras coisas, é como esse jovem compreendia que a cientificidade dessas falas preconceituosas contra a homossexualidade era tão nula quanto a boa fé do professor Farrag. Enquanto isso, vemos gente no Brasil, que apesar de ter muito mais oportunidades de contato com boas fontes de conhecimento, preferem permanecer na ignorância das fés abraâmicas no que diz respeito à sexualidade, repetindo mecanicamente esse maldito mantra homofóbico.

Em tempos de imigração em massa da Síria e seu entorno para a Europa e para as Américas, vale lembrar que muitos desses imigrantes, que nada mais têm a perder, senão a própria vida, são seguidores de religiões majoritárias nos países onde buscam refúgio (cadê a fraternidade dos que professam a mesma fé?), são ateus (lembrem-se disso, ateus, agnósticos, humanistas secularistas, etc), são LGBT (não esqueçam que só por isso já poderiam ser enforcados, apedrejados ou queimados vivos, amiguinhos sexodiversos e transgênero), são pais que não querem ter as filhas usufruídas à força por sequestradores/estupradores do Estado Islâmico e grupos semelhantes, e muçulmanos que só querem viver em paz. Devolver essa gente é como entregar judeus à SS durante o regime nazista na Alemanha, ou acusar alguém de comunismo aos militares no Brasil de 1964, entregar uma mulher ao inquisidor sob a acusação de bruxaria durante, principalmente nos reinos de Portugal e Espanha. Ora, quem lamenta essas crueldades no passado, mas não se sensibiliza diante da situação dos atuais refugiados deve sofrer de algum tipo de esquizofrenia cognitivo-afetiva. Afinal, parece que empatia não é para qualquer um. Perguntem aos macacos. Eles costumam demonstra-la sem moderação.

E para finalizar, outra coisa que me chama atenção é o pouco valor que damos às ferramentas que temos à nossa disposição para divulgação do ateísmo, do ceticismo, da ciência, do humanismo, do secularismo, do laicismo, etc. Felizmente, cresce a cada dia o número de ateus do quilate de Sherif Gaber – um garoto que virou um ícone para mim desde que soube de sua história. A neurose conservadora-fascista-fundamentalista perde e não é pouco, não.



Republicado em 25 de outubro de 2016 antes de figurar aqui.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A face mutante do Diabo e sua utilidade para a igreja

De onde vem essa história de que a carne é fraca?

Os fantasmas da (i)moralidade religiosa querendo assombrar o ensino de biologia