Gays, travestis e transexuais no Budismo

Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA
Budismo, sexodiversidade e transgeneridade






Devido à nossa familiaridade com os três monoteísmos mais influentes (judaísmo, cristianismo e islamismo), tendemos a pensar que outras religiões sejam indiferentes ou menos radicais para com a sexualidade humana, especialmente em seu aspecto diverso, bem como as variações de gênero. Esse, porém, é um pensamento equivocado. 

Na verdade, mesmo aquelas religiões menos beligerantes podem manter pressupostos – senão diretamente culpabilizadores e castradores – pelo menos redutores da beleza dessa diversidade e das alegrias que dela podem advir. 

Assim sendo, gostaria de pensar sobre o budismo na coluna desse domingo. É óbvio que os budistas, especialmente nesse ambiente que chamamos de Ocidente, tendem a ser mais discretos que os monoteístas citados anteriormente. 

Mas será que isso significa que sejam menos preconceituosos quanto à sexualidade humana, especialmente à sexodiversidade? 

A maior parte dos escritos budistas não distingue a atividade sexual entre pessoas do mesmo sexo daquelas realizadas entre pessoas de sexos diferentes. O que ambas têm em comum é a crença de que não conduzem ao crescimento espiritual. 

No Brasil, a tradição mais influente foi a do budismo tibetano (ou budismo japonês), especialmente a corrente Zen, como pontua a revista IstoÉ em matéria de setembro de 2011 que fala sobre a crise do budismo no Brasil. No mundo todo, existem provavelmente mais de 100 escolas budistas diferentes, ou seja, sistemas de pensamento, interpretação ou preferência por determinados escritos.


Neste artigo, vou enfocar o budismo tailandês. A escolha pelo budismo tailandês se deve ao fato de ser este o maior país budista do mundo – 95% da população pratica essa religião – e por haver material reunido por pesquisadores ocidentais sobre suas crenças e práticas disponível para consulta. 

Além disso, o budismo na Tailândia é o Theravada ou Teravada – originário da Índia e mais antigo do mundo. Atualmente, o número de budistas teravada é superior a 100 milhões em todo o mundo, e em décadas recentes o teravada começou a lançar raízes no Ocidente. Outra curiosidade é que a Tailândia, dentre os países com maior número de budistas, é o que mais atrai turistas ocidentais, especialmente europeus. 

De acordo com o censo do IBGE em 2010, os budistas no Brasil perfazem um total de 245.870 pessoas. O número parece pequeno, se comparado ao catolicismo, mas é interessante ressaltar que a comunidade budista brasileira é mais que o dobro da comunidade judaica, por exemplo, com algo mais de 107 mil pessoas. Se os budistas divergem sobre determinados pontos, assim como qualquer outra religião com suas divisões internas, ele costuma ser bastante unívoco no que diz respeito aos vetos no campo da sexualidade – nada diferente de outras religiões.


O budismo tailandês utiliza o termo kathoey, ou katoey, para se referir a uma série de questões sexuais e de gênero, desde a transexualidade que transita do masculino para o feminino até a homossexualidade. Acontece que ser katoey é parte do Carma de uma pessoa. Isso significa que é katoey quem agiu de modo negativo, injusto ou mau em vidas anteriores, especificamente no campo sexual. Isso só é possível na crença budista, porque esta tem na reencarnação um pilar fundamental para seu funcionamento. Depreende-se disso que nasce katoey o indivíduo que fez algo ruim e merece sofrer para resgatar a dívida cármica, geralmente por causa de comportamento adúltero em vidas passadas. A lógica é a seguinte: como eles perturbaram casamentos em outras vidas, agora eles mesmos não conseguirão casar e passarão por outros sofrimentos decorrentes de ser um katoey. 

Opa! Além da visão negativa, punitiva, destinada ao sofrimento que o budismo assume com essa crença de que um katoey é portador de dívidas cármicas, eles ainda criam aqui uma barreira ao avanço do direito ao casamento, pois se objetivo é justamente impedir que essas pessoas se casem, uma vez que perturbaram outros casamentos em vidas anteriores, como é que o budismo poderia assentir tranquilamente a esse direito? Ou seja, uma crença baseada numa interpretação preconceituosa da homossexualidade reforça esses mesmos preconceitos e acaba servindo de impedimento para o avanço de direitos civis básicos.


Essa restrição, porém, refere-se especificamente aos homossexuais, ou seja, homens que pretendem se casar com outros homens, porque no caso das mulheres transexuais (aquelas que nasceram em corpo masculino, mas fazem a transição para o feminino), na Tailândia, por exemplo, elas podem se casar com parceiros europeus, se isso for possível no país de seus cônjuges, e deixar o país. 

Vale lembrar que a Tailândia é uma monarquia constitucional que governa através de uma junta militar. 

O Budismo Teravada, ou Theravada, é a mais antiga escola budista. Foi fundada na Índia e está presente na maioria dos países continentais do Sudeste Asiático, como no Sri Lanka, no Camboja, Laos, Birmânia, e na Tailândia, no sudoeste da China, Vietnã, Bangladesh, Malásia e Indonésia, e conquistou popularidade mais recentemente em Singapura e no Mundo Ocidental. 

No budismo teravada, os monges fazem votos de celibato, e o autocontrole sobre os impulsos sexuais é idealizado como parte do caminho para o Nirvana. 

De acordo com a concepção budista, o Nirvana pode ser entendido como a superação do apego aos sentidos do material e da ignorância e como a superação da existência, a pureza total. Uma vez atingido o nirvana, o budista ficaria livre do processo de contínuos renascimentos. 

Uma vez que viver é sofrer, ficar livre dos renascimentos é a maior bem-aventurança. É curioso que na década de 1980, em resposta a crescente consciência de crise de AIDS, alguns escritores budistas tentaram se basear nos ensinos budistas para alegar que o comportamento homossexual era antinatural e antiético e demonstrava falta de autocontrole. 

Porém, outros estudiosos budistas argumentaram que o débito cármico só se acumula em torno de imoralidade heterossexual, justamente quando as noções patriarcais da propriedade do macho sobre sexualidade da fêmea é afetada, ou seja, por sexo pré-conjugal, que é “roubo da virgindade” da parte do pai daquela mulher por um homem. 

De acordo com essa visão, as dificuldades e dores experimentadas nas vidas em que haja variação de gênero (e aqui também de orientação sexual, é claro) são vistas como parte do débito a ser pago e como tal não acumulam novas dívidas cármicas. 

PETER ANTHONY JACKSON Ph.D. (Melbourne, Austrália) é um pesquisador que nasceu em Sydney em 1956 e atualmente está trabalhando como o Research Fellow em história tailandesa na Universidade Nacional Australiana (Australian National University), Canberra. Seus livros incluem:

1. Buddhadasa: A Buddhist Thinker for the Modern World (1988);
2. Buddhism, Legitimation and Conflict: The Political Functions of Urban Thai Buddhism (1989); 

3. Dear Uncle Go: Male Homosexuality in Thailand (1995). 

São do Dr. Peter Anthony Jackson as ideias que apresento a seguir: 

O Tripitaka, o cânon do budismo Teravada, inclui o Vinava Pitaka, ou seja, as regras para a comunidade monástica, sendo dividido em um conjunto de regras para a comunidade masculina – o Bhikkhu Sangha – e um conjunto de regras para comunidade feminina – o Bhikkuni Sangha. Afinal, o budismo tem monges e monjas. O cânon também inclui o Sutta Pitaka, que contém os discursos proferidos pelo Buda a seus discípulos, admiradores e adversários, e o Abdhidhamma Pitaka, que é uma obra de composição posterior, que aprofunda os ensinamentos específicos da tradição Teravada, detalhando o processo de renascimento, processos mentais sutis, a prática meditativa, dentre outros assuntos. Esse cânon budista contém numerosas referências ao comportamento sexual que atualmente seriam identificados como homoeróticos e associados a pessoas homossexuais e travestis, apesar de não fazerem as distinções que costumamos fazer hoje dia, mais de dois mil anos depois da composição desse cânon. Apesar de não receber um nome específico, a relação sexual entre homens aparece muitas vezes em muitos lugares na Vinayapitaka, o código de conduta monástico, sendo listada entre as muitas formas de atividade sexual explicitamente proibidas aos monges. 


Peter destaca que a cuidadosa exegese do Vinayapitaka pode fornecer perspectivas sobre as atitudes antigas do budismo para com o homoerotismo. Segundo ele, é importante que os relatos budistas sobre a homossexualidade sejam entendidos no contexto do desdém geral da religião e do absoluto desprezo pelo prazer sexual. 

É também necessário manter em mente que o budismo começou como uma ordem de celibatários masculinos, os sangha, e que o Vinaya é predominantemente um código de conduta clerical, não foi escrito para pessoas leigas. 

No budismo todas as formas de sexualidade e de desejo têm que ser transcendidas para atingir o alvo religioso do nibbana, literalmente, a extinção do sofrimento. A primeira seção do Tripitaka, o Parajika Kandha do Vinayapitaka , oferece orientações detalhadas da prática do celibato clerical na forma dos exemplos geralmente explícitos dos tipos de má conduta sexual que levam à “derrota espiritual” (parajika) e à automática expulsão do sangha (o templo ou a comunidade de monges). 

Para citar uma formula geralmente repetida na seção do Vinaya, “Qualquer monge que tenha intercurso sexual é parajika, um derrotado, e não encontrará comunhão [no sangha]” (Vinaya, Vol. 1, p. 27, passim) A precisão com que os monges são conduzidos e monitorados é demonstrada na definição canônica de “realização” na expressão “realização de intercurso sexual” que é descrito como um monge inserindo seu pênis numa vagina, boca, ânus, etc. “mesmo que seja tão profundo quanto o tamanho de uma semente de sésamo” (Vinaya, Vol. 1, p. 49).

Phra Buddhadasa, um dos líderes contemporâneos dos pensadores budistas na Tailândia, convoca os leigos a serem criteriosos e estabelecerem inteligência espiritualmente informada (Pali: sati-panna) e a ter sexo somente para reprodução. Além disso, ele defende que o mais alto ideal no casamento é que os cônjuges vivam juntos sem sexo, ou que o indivíduo adote a vida solitária dedicada ao alcance do nibbana como um ideal mais alto do que a vida conjugal (ibid. :35). De fato, Phra Buddhadasa defende que o casamento é um estágio da vida para aqueles que ainda não perceberam a verdade absoluta, dizendo que uma vez que a transitoriedade e a insatisfação mundana sejam compreendidas não haverá mais desejo por sexo. Ele dá um exemplo do Tripitaka (sem citar a fonte) de umas crianças de dez anos de idade no tempo de Buda tornando-se arahants, seres aperfeiçoados que atingiram o nibbana, e alega que esse mundo seria possível hoje se as crianças fossem educadas nos princípios budistas e fossem levadas a ver a verdade revelada pelo budismo. Phra Buddhadasa acrescenta que como adultos tais crianças não teriam interesse por sexo por causa de seu elevado status espiritual (ibid. :36-37). 

Diferentes autores tailandeses usam o termo kathoey para se referirem a pelo menos quarto condições distintas abrangendo uma série de fenômenos físicos, psicológicos e emocionais que são geralmente divididos em sexo biológico (intersexuais, antigamente chamados hermafroditas), gênero psicológico (travestis e transexuais) e sexualidade (homossexuais). 

Originalmente, kathoey parece ter se referido a verdadeiros hermafroditas. Porém, veio a ser usado mais amplamente para se referir a pessoas que possuem ou assumem características físicas, comportamentais ou atitudinais geralmente atribuídas ao outro sexo. Os fenômenos complexos referidos pelo termo kathoey refletem as normas culturais tailandesas de masculinidade e feminilidade e as noções de papéis sexuais, comportamento de gênero e sexualidade apropriados, de acordo com a visão daquela cultura. Kathoey denota um tipo de pessoa, não simplesmente um tipo de comportamento. De fato, em diferentes contextos, o termo pode incluir um ou mais dos seguintes grupos:

Hermafroditas (Pali: ubhatobyanjanaka; Tailandês: kathoey thae ou “verdadeiros kathoeys“): isto é, pessoas que em grau maior ou menor nascem com características de ambos os sexos ou desenvolvem essas características algum tempo depois do nascimento. 

Hermafroditas também incluem pessoas nascidas sem qualquer sexo claramente determinado (Pali: napumsakapandaka).
Travestis ou transexuais (Pali: pandaka, itthi- & purisa-ubhato byanjanaka; Tailandês: kathoey thiam ou “pseudo-kathoeys”): isto é, pessoas que são fisicamente macho ou fêmea mas preferem se vestir ou se comportar como alguém do outro sexo ou, no caso das pessoas transexuais, passar por tratamento hormonal e/ou cirurgia para mudar o corpo a fim de se aproximar das características físicas do outro gênero. 

No cânon Pali a transexualidade é descrita como uma mudança espontânea de sexo causada puramente por fatores psicológicos e sem requerer intervenção médica. 

Homossexuais (Pali: pandaka; Tailandês: varia entre kathoey, gay, tut, etc. para homens; kathoeys, tom, dee, etc., para mulheres): isto é, pessoas que são fisicamente masculinas ou femininas e são atraídas por pessoas do mesmo sexo. O termo kathoey inclui homossexuais porque na Tailândia a homossexualidade, seguindo o modelo do hermafroditismo, é popularmente considerada como resultado de uma mistura psicológica dos gêneros. Isto é, dentro do contexto cultural tailandês, um homossexual masculino é geralmente considerado como tendo uma mente de mulher ou desejos de mulher, assim como uma lésbica é considerada como tendo uma mente de homem e desejos de homem. 

A mistura de gêneros denotada no termo kathoey pode, portanto, ser somente física, somente psicológica, ou uma combinação de ambas. Os povos tailandeses adotaram o budismo Theravada por volta dos séculos onze e doze da era cristã. Se o budismo não foi a fonte da concepção popular tailandesa de kathoey, pelo menos ele reforçou um conceito cultural tailandês semelhante e pré-existente. 

É interessante destacar que a mistura de fenômenos sexuais e de gênero denotada pelos termos ubhatobyanjanaka, pandaka e kathoey aconteceu tanto por causa do budismo canônico como das opiniões tradicionais tailandesas que eles representam como um suposto contínuo de desequilíbrio sexual e de gênero, que vai desde o puramente físico (hermafrodita) ao psicofísico (travesti, transexual) e o puramente psicológico (homossexual), mas dos três o que possui suposições cármicas muito desenvolvidas é o homossexual, ainda discutido hoje por autoridades no ensino budista por esse viés. 

Já os termos ubhatobyanjanaka e pandaka denotam tipos de pessoas em vez de tipos de comportamento e são a priori categorias de gênero – denotando supostas deficiências ou aberrações na masculinidade ou feminilidade em vez de categorias que denotem a sexualidade. Isso fica claro quando o Vinaya se refere em algumas passagens ao comportamento homossexual entre monges que não são identificados como sendo ubhatobyanjanaka ou pandaka. Isto quer dizer que a homossexualidade não é a característica central definidora dessas duas categorias. 

Contudo, ainda é o caso de que aberrações de gênero como as pessoas ubhatobyanjanaka e pandaka sejam geralmente vistas como pessoas que se envolvem em comportamento homossexual. Bunmi Methangkun, último líder da tradicionalista Fundação Abhidhamma em Bangkok diz o seguinte:

Mesmo que seja bem criado nessa vida ou nascido em uma família nobre ou como um filho da realeza, não importa quão prestigioso seja seu histórico, eles [pessoas que cometeram ofensas sexuais numa vida passada] não serão capazes de evitar tornarem-se misturados em questões sexuais desde idade muito tenra. Não importa o quanto seus pais os critiquem e não importa quão instruídos sejam, eles agirão facilmente no erro com relação ao sexo e não verão isso como perigoso, mas como algo normal (How Can People Be Kathoeys?, Abhidhamma Foundation, Bangkok, 2529 (1986), p. 121. Bunmi sustenta que ser um kathoey está incluído numa lista de deficiências como nascer fisicamente defeituoso, ser mudo, louco, cego, surdo e intelectualmente incapaz (ibid.:265). 

O Buddha prescreveu que pessoas com quaisquer dessas deficiências, incluindo aquelas com sérios problemas de doenças, não deveriam ser ordenadas. É curioso que Bunmi afirme que as ações e desejos que tenham uma causa involuntária com base nas consequências cármicas de mau comportamento sexual no passado não acarretarão quaisquer consequências cármicas no futuro. Essas consequências cármicas – ser um kathoey, nesse caso – estão resolvendo carma passado, não sendo fontes de acúmulo de carma futuro. 

De acordo com Bunmi, a atividade homossexual e o desejo de se envolver em atividade homossexual entram nessa categoria, não são pecaminosos e não atraem consequências cármicas. Seguindo um viés semelhante, ele diz:

Mudar o sexo de alguém não é pecaminoso (Pali: ducarita). Consequentemente, a intenção de mudar o sexo de alguém não pode ter qualquer consequência cármica. Mas a má conduta sexual (Tailandês: phit-kam) é pecaminosa e pode levar a consequências num próximo nascimento (ibid. :306). 

Nos escritos de Bunmi as únicas atividades sexuais que acumulam consequências cármicas futuras são as formas tradicionalmente consideradas como má conduta heterossexual. 

Bunmi diz que má conduta com uma pessoa de outro sexo tem consequências cármicas, porque “é como roubar, porque a pessoa responsável por aquela pessoa não deu permissão” (ibid. :308). 

Bunmi não se refere explicitamente às mulheres kathoeys ou a exemplos de má conduta sexual entre elas que possam leva-las a nascerem como mulheres kathoey. Todas as infrações morais apontadas por ele são cometidas por homens. O próprio uso que ele faz dessa analogia que compara adultério a roubo parece refletir uma visão das mulheres como propriedades dos homens. Também é digno de nota que em tailandês as palavras usadas para descrever os resultados de uma esposa ou criança sendo sexualmente manipulada sejam semelhantes aos termos usados para descrever os resultados de ser roubado. Bunmi descreve tanto o roubo como o adultério como kert sia hai— "causando uma perda ou dano (à riqueza, reputação, etc.)” (ibid.). 

A opinião de Bunmi sobre as origens cármicas da homossexualidade e sobre ser um kathoey levaram-no a uma certa compaixão, só que com base numa certa condescendência. Bunmi diz: 

A sociedade na Tailândia e quase todos os países no mundo não aceitam realmente os kathoeys. Isso é porque eles não conhecem as verdadeiras causas para se tornar um kathoey, que são extremamente dignas de pena (Bunmi 1986:42). 

As pessoas que estudam e entendem o Abhidhamma não rirão ou ridicularização os kathoeys . . . Antes, se solidarizarão com eles e sentirão pena deles e encontrarão maneiras de ajuda-los até onde possam ser ajudados. Elas apontarão os caminhos para lidarem mais inteligentemente com os problemas da vida de modo que os kathoeys não repitam seus velhos erros, os quais poderiam leva-los à grande tristeza e pesar no futuro (ibid. :40). 

Bunmi comenta que as pessoas tailandesas geralmente riem dos kathoeys mas elas não sabem que “aqueles que riem e ridicularizam os kathoeys foram eles mesmos kathoeys numa vida passada” (ibid.:251). 

Bunmi afirma que em alguma vida passada todos já nasceram como um kathoey porque todos já foram culpados de má conduta sexual em algum ponto de suas numerosas existências prévias. Ele sustenta que: Se eles estudassem as causas de ser um kathoey, a vida da mente…todos aqueles que hoje riem e ridicularizam os kathoeys não seriam capazes de rir mais. Porque as mesmas pessoas que riem dos kathoeys foram elas mesmas kathoeys alguma vez. Absolutamente todos sem exceção já foram um kathoey, porque passamos por inúmeros ciclos de nascimento e morte, e não sabemos quantas vezes já fomos kathoeys em vidas passadas ou quantas vezes poderemos ser kathoeys no futuro (ibid. :258). Bunmi aqui está argumentando que os kathoeys deveriam ser tratados com tolerância e compaixão, as quais as virtudes budistas consideram meritórias. Ele destaca que a sociedade tailandesa contemporânea geralmente falha em refletir a ética de sua ostensiva herança budista no caso dos kathoeys. Mas ainda que compassiva, as opiniões de Bunmi não conduzem à plena aceitação de travestis e homossexuais porque presumem que kathoeys são exemplos do que acontece a pessoas que quebram os códigos de conduta sexual. 

Até mesmo os intérpretes budistas compassivos ainda consideram ser homossexual ou kathoey como uma condição inerentemente definida por sofrimento, falta de aceitação, opróbrio social e outros problemas subsequentes que essas pessoas sofrem. É o sofrimento vivido pelos kathoeys que leva intérpretes budistas tradicionais como Bunmi a considerarem essa variação da sexualidade como uma consequência cármica de malfeitos sexuais passados. Estes intérpretes não consideram a possibilidade de que o sofrimento vivido por homossexuais não seja inerente a sua sexualidade, mas antes o resultado do ambiente intolerante da sociedade na qual vivem. 

Pior ainda, seguindo a lógica cármica da causa da homossexualidade, o sofrimento dos homossexuais só pode ser suportado, não aliviado, porque é interpretado como resultado do passado do próprio indivíduo e continuará até que as consequências cármicas daqueles malfeitos tenham sido expurgadas. 

Bunmi e outros intérpretes consideram o sofrimento homossexual como um lembrete e uma lição moral das consequências infelizes da má conduta sexual durante uma determinada existência. 

Kathoeys podem ser dignos de pena e merecer empatia, mas na perspectiva do carma, eles ainda são produtos de imoralidade, ainda que numa vida passada. Isto quer dizer que num cosmos ideal povoado somente por pessoas morais, eles deixariam de existir. O budismo é uma tradição complexa e não existe uma posição canônica ou escritural sancionada sobre a homossexualidade. Ao contrário, as escrituras Pali contém uma série de tendências divergentes que diversos intérpretes podem usar para desenvolver visões sobre a homossexualidade que variam de empáticas a antagônicas. Se um intérprete adotará uma atitude empática ou uma atitude crítica, isso dependerá de como ele considera a causa da homossexualidade – se externa ao indivíduo, ou seja, fruto de um carma construído numa vida anterior, ou como sendo imoral a própria conduta desse indivíduo katoey. 

CONSIDERAÇÕES DE SERGIO VIULA

O budismo, ainda que não tenha criado paraísos ou infernos pós-mundanos, ou seja, pós-morte, continua se apegando aos conceitos de bem e mal que tradicionalmente fundamentam a vigilância e a punição motivada por crenças religiosas. Essa punição pode ser feita pelas leis civis estabelecidas a partir do imaginário moralista desenvolvido pela própria religião ou absorvido da cultura local em que ela mesma se desenvolveu, mas também inclui a administração da justiça a partir de leis metafísicas, como é o caso do ciclo de reencarnações com o objetivo de alcançar a nibbana (o fim desse ciclo de samsara ou de reencarnações). Os pressupostos moralistas do budismo são semelhantes aos do judaísmo, do cristianismo e do islamismo. A diferença repousa no modo como esse moralismo é administrado. Os monoteísmos citados acreditam em juízo divino e em castigos e recompensas depois da morte. Porém, havendo arrependimento em vida, o transgressor será perdoado graças a práticas expiatórias diferentes em cada um daqueles sistemas. Caso contrário, enfrentará a terrível punição divina. Diferentemente dos monoteísmos semíticos, o budismo acredita na purificação dessas culpas através de sofrimentos vividos neste mundo. Não basta se arrepender, é preciso renascer, reencarnar, até que o débito cármico seja zerado. De qualquer modo, permanece a lógica de erro e virtude como condições para castigo e/ou recompensa, guardadas as diferenças já expostas entre essas diferentes visões religiosas.

O budismo acaba criando uma aporia para os que pretendem conduzir suas vidas por seus ensinos. Precisam se manter fiéis às tradições, mas não podem evitar uma sociedade cada vez mais imbuída da lógica humanista-secularista que caracteriza a filosofia política contemporânea em grande medida. Se legitimarem os direitos civis da população LGBT estarão “aliviando” o sofrimento que essa mesma condição LGBT deveria enfrentar para resgatar seu carma e não voltar mais como kathoey na próxima vida. Se não legitimarem esses direitos, continuarão a viver como uma sociedade injusta, parcial e discriminatória. 

É digno de nota que a Tailândia seja o país que mais faz operações de adequação genital para transexuais no mundo. Só um hospital na Tailândia já operou mais de 200 mil tailandesas Isso é uma excelente notícia para as pessoas transexuais de lá e para as que podem viajar até lá para realizar essa operação quando não é permitida em seus países ou quando é difícil de ser obtida em sua terra-natal. Vale lembrar que no Brasil, esse procedimento pode ser realizado pelo SUS – o que coloca o Brasil à frente da maioria dos países. Porém, transexualidade e homossexualidade são coisas distintas. Só para exemplificar, o Irã, que é um país de governo muçulmano que condena gays ao enforcamento em praça pública, opera e casa mulheres transexuais. Quanto aos homens transexuais, parece que continuam invisíveis por lá. São muitas as assimetrias em todos esses países. Não se pode colocar tudo num pacote só.


Enquanto isso, o Dalai Lama, líder budista tibetano, emitiu uma opinião que parece gay-friendly, mas na verdade reforçou que budistas gays não deveriam casar. A declaração, precipitadamente celebrada por muitos, é mais demagógica do que realmente progressista. Muitas outras citações do Dalai Lama continuam reiterando de que a homossexualidade resulta de carma negativo em vidas anteriores ou mesmo de imoralidade na vida atual. Essas citações aparentemente simpáticas (só que não) podem ser encontradas aqui

Em Portugal, durante as discussões sobre a aprovação do casamento gay em 2009 (felizmente, já é realidade em Portugal agora), o presidente da União Budista Nacional, Paulo Borges, disse o seguinte: “De acordo com os princípios do budismo de pretender libertar a mente de tudo o que faz sofrer, nessa perspectiva, se o casamento entre pessoas do mesmo sexo contribuir para tornar alguém mais feliz então somos a favor”. Mas ele mesmo ressaltou que existe uma posição dos budistas tibetanos, que alega que a relação sexual entre pessoas do mesmo sexo não é aconselhada para uma evolução espiritual, a questão não é moral: “é apenas quanto à progressão espiritual, ao nível energético”.

Assim como no judaísmo, no cristianismo e até mesmo no islamismo existem seguidores pró-inclusão, no budismo eles também existem. Das três religiões citadas anteriormente, o islamismo é aquela cujos defensores da inclusão são os mais tímidos e talvez menos numerosos, devido ao nível de belicosidade de muitos círculos muçulmanos. Mas, no budismo, esse movimento vai crescendo a olhos vistos, especialmente no Brasil. Veja O Buda gay – Um estudo amplo sobre a visão budista da homossexualidade.

No Brasil, algumas comunidades budistas fazem uma cerimônia especial para selar a união dos casais do mesmo sexo, desde que eles se casem no civil – o que é possível graças ao STF e ao CNJ. 

Veja que emocionante o primeiro casamento de budistas gays em Santa Catarina. Assista: https://www.facebook.com/video.php?v=597384526988620
A Sociedade Sokka Gakai apoia:https://www.facebook.com/BsgiOficial
Conquanto o budismo tenha a seu favor o não acreditar em deuses, anjos, demônios, céus e infernos, nem por isso fica isento de sua parcela de superstição, uma vez que acredita em carma e reencarnação. Isso também é uma crença infundada. Não há qualquer evidência para se afirmar a reencarnação, muito menos essa noção de dívidas cármicas de vidas anteriores. Ninguém sequer se lembra do que teria feito de errado numa suposta existência prévia de modo a evitar repetir o mesmo erro na atual. E se as pessoas reencarnam para atingir a libertação do ciclo reencarnatório e deixarem de existir, então a pergunta que fica é: por que a população mundial cresce exponencialmente em vez de diminuir. O correto, caso fosse verdadeira a crença budista, seria vermos menos gente no mundo, à medida que as pessoas atingissem a plenitude do desapego e saldassem todas as dívidas cármicas, mas não é isso que vemos. É exatamente o contrário. Só para dar uma ideia do que quero dizer, em 1950, a população mundial era de 2 bilhões e meio de pessoas. Estamos em 2015, apenas 65 anos depois, e a população mundial é de quase 7 bilhões de pessoas. Só aumenta. Não diminui. Onde está o fim de samsara – o fluxo de renascimentos no mundo? Vejam bem, trata-se de renascimentos e não de criação de novos seres humanos. Era para o número de habitantes se manter idêntico ou diminuir, à medida que mais gente se libertasse de samsara (esse ciclo de reencarnações). Não era para aumentar, muito menos triplicar em apenas 65 anos (1950-2015). Concluindo: Criar ou manter preconceitos, discriminações, impedimentos à legitimação de direitos fundamentais, bem como perpetuar outras injustiças com base em crença religiosa é algo totalmente injustificável. Agora, é óbvio que os budistas poderão encontrar em sua própria crença motivos para a inclusão e celebração da diversidade. Só que nada disso seria possível se não fossem as pressões exercidas de muitas maneiras pelo livre pensamento, pelo o pensamento secularizado e pelo o pensamento humanista. Não é mérito da religião. Nada menos que todos os direitos humanos! Nada mais e nada menos! 

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* Sergio Viula foi pastor batista, é formado em filosofia, administrador do blog Fora do Armário www.foradoarmario.net, autor de Em Busca de Mim Mesmo, livro que fala sobre religião, sexualidade e ateísmo, é membro da ARCA (Associação de Racionalistas, Céticos e Ateus) e da Liga Humanista Secular do Brasil, e pode ser encontrado no Facebook em: https://www.facebook.com/sergio.viula







Republicado em 25 de outubro de 2016.

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