Existência: Surgimento, permanência e desaparecimento




Por Sergio Viula




O fluxo da existência é algo extremamente intrigante. Ninguém pode precisar onde ele começou (se é que teve início) e ninguém pode afirmar seguramente se ele terá fim um dia. Talvez a única coisa mais próxima do nosso conceito de eterno seja exatamente esse fluxo da existência. E por esse sintagma (fluxo da existência), quero dizer o conjunto de fatores que – combinados fortuitamente – resultam nos inúmeros micro-processos que produzem tudo que vemos, ouvimos, cheiramos, saboreamos e tocamos, além do incalculavelmente maior número de coisas às quais nem podemos acessar por estarem completamente fora do nosso alcance ou por serem imperceptíveis aos nossos sentidos. Mas, esse fluxo que faz surgir tudo também inclui os processos que fazem tudo desaparecer. Na verdade, tanto o surgimento quanto o desaparecimento dos produtos desse fluxo entram na economia dos novos produtos que surgem ou que desaparecem continuamente no horizonte da existência.

O que chamamos de permanência é a ilusão de que as coisas continuam sendo as mesmas por algum tempo. Porém, nada permanece fiel a si mesmo. Somos todos fiéis ao fluxo: estamos em contínuo movimento, e mover-se é mudar. Daí, aquela linda frase de Lulu Santos: “tudo muda o tempo todo no mundo”. O mundo também muda, diga-se de passagem.

Quando olho fotos da minha infância, reconheço-me e estranho-me nelas simultaneamente. Sou e não sou eu naquela foto. E em breve, esse produto do fluxo da natureza (mas o fluxo é a natureza!!!), arbitrariamente chamado Sergio, também desaparecerá. Talvez sua existência seja lembrada por um tempo até ser definitivamente esquecida. Isso me leva a perguntar se vale a pena tanto aborrecimento, no final das contas? Provavelmente, não. Será que se justifica tanta alegria em estar vivo? Certamente, sim e não.

Explico:

A alegria em estar vivo se justifica pelo fato de que viver é uma experiência fantástica sob muitos pontos de vista.

Por outro lado, estar vivo e saber que a morte chegará em 100 anos, no máximo, podendo nos atingir a qualquer momento, é algo que transforma o privilégio de viver em angústia. Felizmente, essa angústia fica relativamente esquecida em meio a tudo o que a vida nos solicita o tempo todo, mas ela nunca está completamente ausente.

Por exemplo, quando alguém que amamos morre, inevitavelmente pensamos na morte. E não pensamos só na morte do falecido, mas na nossa própria morte. Ontem, ele estava aqui. Hoje, não está mais. Aplicando isso a nós, chegamos à conclusão de que hoje o enterramos, mas amanhã poderemos ser nós no caixão, mesmo que esse amanhã leve algum tempo para chegar. E se o desaparecimento nos perturba, muito mais perturbador é pensarmos em como esse desaparecimento se dará: Haverá dor? Será sofrido? Estaremos conscientes ou inconscientes antes de nossa completa e eterna inconsciência, à qual se segue imediatamente a desconfiguração do corpo que a projetava, ele mesmo produzido pelo fluxo da natureza?

Você pode estar se perguntando por que, afinal, decidi falar sobre esse assunto hoje. Garanto que n
ão foi à toa. Ontem, perdi uma amiga. Tratava-se de uma idosa de 18 anos. Ela nasceu em 1997 e morreu na madrugada do dia 04 de junho de 2016. Seu nome era Pimpolha e foi a primeira cachorrinha que meus filhos tiveram.








Pimpolha chegou aqui uma bolinha de pelo, cresceu, brincou muito, teve filhotes, envelheceu até virar um saquinho de ossos e morreu aos 18 anos, ainda reconhecendo a gente, mas sofrendo do fígado. Provavelmente, um câncer. Que tristeza perder quem já nos deu tanta alegria… O consolo é saber que foi feliz por muitos anos e morreu perto de gente que a amava, tendo sido meus pais seus maiores cuidadores.

Ficamos tristes com a morte dela, mas aliviados que ela tenha parado de sofrer. O mesmo se aplica a nós. É melhor morrer do que sofrer inutilmente e sem a possibilidade de fazer as coisas que sempre amamos ao longo da vida. A diferença é que os humanos inventaram todo o tipo de “esperança” pós-morte para suportar o peso da realidade – o que geralmente não resolve nada, e ainda pode complicar muito mais as coisas. Viver poderia ser mais simples se as pessoas não inventassem tantos “compromissos” numa suposta agenda pós-morte. A dificuldade em lidar com o fim da história - a de si mesmo - faz com que alguns humanos pensem numa continuação, mas essa ficção já tornou a realidade de muita gente pior do que poderia ter sido sem tais fábulas e mitos. Voltando à minha falecida cachorrinha com sua longa vida bem vivida, declaro: Felizes os animais que não desenvolveram imaginação suficiente para se atormentarem com tanta inutilidade!

Acredite você ou não em mundos pós-morte ou em vidas pós-mundanas, não tem jeito, baby: Surgimos, “permanecemos” e desaparecemos, assim como os nossos animaizinhos de estimação. E do mesmo jeito que não existe céu ou inferno para cachorros, não há qualquer evidência de que eles existam para nós. Essa exclusividade “judaico-cristã” que oferece recompensa ou castigo aos seres humanos só se deu porque os criadores desses mitos só conseguiam pensar em si mesmos.

O cristianismo, por exemplo, deixou os animais completamente fora de qualquer existência pós-morte porque na ânsia de colocar o ser humano, especialmente o macho humano, acima de todas as outras “criaturas” (prefiro dizer seres), eles praticamente “maquinizaram” os animais, ou seja, os animais funcionariam como máquinas, sem a necessidade de uma “alma”. Porém, a verdade é que não há diferença alguma entre nós e os outros animais no que tange à imortalidade ou à existência de uma alma conectada à alguma divindade. Tudo isso não passa de imaginação fabulosa. Todos morremos. E nossos átomos serão recombinados para o surgimento de outros produtos desse fluxo “da natureza”, que, de fato, é a própria natureza. Nós mesmos somos resultado de recombinações que remontam à poeira estelar.

Algumas outras religiões foram algo mais generosas para com os animais, só que nenhuma dessas religiões eram de origem abraâmica, como é o caso do judaísmo, do cristianismo e do islamismo. Diferentemente desses monoteísmos, religiões como o hinduísmo, por exemplo, têm raízes em outras formas de ver a vida, o mundo e os seres que o habitam. O hinduísmo não surgiu nos desertos do Oriente Médio, mas na exuberante Índia, só para dar um exemplo. Para os hindus, a reencarnação inclui todos os tipos de seres – dos minerais aos divinos (a última etapa).

Tentando recuperar um pouco do terreno perdido no que tange à bicharada, a Igreja Católica encontrou espaço para uma bênção especial aos animais através de Francisco de Assis, que acabou sendo considerado o padroeiro dos animais. Mas ele mesmo acabou figurando como um retalho de tecido totalmente estranho ao padrão tradicional da colcha teológica dos papistas.

Os evangélicos, então, nem isso têm. São mais pobres ainda.

Quando os judeus diziam a outros judeus, no Pentateuco, que o teu animal seria bendito no campo, essa benção não significava mais do que simplesmente que ele seria saudável e produtivo ($$$), e essa bênção dependia de seu dono ser fiel ($$$) ao sistema religioso que girava em torno da família de Moisés (o sacerdócio de Arão) e sua tribo (os levitas). Vale dizer que a “teologia da prosperidade” que os neo-pentecostais tanto prezam foi comer justamente nesse coxo escriturístico para justificar suas esquisitices e megalomanias: Se não rolar oferta, não tem bênção. A verdade é que não tem bênção e nem maldição, seja de um jeito ou de outro - ambas são apenas invenções para manipulação, seja pelo recurso à ambição ou ao medo.

Lamento desapontá-los criadores de fábulas, mas assim como a falecida Pimpolha, estamos todos sujeitos ao fortuito, às contingências do corpo e do mundo que o rodeia, inclusive a incapacidade de viver para além daquilo que a combinação entre genética e ambiência nos permitem.

Sob muitos aspectos, Pimpolha foi uma felizarda: viveu mais que a média de sua espécie, cercada de amor, boa comida, bom ambiente (para brincar, dormir, conviver com as pessoas que amavam), cuidados veterinários. Porém, como todos nós, ela estava em constante mudança. Lembram do que eu disse antes? Ela chegou aqui uma bolinha de pelo e morreu como um saquinho de ossos.

Qual é a moral da história, no final das contas?

Viver bem cada etapa. Não temer a morte, porque enquanto esta não vem, podemos até sofrer um pouco, mas depois que ela se instala, o sofrimento acaba e não há sequer lembrança dele, uma vez que a cessação das atividades cerebrais, devido à morte de sua fonte (o cérebro), acaba com qualquer possibilidade de alegria ou de dor.

Alguém poderia me perguntar por que, então, eu me dou o trabalho de viver bem – de viver uma vida produtiva e geradora de felicidade?

Minha humilde resposta é simplesmente a seguinte: 


Porque além de parecer o mais racional, saudável e nobre a se fazer, eu não saberia viver de outra maneira, mas quando viver dessa maneira se tornar permanentemente inviável para mim, eu espero poder interromper minha vida do jeito mais limpo e menos doloroso possível. Não tenho obsessão nem pela vida (a qualquer preço) e nem pela morte (por um motivo qualquer). Não vou durar para sempre - isso é fato. O que desejo é viver bem cada etapa. Nada mais e nada menos do que isso.

Eu adoraria poder dizer “adeus, Pimpolha”, mas ela não se encontra mais. Tudo o que me resta é dizer esse adeus como se ele fosse apenas uma palavra sobre ela para quem me ouve ou lê, não uma palavra para a ela mesma. Fiz isso no Facebook e vários amigos responderam (agradeço a todos). Pimpolha, porém, nunca mais dará um só latido abanando o rabinho para mim como que dizendo: “Oi, que bom que você já chegou.” 





 
Exposição com figurino e apetrechos usados nas gravações de X-Men: Museu da Imagem e do Som (SP), dia 29 de maio de 2016.



Nota: Não foi publicado nenhum texto aqui no site no domingo passado, porque Andre e eu estávamos em SP para a Parada do Orgulho LGBT, que foi um sucesso absoluto de público e estava belissimamente organizada. Veja as foto no link abaixo:
http://www.foradoarmario.net/2016/05/20-parada-lgbt-de-sao-paulo-2016-nos.html





Originalmente publicado em 5 de junho de 2016.



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