NATEU: guia para o natal de um ateu


Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA



NATEU: GUIA PARA O NATAL DE UM ATEU



É absolutamente desnecessário gastar neurônios para explicar ou entender que Jesus não nasceu em 25 de dezembro. A data foi estrategicamente escolhida para substituir os festejos a outros deuses que eram celebrados no solstício de verão ou de inverno, dependendo do hemisfério em que o indivíduo vivia. Na verdade, a própria existência de Jesus é questionável.


De qualquer modo, um mito tomado como verdade pode catalisar mais emoções do que os fatos mais evidentemente demonstrados. Cito, a título de exemplificação, o poder que os contos de fada exercem sobre crianças, jovens, adultos e idosos, em maior ou menor grau. Até hoje as pessoas pagam caro para se encantarem com peças, musicais e filmes que reproduzam fábulas como Cinderela, Branca de Neve, e Chapeuzinho Vermelho. Sem falar nas contemporâneas princesas da Disney e de outros fabricantes de sonhos.


Com isso, quero dizer que o natal tornou-se o grande conto de fadas do cristianismo, através do qual rios de dinheiro têm abastecido os cofres de todo tipo de empresas, principalmente no Ocidente, bem como as receitas de governos ávidos pelos impostos gerados por esse comércio nada inocente.


Até a China, de maioria budista, e a Índia, de maioria hindu, aderiram às festividades natalinas, apesar do natal cristão ser um corpo estranho flutuando no espectro dessas crenças, ambas muito mais antigas do que o mito do deus que engravidou uma virgem judia, já desposada por um judeu mais velho, para gerar o deus-homem que havia de salvar o mundo – uma edição revisada de mitologias “pagãs” amplamente conhecidas naquela época e preservadas até hoje através de documentos, obras de arte, objetos de culto, etc.


A questão que me interessa, porém, é a seguinte: Como age um ateu em meio à avalanche de propagandas, festas, enfeites, cores e brilhos que pretendem fazer com que todos pensem a mesma coisa, em todo lugar e ao mesmo tempo antes mesmo da natividade e principalmente durante as festividades natalinas? Há que se reconhecer que essa pressão toda se constitui numa poderosa fonte de ansiedade.


Primeiro, eu diria que um ateu não deve passar os quase dois meses de onipresentes campanhas publicitárias e celebrações religiosas que antecedem o 25 de dezembro tentando nadar contra a correnteza – é perda de tempo, desperdício de energia, e só faz conquistar desafetos. Certamente, um ateu tem coisa melhor a fazer com seu tempo.


Em segundo lugar, não podemos esquecer que o ateu que é solteiro e não tem filhos, pode escapar mais facilmente. Na verdade, mesmo que ele tenha pais e irmãos, poderá evitar aquela reunião que mistura parentes adoráveis com parentes que ele detesta. Basta que reserve sua passagem com antecedência e que parta uns três dias antes da noite de natal para o lugar de sua preferência, voltando uns dois dias depois, ou mesmo no final do dia 25, quando todo mundo já começa a se perguntar por que tanto barulho por nada.


Outra armadilha é a ideia de que morar sozinho seja garantia de isolamento nesse dia. Não é. Sempre tem alguém que chega de última hora, sem qualquer aviso prévio, para dar o famoso abraço de natal, ou para tentar arrastar o indivíduo para algum jantar, ou simplesmente para deixar com ele alguns quitutes, fazendo o retirante se sentir culpado por ter dado trabalho, mesmo não tendo solicitado o tal delivery.


Agora, se você for um desses privilegiados que conseguem ficar em casa sem ser incomodado, aproveite para ler, ouvir música, ver aqueles filmes que adiou por muito tempo. Ah, e se tiver alguém com quem possa fazer um amor bem gostoso enquanto os sinos dobram na igreja, aproveite ao máximo, sem medo de ser feliz. Só não esqueça o gorrinho. Camisinha é traje indispensável para essa “festa”, chova ou faça sol.


Agora, se você é ateu/ateia casado/casada, especialmente se tem filhos, escapar fica mais complicado. Se o marido ou a esposa, o noivo ou a noiva, ou os filhos curtem os festejos natalinos do modo mais tradicional, aguente firme o período de oração, vislumbrando aquele peruzão de natal que você está louco para abocanhar. Não precisa dizer amém. Simplesmente, deixe o devoto terminar, sorria, diga que o cheiro da comida está maravilhoso. Afinal de contas, algumas dessas pessoas tiveram um baita trabalho para tornar esse momento especial para todos os convidados.


Se você é um marido ou pai consciente, você também deve ter ralado muito para ajudar a deixar tudo em ordem. E todo esse esforço merece reconhecimento. Depois de cumprida a etiqueta social, deguste um pouco de tudo o que desejar, mas lembre-se que a moderação pode fazer a festa terminar melhor do que começou. E se a casa não for sua, é bom evitar aquela imagem de que o ateu tirou a barriga da miséria, graças a deus – o deus dos anfitriões. lol


Dar e receber presentes também vale. Agora, não precisa fazer versinhos rimando com o menino Jesus no cartão que acompanha a caixa e nem escrever um manifesto ateísta contra o natal. Basta dizer o quanto aquela pessoa significa para você e registrar seus votos de felicidade. Se alguém lhe oferecer um cartão com uma mensagem cristã, isso não é necessariamente uma tentativa de convertê-lo. Pode ser apenas um hábito sem quaisquer segundas intenções. Agradeça a quem lhe fez esse carinho. Dê um abraço ou um beijo, e sorria. Jesus não significa mais do que qualquer outro mito para um ateu, mas aquela pessoa de carne e osso, ali à sua frente, pode ser seu melhor amigo ou amiga, seu esposo ou esposa, seu filho, primo ou sobrinho.


Então preserve o amor dessas pessoas por você, cultivando gentileza. Eu gosto de dizer que se deus não me dá nada, também não vai tirar. Não é por causa de sua crença em deus que essas pessoas deixarão de ser minhas amigas. Assim como, apesar da minha mais completa descrença, elas nunca revogaram sua amizade por mim.


Terceiro, seja honesto com seus filhos desde sempre. Não os convença que Papai Noel existe, mas também não detone cada vestígio do “bom velhinho” dos espaços de convivência. Deixe-o lá, mas mostre claramente que isso não passa de um símbolo, assim como o coelhinho da páscoa. Esclareça que os presentes de natal e os ovos de chocolate são obra sua, e não de um deus ou de outros personagens igualmente míticos. E deixe claro que você faz tudo isso porque os ama, mas seu amor não está restrito a presentes. Diga-lhes que mesmo que um dia fique impedido de dar-lhes presentes por alguma razão incontornável, seu amor continuará o mesmo, assim como você espera que o deles também continue.


Quarto, não se negue a fazer o bem. Muita gente fica deprimida nessa época, porque tudo o que a mídia e os marqueteiros fazem é enfatizar a ideia de família nuclear, heterossexual, branca, rica e capaz de celebrar o natal naquele estilo propaganda de peru Sadia ou de chester Perdigão. Muitas pessoas são órfãs (crianças, adolescentes e adultos); ou não têm um cônjuge, namorado ou noivo; ou têm familiares morando longe; ou foram expulsas de casa por serem ateias, ou por serem pessoas gays, lésbicas, bissexuais, transgêneras; ou porque eram adolescentes quando engravidaram.


Enfim, tem muita gente sozinha nesse mundo e pelas mais variadas razões. Imagine quanta gente trabalha nessa noite e não vê sua própria família: policiais, bombeiros, pilotos, comissários de bordo, médicos, enfermeiros, garçons, cozinheiros, etc. Se puder contribuir para que pessoas pobres e abandonadas tenham uma noite especial, faça isso. Melhor ainda: Disponha-se contribuir regularmente para uma obra séria e sem cunho religioso, tal como os Médicos sem Fronteiras, a Anistia Internacional, a Sociedade Viva Cazuza, a AACD, e por aí vai.


Não contribua com organizações que propagam fundamentalismo religioso, homofobia, e outros preconceitos. O Exército da Salvação, por exemplo, foi alvo de intensa polêmica nos EUA no ano passado por causa de declarações e atitudes homofóbicas. Nunca fui muito simpatizante daquela organização, mesmo quando era crente. Depois de me tornar ateu, então, quis distância, porque eles têm uma atitude extremamente proselitista. Depois do escândalo de sua postura preconceituosa contra a diversidade sexual, passei não querer mesmo conver$a com essa turma. Eles podem continuar fazendo o trabalho deles, mas eu vou ajudar outras iniciativas que sejam verdadeiramente humanistas.


Sabe o que eu penso mesmo? Penso que seria ótimo se todos os ateus, agnósticos e céticos de cada cidade se reunissem num bar e fizessem uma confraternização humanista secular em plena noite de 24 de dezembro ou mesmo no almoço de 25, sem gritos de provocação ou piadinhas que possam ofender a quem acredita em papai Noel ou em papai do céu (ambos igualmente imaginários); apenas para conversarem sobre si mesmos e sobre como podem contribuir para o avanço do pensamento racional, cético, secularista, humanista desde esse natal até o natal do próximo ano. E quando o do próximo ano chegar, marcarem outra reunião no mesmo bar, ou em outro, para contabilizarem os avanços das luzes em seus campos de atuação e para celebrarem a fraternidade que nossa comum humanidade nos confere a todos, mas que nos deleita principalmente quando estamos cercados de outros ateus de boa vontade. 


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* Sergio Viula foi pastor batista, é formado em filosofia, administrador do blog Fora do Armário www.foradoarmario.net, autor de Em Busca de Mim Mesmo, livro que fala sobre religião, sexualidade e ateísmo, é membro da Liga Humanista Secular do Brasil, e pode ser encontrado no Facebook em:https://www.facebook.com/sergio.viula





Republicado em 25 de outubro de 2016 antes de figurar aqui.

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