Kardecismo e homossexualidade


Kardecismo e homossexualidade




Por Sergio Viula

Publicado originalmente no AASA
Kardec
Divaldo Pereira Franco, considerado um dos maiores médiuns e oradores da espiritualidade (numa visão kardecista), é preletor com mais de 13.000 palestras em mais de 2.000 cidades de to
do o Brasil e em 64 países do mundo. Como médium, publicou mais de 250 livros , com mais de 8 milhões de exemplares, em 16 idiomas.
Respondendo a diversas perguntas sobre “homossexualismo”, Divaldo Pereira Franco coloca como bastante clareza o que diz o pensamento espírita sobre isso.
Pergunta: Defina novamente o homossexualismo, pois não entendo a ligação espiritual com esse desvio.
Resposta de Divaldo Pereira Franco: “Digamos que é um homem – reencarna esse espírito como homem duas, cinco, dez vezes. E, de repente, ele tem necessidade de evoluir nos hormônios femininos. Ele, então, vem como mulher, mas as suas tendências são masculinas, porque o espírito está acostumado ao comportamento masculino. O espírito vai imprimir no corpo feminino características masculinas. O espírito reencarna como mulher duas, vinte, trintavezes, e tem que se desenvolver como homem; as experiência do homem na vida pública vem num corpo masculino com algumas marcas femininas, trejeitos, modismos, sinais de feminilidade. Então, é uma postura homossexual, porque este ser vai se afinar com aqueles do seu mesmo sexo. Então, é curioso notar que vai procurar pessoas do seu mesmo sexo. Isso não quer dizer que se vá perverter. Poderá escolher somente, se for um homossexual masculino… procurará pessoas somente do sexo masculino e terá mais afinidade com homens. Se for do sexo masculino, preferirá o convívio com mulheres. Se ele, como homem que foi, agiu mal, usou o sexo como meio de promoção, corrompeu muitas jovens, ele reencarna em corpo feminino com essas inclinações masculinas, e apesar do corpo feminino, ele quererá conquistar mulheres para submetê-las: é o lesbianismo. Outras mulheres irão submeter-se, porque trazem também marcas. Em palavras singelas: se usamos mal o sexo masculino, voltamos num outro corpo feminino com tendências masculinas. Se usamos mal o sexo feminino, voltaremos num corpo masculino com tendências femininas. A opção moral, nós é que daremos.”

Apesar das palavras excepcionalmente inclusivas nesse vídeo (https://www.youtube.com/watch?v=yi5BjC0Guo8, quando comparadas com a atitude de outros religiosos, principalmente alguns católicos e protestantes, o ilustre orador apresenta alguns problemas inerentes ao pensamento espírita com relação à homossexualidade, como se pode ver logo de cara na citação acima. Baseado nessa fala dele, destaco os principais, a meu ver, logo abaixo:
  1. O “homossexualismo” (SIC) na “encarnação” atual é atribuído a erros heterossexuais cometidos em outras vidas, especialmente patifarias ligadas à sexualidade;
  2. O “homossexualismo” na encarnação atual é atribuído a uma espécie de “apego” ao sexo em que o indivíduo reencarnou diversas vezes seguidas; é como se fosse um condicionamento à sexualidade vivenciada em corpos de sexo diferente do corpo atual, como se fosse algo não superado, não totalmente descolado;
  3. A questão da opção moral é interessante, desde que eles entendam como moral para o homossexual, com o parceiro que combina com sua homoafetivadade, a mesma coisa que entendem para o heterossexual que combina com parceira heterossexual, ou seja, o casamento. Isso para condescender com a visão religiosa de sexualidade como exercida no matrimônio, porque se pensarmos realmente livremente o casamento não é condição para o exercício pleno da sexualidade, seja monogâmica ou não.
Vê-se nitidamente que o espiritismo kardecista continua trabalhando com categorias heteronormativas e cisgêneras, apesar dele não falar claramente sobre transexuais nesse trecho, mas sobre homossexuais. Há muita coisa sobre isso em outros livros e falas deste e de outros ‘mestres’ espíritas.
A favor do pensamento espírita em relação aos homossexuais, , mesmo com reservas ainda, destaco as palavras do ilustre orador em questão:
“O homossexualismo não é uma tara, não é uma doença, não é um castigo divino…”
Mas não posso concordar com o seguinte, porque simplesmente não há razão para dizer que há um espírito que vive independentemente do meu corpo e que escolhe em que corpo virá com o objetivo de evoluir espiritual ou moralmente.
Diz ele:
“… (o homossexualismo) é uma experiência evolutiva.”
Em seguida, Divaldo Pereira Franco complementa:
“O fato de um indivíduo ser homossexual não quer dizer que ele seja um pervertido. Como o fato de alguém ser heterossexual não quer dizer que seja um depravado. É um estágio de evolução.”
DE ONDE VEM A DOUTRINA ESPÍRITA E NO QUE CRÊ?
A doutrina espírita conhecida como Kardecismo é uma linha filosófico-religiosa codificada pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail. Allan Kardec era seu pseudônimo. Daí, o termo Kardecismo.
O Kardecismo se baseia em cinco obras fundamentais que foram escritas por Kardec: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. Além destas, existem obras complementares, como O Que é o Espiritismo?, Revista Espírita e Obras Póstumas.
O termo Espiritismo foi cunhado por Kardec em 1857.
Foi na obra “complementar” O Que é o Espiritismo que o codificador definiu o espiritismo como uma doutrina que trata da “natureza, origem e destino dos espíritos, bem como de suas relações com o mundo corporal e as consequências morais que dela emanam” e que fundamenta-se nas manifestações e nos ensinamentos dos espíritos.
Segundo o Censo do IBGE em 2010, 2,0% da população brasileira (cerca de 3,8 milhões) declaram-se espíritas.
Principais doutrinas espíritas, seguidas de notas minhas:
  1. Deus é uno. Rejeitam o dogma da Santíssima Trindade;
Sobre isso, não há evidência de Deus, seja ele uno, trino, pessoal ou impessoal.
  1. Todo o universo é criação de Deus e todos os seres racionais e irracionais, animados e inanimados, materiais e imateriais estão destinados a lei do progresso;
Se não há evidência de que exista um deus, por outro lado está muito claro que a vida evolui a partir de elementos e relações inerentes à matéria. Isso nada tem a ver com evoluções de uma suposta substância espiritual.
  1. Existência e imortalidade do espírito, compreendido como individualidade inteligente da Criação Divina que está ligado ao corpo físico através de um conectivo “semimaterial” denominado de perispírito;
Sobre a existência e imortalidade do espírito, que os kardecistas interpretam como sendo diferente de alma, mas outras religiões encaram como inseparáveis ou mesmo idênticos, vale a pena dar uma olhada nesse vídeo, depois que você ler esse post até o final:https://www.youtube.com/watch?v=gmxrf5ZWb3U (pause o vídeo quantas vezes achar necessário para ler com calma).
  1. Volta do espírito à matéria (reencarnação), tantas vezes quanto necessário, como o mecanismo natural para se alcançar o aperfeiçoamento material e moral, mas não até a perfeição absoluta que só a Deus pertence. Os espíritas rejeitam a crença na metempsicose, ou seja, o homem não reencarna em corpos de outros animas, de vegetais ou de minerais;
Diferente dos hindus que acreditam que o homem pode se tornar inseto, rato, pedra, planta e até mesmo um deus, os kardecistas acreditam que a reencarnação ocorre dentro dos limites da raça humana, e que dentro desse escopo, o espírito pode reencarnar sob as mais variadas características corpóreas: homem, mulher, portador de necessidades especiais físicas e mentais, etc. O problema é que, assim como os hindus, tudo isso não passa de especulação carregada de emoções despertadas principalmente pela noção de que todos morremos e pelas afetividades relacionadas a pessoas próximas que morreram. Não há prova cabal de qualquer uma dessas ideias.
  1. Todos os espíritos foram criados “simples e ignorantes” em sua origem, e destinados invariavelmente à perfeição, com aptidões idênticas para o bem ou para o mal, dado o livre-arbítrio;
Por que será que o deus de Kardec não criou o ser humano sábio e perfeito? Por que destinar uma “criatura simples e ignorante” à perfeição a duras penas (vide o sofrimento humano que o espiritismo tenta justificar com sua doutrina da justiça divina por meio da reencarnação e do karma)? Por que não fazê-la perfeita de pronto? Deus, portanto, é o responsável principal por todo sofrimento que há no mundo. Dirão os espíritas que isso é ignorância e demasiada simplificação, mas a realidade é que nenhuma tentativa malabarista de explicar a bondade e sabedoria de deus resiste ao mais simples escrutínio. Além disso, jogar o livre-arbítrio na cara dos seres humanos para explicar essa bagunça toda é apenas um recurso argumentativo desonesto. Não PODEM, não tem a CAPACIDADE de escolher sempre bem aqueles que são ignorantes e imperfeitos. Isso é um pensamento circular desonesto.
  1. Possibilidade de comunicação entre os espíritos encarnados (“vivos”) e os espíritos desencarnados (“mortos”), por meio da mediunidade, inclusive por meio da psicografia (quando o médium escreve sob a orientação/influência de um espírito desencarnado);
Esses supostos espíritos tagarelas que nem a morte do corpo faz calar nunca trouxeram qualquer revelação relevante e verificável. Quem lê os livros espíritas sem predisposição para crer sem bons motivos para isso logo vê que tais escritos podem ser muito emocionantes, mas não passam de literatura religiosa sem qualquer revelação extraordinária. Nenhuma palavra sobre o que fazer para resolver coisas do ponto de vista prático: nada sobre a cura do câncer, a aniquilação do HIV, uma dica sobre onde ocorrerá a próxima grande catástrofe, etc. Tudo é vago ou dito a posteriori, quando supostas informações vindas de algum pretenso espírito sabidinho já não se fazem necessárias.
  1. Lei de causa e efeito: nossa condição atual é resultado de nossos atos passados e nossos pensamentos, palavras e atos constroem diariamente nosso futuro;
Se ‘merda’ lhe acontece, a culpa é sua, a escolha foi sua, você tem o que merece, precisa ou decidiu experimentar nessa existência. Isso é uma doutrina cruel e extremamente injusta, não importa quão justa ela possa soar aos que desejam encontrar relações de causa e efeito em tudo, especialmente no que afeta o ser humano.
  1. Pluralidade dos mundos habitados materiais e espirituais: a Terra não é o único planeta com vida inteligente no universo, bem como os planetas possuem mundos espirituais habitados (por exemplo, Umbral, colônias espirituais e os planos espirituais superiores);
É bem provável que exista vida evoluída ou muito primitiva em outros planetas, tomando aqui a concepção darwiniana, é claro, não a kardecista. Isso, porém, não é necessariamente o que os livros espíritas e seus supostos mestres espirituais desencarnados querem dizer. Basta ver o que diz o livro Nosso Lar, que virou filme e ao qual fui assistir. Escrevi esse post logo depois de voltar do cinema em 22 de setembro de 2010. Vale a pena ler: www.foradoarmario.net/2010/09/nosso-lar-revelacao-espiritual.html O livro não é mais do que qualquer pessoa com alguma imaginação religiosamente influenciada não pudesse ter escrito.
  1. Jesus, criado por Deus, é o guia e modelo para toda a humanidade. Segundo o espiritismo, a moral cristã contida nos evangelhos canônicos é o maior roteiro ético-moral de que o homem possui, e a sua prática é a solução para todos os problemas humanos e o objetivo a ser atingido pela humanidade.
Os evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) são a solução para todos os problemas humanos? Não preciso nem discutir isso…
  1. Fora da caridade não há salvação. Para o espiritismo, a caridade consiste em benevolência para com todos, indulgência para as imperfeições dos outros e perdão das ofensas.
Essa ideia de que a caridade é meio de salvação esconde uma inverdade. Não estamos perdidos. Não precisamos ser salvos. Porém, como todos cometemos erros, ou seja, agimos de modos nem sempre construtivos, é sábio que sejamos tolerantes para com todos e que todos sejam tolerantes para conosco. Fazer o bem não tem que ser meio para se atingir perfeição. Fazer o que promove a felicidade humana, nossa e dos outros, no melhor das nossas possibilidades é simplesmente o único jeito de vivermos em paz e com aquela deliciosa sensação de realização pessoal e comunitária. É desprezível ter que receber recompensa, seja ela qual for, para que queiramos ou aceitemos viver assim, seja essa recompensa uma reencarnação em melhores condições ou um lugar em algum tipo de paraíso, seja ele qual for. O espiritismo continua trabalhando sobre a ideia de recompensa e castigo tanto quanto as religiões abraamicas, das quais ele também bebe, mesmo que troque esse castigo e essa recompensa de lugar.

Republicado em 25 de outubro de 2016.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A face mutante do Diabo e sua utilidade para a igreja

Os fantasmas da (i)moralidade religiosa querendo assombrar o ensino de biologia

O tempo e o senso comum