Não é preciso ser fanático para ser homofóbico…

Sergio Viula



 
Adolescentes gays condenados à forca em praça pública por tribunal iraniano





Os sete países que ainda condenam homossexuais à morte por seu amor são de regime político-religioso muçulmano: Irã, Arábia Saudita, Iêmen, Mauritânia, Sudão, Somália e o Norte da Nigéria.

Na madrugada de hoje, coincidindo com o dia dos namorados no Brasil, o que poderia ter sido uma noite comum de final de semana em Orlando, uma das cidades mais badaladas por turistas do mundo todo, foi o cenário para o maior ataque terrorista com arma de fogo já realizado nos Estados Unidos. Um homofóbico nascido em Nova York, filho de pais afegãos que imigraram para os EUA, atirou e feriu 100 pessoas, matando mais de 50. A chacina começou por volta das duas horas da madrugada de hoje (12/06/16) e só terminou quando a polícia matou o terrorista, por volta da 6 da manhã. De posse de um rifle no estilo AR-15, ele fez reféns no banheiro da boate antes de ser abatido.

O pai dele diz que o terrorista já havia dado demonstrações de ódio contra homossexuais. Nem mesmo o fato de ser pai de uma criança de três anos, que precisaria dele por perto, demoveu esse desgraçado de praticar tamanha barbaridade.

Como diz o título desse post, não é preciso ser fanático religioso para ser homofóbico, mas provavelmente a homofobia já teria perdido o sentido (ou quase) se pregadores religiosos não passassem tanto tempo destilando seu veneno contra a comunidade LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais, travestis e transgêneros).

Felizmente, a secularização com um quê de humanismo tem avançado em muitos países do mundo, a despeito das pressões de religiosos fanáticos e de não-religiosos homofóbicos, como é o caso de algumas figuras conhecidas aqui pelo Brasil.

A “católica” Itália, por exemplo, até esse mês, era o único país do mercado europeu que ainda não tinha regulamentado as uniões entre pessoas do mesmo sexo. Isso acabou, apesar da pressão de setores poderosos da Igreja Católica em contrário. Confira essa vitória aqui: http://www.foradoarmario.net/2016/05/presidente-da-italia-assina-lei-de.html


Na “judaica” Tel-Aviv, foi realizada esse mês a Parada do Orgulho LGBT mais badalada do Oriente Médio – lugar onde Israel, apesar de todas as controvérsias com Palestinos, figura como um espaço de tolerância para com as diferenças numa convivência muito mais pacífica do acontece em quaisquer dos países vizinhos. Os números da Parada LGBT de 2016 em Tel-Aviv revelam que 200 mil pessoas participaram do evento – o que é um número extraordinário, levando-se em consideração que a população total da cidade é de 400 mil habitantes. Ao todo, 35 mil turistas participaram do evento. Portanto, a maioria dos participantes era de gente que mora na belíssima Tel-Aviv.

Enquanto isso, no meio de tanta desgraça de cunho “islâmico”, uma mesquita que acolhe homossexuais e celebra suas uniões está fazendo história na África do Sul. A notícia é do canal Vice, o mesmo que produziu e veiculou o programa Gaycation com Ellen Page. O texto começa dizendo o seguinte:

“A mesquita gay da África do Sul é uma pequena sala com janelas cobertas por cortinas venezianas, um tapete verde e um Qibla apontado para Meca. Na parede pode ler-se o famoso verso do Corão: ‘Não há outro Deus além de Alá’. Cada sexta-feira, mais de uma dúzia de homens e mulheres homossexuais visitam este lugar de culto, liderado pelo único ímã do país abertamente gay, Muhsin Hendricks.”

“A homossexualidade não é pecado. Não há necessidade de alterar a tua maneira de andar ou de falar para eludir os olhares condenatórios. Deus aceita-te tal como és. Podes até aspirar a um casamento abençoado. Aqui podes ser gay. E muçulmano.” (fonte: https://www.vice.com/pt/read/muculmanos-homossexuais-mesquita-africa-do-sul)

É claro que isso é uma gota de amor num oceano de ódio e incompreensão, mas mostra que o amor não será vencido e que – a depender da resistência dos que não podem e não querem abrir mão de suas próprias vidas para se submeterem a padrões arbitrariamente ditados por quem não entende patavinas de sexualidade humana – a ignorância e o ódio serão absorvidos pelo conhecimento e pelo amor.

E os ateus? Bem, não consigo evitar o pensamento de que aqueles que são homofóbicos, transfóbicos ou que nutrem quaisquer preconceitos semelhantes continuam funcionando na lógica do fanatismo religioso, o qual deixa marcas profundas nas mentes de muitos, sendo reproduzido para muito além das paredes dos templos.

Felizmente, muitos ateus, muitos mesmo – e alguns dos mais brilhantes, diga-se de passagem- são simpatizantes dos direitos LGBT e apoiam a comunidade sexodiversa e transgênero. Um dos mais ilustres foi José Saramago, premiado escritor português, ATEU e heterossexual, que apoio a legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo em Portugal. Vale a pena dar uma olhada nesse artigo sobre ele: http://carlosalexlima.blogspot.com.br/2010/06/morre-jose-saramago-simpatizante-da.html


Outro brilhante ATEU apoiador é Richard Dawkins que (no vídeo abaixo) explica como o gene gay foi preservado. Além disso, quando o casamento gay estava para ser aprovado na Irlanda, ele se manifestou favoravelmente. E no tweet abaixo, ele SARCASTICAMENTE aborda o preconceito dos homofóbicos de plantão. Traduzi o tweet para esse post. Veja:







Bill Maher, ATEU, humorista, produtor e apresentador de TV falou muito em favor do casamento gay nos EUA antes que a Suprema Corte reconhecesse esse direito. Nesse vídeo (em inglês), ele fala sobre o apoio de Obama a essa demanda da comunidade LGBT. Ele chega a comentar que mais de 65% da comunidade católica americana apoiava a aprovação. Claro que ele dá uma sacaneada nos religiosos e outros conservadores.



Mas, além dos mais destacados ateus e agnósticos do mundo, temos alguns ateus e agnósticos brasileiros que entendem o valor da diversidade sexual e de gênero. A esses, meu mais sincero aplauso. Um deles é o programa Palavra do Ateu. Vale a pena conferir abaixo:



O Pirulla é outro fofo que faz uns programas bem legais e já falou mais de uma vez sobre o tema:




O canal da Arca já fez vários hangouts interessantes sobre os mais variados temas. Tive o privilégio de participar de alguns. O primeiro foi esse, que acabou sendo desdobrado em dois:




A Liga Humanista Secular do Brasil já tomou várias iniciativas. Pontuo aqui esse texto sobre humanismo, no qual a organização fala sobre os direitos LGBT:







Hoje, dia do massacre na boate Pulse, a ATEA (Associação de Ateus e Agnósticos), manifestou solidariedade à comunidade LGBT e chamou atenção para as desgraças que o fanatismo e o preconceito podem produzir.



A ATEA já havia demonstrado carinhosa deferência para comigo pessoalmente e para com a luta contra a famigerada e fraudulenta “cura gay”. Quando dei entrevista para a UOL, eles publicaram no perfil oficial da organização no Facebook o seguinte:



Essa matéria pode ser encontrada aqui:

http://estilo.uol.com.br/comportamento/noticias/redacao/2015/01/14/ex-pastor-que-pregava-cura-gay-e-homossexual-e-diz-e-uma-farsa.htm


CONCLUINDO

Cada vez mais, ateus e agnósticos precisam se livrar do preconceito internalizado a partir de estímulos os mais variados, principalmente os que ecoam dos porões da religião com sua LGBTfobia. Felizmente, exemplos positivos, temos vários em nosso meio!

Os religiosos também precisam se libertar disso. Talvez ainda mais. Muitos são ótimos exemplos de humanismo, a despeito de sua não-adesão ao ateísmo, porque não há relação de necessidade entre as duas coisas. Basta ver que existem religiosos e ateus que apoiam gente homofóbica e carregada de outros preconceitos como Bolsonaro. E existem nos dois ambientes gente que abomina esse traste.

Não deixe de ler esse post a respeito do batismo de Bolsonaro, feito pelo pastor citado na Lava-Jato, presidente do PSC:


De qualquer modo, o pai daquele desgraçado que destruiu a vida de tanta gente na madrugada de hoje em Orlando disse que ele ficava transtornado quando via gays, especialmente se beijando. Então, decidi espalhar o seguinte nas redes sociais e espero que muita gente siga o exemplo: Vamos multiplicar fotos de afeto, de amor, de carinho! O beijo é mais forte que a bala.










LEIA SOBRE O LUTO E SOBRE A LUTA depois desse trágico domingo de terrorismo homofóbico:





Originalmente publicado em 12 de junho de 2016.

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