Medo de descrer?


Por Sergio viula

Originalmente publicado no AASA


Medo de descrer?


Tenho conversado com vários amigos sobre religião e ateísmo ultimamente. Algumas pessoas me contataram pela primeira vez nesta e na semana passada com o objetivo de solicitar algum esclarecimento ou conselho em matéria de fé e ateísmo. Confesso que não gosto da ideia de dar conselhos. Prefiro pensar que estamos trocando ideias, porque muitas das perguntas que esses amigos e colegas recém-chegados me fazem acabam me levando a pensar em certos aspectos da vida que eu ainda não tinha verbalizado do modo como acabo fazendo a cada interação. O crescimento vem em mão dupla.
Essas pessoas costumam me perguntar sobre certos aspectos de suas crenças e por que considero absolutamente dispensável ao bem viver qualquer tipo de fé em deus, deusa, deuses ou deusas. Nesse pacote, também viajam para bem longe de mim superstições como espíritos, anjos, demônios, vidas pós-mundanas, reencarnação, carma, etc.
Interessante notar que muitos nem acreditam completamente em tais coisas, mas ainda temem as consequências do descrer. Essa semana tive a oportunidade de conversar com três pessoas com essa mesma linha de raciocínio.
É curioso também que muitos acreditem que sem deus ou leis divinamente reveladas, os homens se perderiam e tudo viraria desordem e “barbárie”. Essa ideia não sobrevive à mais superficial passada d’olhos sobre realidade ao nosso redor. Não se precisa nem recorrer à história, ainda que ela possa nos fornecer inesgotáveis exemplos do que “homens de deus” foram capazes de fazer contra a humanidade.
Na verdade, basta olharmos em volta para percebermos que não é por falta de fé que as pessoas cometem os crimes mais hediondos: tortura, estupro, assassinato, corrupção envolvendo dinheiro público e de empresas privadas ou de capital misto – só para citar alguns. Muito pelo contrário, muitas vezes, o pretexto é justamente essa fé.
Mas, não nos apressemos, pois não podemos dizer que a fé transforma homens honestos em bandidos. Esse homens dificilmente foram honestos algum dia. E se pareciam ser, talvez estivessem mentindo para si mesmos – a pior das desonestidades. A maioria não buscou a igreja ou o sacerdócio/ministério pastoral à toa. De fato, o que choca é que essa mesma fé também não os tenha transformado. Nada mudou em seu mau caráter. Pelo contrário, o palavrório religioso serve para distrair os trouxas, enquanto aplicam diversos tipos de golpe..A Câmara dos Deputados está cheia de (maus) exemplos.
Mas dificilmente erraríamos ao afirmar que enquanto muitos desses bandidos estavam desprovidos de um elemento mobilizador que fosse capaz de catalisar seus mais sórdidos sentimentos e colocá-los em movimento, eles continuavam em “modo incubação”, até que encontraram na fé a motivação que tanto desejavam, e na congregação religiosa, o senso de pertença capaz de conferir às maiores atrocidades uma aura de “normalidade” ou de “senso comum” – que só parece comum mesmo, porque os membros da denominação religiosa, seja ela qual for, vivem num ambiente emocionalmente sobrecarregado de paixões de tristeza e de morte, que, por estarem associadas a ideais de virtude nas pregações e liturgias, impedem que eles façam qualquer movimento racional para fora dessa caixa de ressonância fundamentalista, extremista, totalizante e totalitarista – seja de fabricação judaica, cristã ou islâmica (para ficar só nos três maiores monoteísmos). Existem outras.
Portanto, nem a fé nem a falta dela torna alguém necessariamente bom ou mau. Tenho vários amigos que creem e são pessoas maravilhosas, assim como tenho amigos que não creem e são igualmente fantásticos. Por outro lado, conheço gente que afirma ter fé, mas é mais diabólica que o mitológico Satanás, e gente que diz que é ateia, mas fala e age como os crentes mais fundamentalistas do pedaço, achando que são melhores do que esses fanáticos apenas porque não repetem versículos bíblicos. Porém, tomam todo o cuidado para preservarem os mesmos “frames” – ou esquemas de pensamento e julgamento sobre certo e errado – que qualquer idiotinha extremista utiliza.
Além de causarem problemas para muita gente que não tem a menor intenção de viver de acordo com as lendas religiosas registradas nos livros “sagrados” de cada sistema de crenças ou com tradições preservadas pela transmissão oral, essas agremiações e suas pregações/doutrinas levam o indivíduo a se tornar dependente de uma fé coercitiva, baseada em preceitos inegociáveis, deixando de viver muitas alegrias e tentando justificar sua melancolia, frustração e até mesmo ira, por não conseguir se realizar plenamente por causa do auto-patrulhamento e do patrulhamento de outros que professam a mesma fé e pertencem à mesma agremiação.
Às vezes, até os que não têm qualquer ligação com aquele ambiente e os discursos que circulam nele tornam-se o “outro” em função do qual, o crente (qualquer que seja sua crença) precisa se comportar como um exemplo de piedade e abnegação, mesmo quando isso não passa de verniz. E olhem que estou pensando nos crentes que levam a religião a sério, porque a maioria nem se dá o trabalho de envernizar a cara de pau que canta (nem sempre) lindamente na igreja, mas depois faz todo tipo de falcatrua na praça, trai o cônjuge com gente da própria igreja ou da vizinhança, sem dar a menor importância ao escândalo que pode estar sendo semeado com isso tudo. Ah, e como brotam tais escândalos! Eles vicejam como capim e trepadeiras e prevalecem sobre as tentativas de ocultamento de padres, pastores, rabinos, imãs, etc. Sem contar o que faz o povão que os segue, é claro.
Se tem uma coisa que as religiões institucionalizadas, especialmente as que trabalham com técnicas de manipulação mental, odeiam quase tanto quanto odeiam o ateísmo, são conceitos como o de individualidade, subjetividade e autonomia. Por isso, falam tanto na importância do rebanho, da reunião, da submissão a uma suposta “autoridade especialmente designada por deus”.
Só que tudo isso é muito perigoso, pois é por meio dessas técnicas de controle e muitas outras aparentemente inofensivas que multidões inteiras são enredadas no engano e perdem tempo, dinheiro, amigos, contato com os parentes que não compartilham do mesmo sistema de crenças, e por aí vai. E o medo de descrer é o maior aliado do silenciamento (que não resolução de modo algum) das dúvidas que ousaram emergir de regiões aparentemente inacessíveis da própria pisque.
Estimulado pelos contatos que tenho recebido ao longo desse ano, mas especialmente pelos das últimas semanas, achei que poderia ser interessante sugerir alguns vídeos nos quais falo especificamente sobre religião e ateísmo, focando em alguns dos principais aspectos desses temas. Não vou listar muitos, porque isso seria contraproducente, mas os leitores interessados poderão “navegar” no meu canal do YouTube e “pescar” outros. 🙂
Os que eu gostaria de sugerir para esse momento são os seguintes:
Apocalipse, o sucesso de um fracasso:https://www.youtube.com/watch?v=vzn5Esmx8f4
Mês da Bíblia – um ateu na Igreja Reformada Ecumênica. São duas partes:
Se gostar, dê um curtir nos vídeos e compartilhe-os com os amigos.
A todos e todas, um ótimo domingo e uma linda semana.

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