O privilégio de ser



Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA





O Privilégio de Ser


Não existe coisa mais interessante, mais intrigante, mais atraente, mais cativante do que a VIDA! Ela é paradoxalmente prazer e dor – ou dor e prazer? – a ordem não importa. Processos incrivelmente complexos deram origem à vida. Mas, o conceito de vida é muito amplo e se aplica a muitos seres além do homem. Que bom!

Estive, porém, pensando no tanto que a vida esforça-se, desdobra-se, faz-se e desfaz-se até que cheguemos a ser quem somos. E que privilégio é SER!!! Sim, porque se pensarmos cuidadosamente, ser é exceção. Existem muitos motivos para deixarmos de ser, e, contudo, somos. Desde a fecundação muita coisa concorreu contra nós.

Mas, desde que a gente chega do lado claro da vida (o útero é pura escuridão), já tem gente dizendo o que a gente vai ser quando crescer. As apostas vão de presidente da república até craque de futebol – no caso do garoto. No caso das garotas, as apostas são bem mais modestas. Felizmente, elas têm provado que seus “modestos” apostadores estavam errados: elas podem e fazem mais do que o “esperado”, mas não todas, é claro. Nada é um bloco uniforme no mundo da vida.

De qualquer modo, parece que todo mundo quer dar palpite. A gente nem percebe, mas já vai internalizando tudo isso. E que merda pra se livrar disso depois. As pessoas ditam qual vai ser nosso time, em que escola estudar, quem vai ser convidado para nossas festinhas infantis, quando vamos começar a namorar, com quem vamos nos casar, quantos filhos vamos ter, e o cacete a quatro.

Por fim, a gente passa a acreditar em tudo o que ouviu e no que continua ouvindo dos outros a nosso próprio respeito. A interpretação alheia vai subjetivando nossa individualidade sem que sequer nos demos conta disso. Pessoas que não têm a mínima ideia do que acontece dentro da gente teimam em dar palpites não solicitados, verdadeiros alienígenas que invadem o espaço alheio. Pior ainda é que esses “donos da verdade” e “vigilantes da vida alheia”, mesmo que seja a vida de seus filhos, sobrinhos ou netos, ficam putos se a gente criar alguma resistência; querem anuência, mas o melhor que podemos fazer é investigar que condições de verdade geraram tais verdades, tais interpretações, a naturalização de tais roteiros arbitrários para a vida alheia. Sai pra lá, jacaré!

Durante tempo demais, eu deixei o script criado por outros ao meu redor conduzir minha vida. Eu não era diretor do meu show. Era apenas um ator seguindo um roteiro sob a direção de muitos moralistas – o que é perigosíssimo, mesmo quando essas pessoas são bem-intencionadas. É sufocante viver enterrado sob tantas expectativas alheias e conceitos de normalidade arbitrariamente construídos por outros; regrinhas imbecis extraídas da superstição religiosa, etc. E essa é, infelizmente, a vida da maioria, talvez até de muitos que me leem aqui.

Fui com a correnteza. Cresci, namorei, casei, gerei dois filhos (lindos!!!!), estudei teologia, fui ordenado pastor, trabalhei como missionário, conselheiro, pastor de igreja, escritor evangélico, tradutor de livros cristãos, etc., etc., etc. Até que um dia aquele garotinho que tinha conseguido a façanha de nascer, crescer e desenvolver tantas habilidades pessoais – algumas nunca valorizadas pelos moralistas de plantão por desafiarem o status quo que eles arduamente procuram preservar, mas que, felizmente, vai mudando a cada dia – decidiu dar a volta por cima; decidiu usufruir intensamente o privilégio de ser.

Cheguei à conclusão que já era hora de arriscar viver fora da bolha de plástico das superstições religiosas e dos preconceitos sociais. Saí do armário. Assumi que era gay – uma parte tão bonita de mim que havia tanto tempo vinha sendo negligenciada, empurrada para baixo, maquiada, mascarada, batizada com outros nomes (alguns tétricos!!!), mas nunca extinta. Foi duro. Muita luta. Muito embate. Muita controvérsia. Mas é típico do SER o esforço para permanecer sendo. Então, forças vieram do subterrâneo, da mesma masmorra onde outrora meu SER mais íntimo havia sido mantido encarcerado. Mas valeu o esforço… Que gostoso poder ver o sol da liberdade em raios fúlgidos brilhar no céu da mente em toda sua racionalidade, sensibilidade e ousadia! Que delícia poder respirar o ar puro que só existe fora desse armário existencial, seja ele o da sexualidade, o do gênero, o da religiosidade, o do ambiente familiar/social, entre outros.

Muita gente ficou perplexa. De que adiantou todo aquele condicionamento psicológico? De que adiantou toda aquela doutrinação religiosa? De que adiantaram todas aquelas ameaças terrenas e extraterrenas? Ou mesmo aquelas promessas pós-mundanas? De que adiantou exaltar extraordinariamente uma orientação sexual (a heterossexual) em detrimento de todas as outras (especialmente, a homossexual)? De que adiantou repetir a perder a consciência que o “só o Senhor é Deus”, quando ele não é melhor que qualquer dos Deuses que morreram com o fim dos sistemas dos quais eles se utilizavam para se manterem?

Fico triste quando vejo outras pessoas que nunca passaram por toda essa perda de tempo que eu passei acreditando que poderiam ser felizes se fizessem um caminho semelhante ao que eu deixei para trás. Não consigo evitar pensar que elas ainda não compreenderam o privilégio de serem quem são. Ainda não notaram como são especiais. Pensam que alguém possa ser especialista em vida, de tal maneira que possa lhes dizer como devem pensar, o que devem dizer, o que devem fazer, como devem se sentir, de modo que possam ser mais felizes. A principal palavra-chave delas é o verbo dever no imperativo; a segunda é o verbo poder no imperativo, só que negativo: “Deve” e “não pode”. E isso só pega tanta gente, porque a maioria das pessoas está sempre com os olhos postos mais sobre os outros do que sobre si mesmas, porque para olhar nos próprios olhos, o indivíduo precisa de espelho. Não é algo que se dê tão naturalmente. Sem espelho é impossível ver o próprio rosto, mas é possível, pela arte de pensar racionalmente e com boa fundamentação, dobrar-se sobre si mesmo, e pensar a si mesmo, e refazer-se, colocar-se de um modo diferente no mundo.

Não existe varinha de condão. Cada um terá que construir-se a si mesmo com o material que a própria natureza e a experiência lhe deram. Então, SEJA com toda a capacidade do seu SER, porque nenhum de nós será para sempre, não nesta mesma configuração. A qualquer momento, poderemos ser pó, e de pó virmos a ser outra coisa qualquer no esquema natural das coisas, mas, felizmente, por enquanto, desfrutamos o privilégio deste momento único em que somos e podemos ser de muitas maneiras. Muita gente já deixou de ser, inclusive algumas pessoas que nos pareciam indispensáveis. A vida seguiu em frente, não seguiu? Algum dia será a nossa vez. Mas enquanto estamos vivos e capazes de realizar nossos desejos, SEJAMOS tudo o que pudermos, superando obstáculos. Vontade de potência! Expansão! E por que não adotar como eixo de tudo isso a multiplicação da felicidade, tanto a nossa como a dos outros, no melhor das nossas possibilidades?

E se a resposta para a pergunta “Por que não posso ser assim?” for: “Porque Deus quer assim”, ou “Porque eu fui criado assim na minha família”, ou “Porque não é normal”, ou “Porque minha religião não deixa”, ou “Porque todo mundo pensa assim”, ou outras semelhantes – todas elas serão tão infundadas quanto dizer que o ferro afunda na água, porque deus quer. Tais respostas não passam de repetição, reprodução de tradições, que nada mais são do que consenso de um determinado grupo, meras arbitrariedades.

Invente-se, crie-se, faça-se na versão que melhor expresse a si mesmo, tendo como limite aquilo que não subtrai ao outros o que é direito legítimo deles, mas que também não deixa que eles lhe subtraíam aquilo que é seu direito legítimo, sendo o principal desses direitos a liberdade de ser você mesmo, com tudo o que você construir para o seu bem e de sua comunidade. Penso BEM aqui como aquilo que expande suas possibilidades de realização, sua felicidade, sua autonomia sem impedir que os outros façam o mesmo.

E para quem não gostar do nosso jeito resolvido de experimentar a vida, ofereçamos caridosamente a nossa mais completa indiferença, não sem uma certa dose de ironia, porque ninguém mais infeliz do que aquele que se incomoda com a felicidade alheia. Como diz Maria Betânia:

E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho

Como sou feliz, eu quero ver feliz

Quem andar comigo, vem







Republicado em 25 de outubro de 2016 antes de figurar aqui.

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