Dois vasos de plantas no lugar daquelas duas testemunhas de Jeová ali na porta, por favor.

Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA


Numa universidade pública do Rio de Janeiro, duas testemunhas de Jeová  (TJ) costumam ficar do lado de fora do portão, de plantão, na calçada que conduz aos portões da instituição.
Vestidas com decoro, com cabelos e pele muito bem tratados, eles/elas se destacam daquelas “ovelhas” de igrejas pentecostais extremamente radicais que vivem com os cabelos mal cuidados, usando roupas que não combinariam nem com o botijão de gás aqui de casa, tão ruim é o tecido e a estampa. Sem contar que as TJ não têm nada contra desodorantes.
Pois bem, essas adoráveis TJ, às vezes, duas mulheres; às vezes, dois homens, ficam de pé, como se estivessem de plantão, por horas a fio, esperando que alguma pobre alma desgarrada de Jeová pare para conversar com elas e seja reconduzida ao $alão do Reino das Testemunhas de Jeová, a única organização chancelada por Jeová na terra. Tudo mais é apenas sistema de Satanás. Um beijinho no ombro do Charles T. Russell todas as que não sobreviverão ao armagedom: as evangélicas, católicas, espíritas, enfim, todas as outras agremiações religiosas.
Até aí, tudo bem. A rua é pública e as revistas (Sentinela e Despertai) geralmente apresentam capas que não ferem os códigos de decência, ainda que eu não as considere inofensivas de modo algum, especialmente nas mãos de crianças e adolescentes. O que, de fato, me incomodou (nada que me fizesse perder tempo discutindo com elas) foi ver outra dupla dessas adoráveis criaturas, candidatas ao paraíso terrestre, fazendo plantão dentro das dependências da universidade. As duas figuras pareciam espantadas e dificilmente teriam alguma chance de conversar com os alunos, sempre apressados ou geralmente já abarrotados de leituras complicadas demais para ainda perderem tempo tentando entender os delírios de Jeová e dessa turma.
O que me incomoda, portanto, é ver a incoerência retratada naquela cena: uma organização que abomina o conhecimento científico, que vive criticando o “presente século” (o que inclui o humanismo secular e seus semelhantes), sempre dizendo que Jeová há de destruir e renovar toda a terra para que seus queridinhos panfleteiros e vendedores de literatura sancionada pelo Corpo Governante possam habitar sem a “pentelhação” dessa gente que insiste em doar sangue como gesto de amor, por exemplo, infiltrada nas dependências de uma universidade que elas mesmas abominam… Como assim, produção?
Não pude deixar de pensar no quanto as universidades FELIZMENTE se afastaram do controle da religião sobre o que se define como verdadeiro ou falso, pelo menos nos países que compõem o que chamamos de Ocidente. Infelizmente, em países dominados por governos islâmicos, isso ainda não é verdade. Conhecimento ou dogma se misturam, prevalecendo este sobre aquele. Lembrem-se do caso do jovem egípcio que ousou questionar a “cientificidade” do discurso de um professor muçulmano. Caso não tenha lido, o post encontra-se aqui. Leia-o depois de terminar esse, por favor.
Mas pensemos nas universidades e sua trajetória.
As primeiras universidades surgiram no Oriente. Mas, as que foram fundadas no Ocidente foram fortemente estimuladas por  padres e monges. Em seguida, passaram a ser subvencionadas pelos estados-nação, obviamente, por motivos nacionalistas e imperialistas, mas foram ganhando cada vez mais autonomia e primando pelo conhecimento livre das amarras dogmáticas da religião, pelo menos em alguns lugares do mundo. O resultado foi a secularização das universidades, mesmo daquelas que ainda são administradas pela Igreja, como é o caso das Pontifícias Universidades Católicas. E isso foi um ganho extraordinário para a comunidade acadêmica, para a sociedade em geral e para o sistema político-econômico no qual elas se inserem e ao qual, de certo modo, mantém ou transformam. Infelizmente, isso não acontece em todo o mundo. Muitas universidades continuam sob o domínio de líderes religiosos, especialmente no “mundo islâmico”.
Para ver uma lista das dez mais antigas universidades do mundo, acesse esse link da revista Galileu. É muito curioso.
Por serem tão estratégicas, as universidades, públicas ou privadas , precisam manter-se livres de qualquer influência de extremistas, conservadores e fundamentalistas. Ela pode e deve ser um lugar de diálogo inter-religioso , bem como de humanismo, secularismo, laicismo, ateísmo e outras formas de livre pensamento, assim como um espaço para os debates que envolvem ética, política e sociedade, é claro. Mas, a universidade precisa ser refratária a tentativas de sabotadores que odeiam a ciência ou que desejam controlá-la com fins mesquinhos.
Tentativas de fazer a universidade se curvar aos dogmas dessa ou daquela religião e aos interesses obscuros de partidos políticos ou de grandes corporações, em detrimento do avanço em todas as áreas do conhecimento (lembrem-se das pesquisas com células-tronco), exceto aquelas que atendam a esse ou àquele setor – isso é algo que não podemos admitir jamais.
A universidade deve produzir conhecimento científico, tecnológico, filosófico, artístico, social, político, histórico, linguístico, enfim, contemplar e promover o progresso em todas as áreas das ciências exatas, humanas e biológicas, de modo a enriquecer a  experiência humana e facilitar a vida no planeta, desde as mais básicas atividades rotineiras até a realização dos mais ousados e sofisticados sonhos da humanidade, causando o menor impacto possível sobre ecossistemas, sejam os mais imediatamente associados a nós ou os mais remotos. Afinal, tudo está conectado de algum modo. Um recife que morre na Austrália pode afetar todo o planeta de diversas maneiras: temperatura, pureza e oxigenação dos oceanos, etc. A moral daquela velha anedota da borboleta que abanou as asas num lugar do planeta e causou um tsunami em outro é muito mais verdadeira do que se pode imaginar, apesar do tom jocoso da historieta.
Não se pode, por exemplo, tolerar “acidentes” como  o da empresa Samarco, ocorrido neste novembro de 2015 em Minas Gerais. Um sistema fluvial inteiro foi afetado e possivelmente destruído por elementos tóxicos de responsabilidade daquela empresa ligada à Companhia Vale do Rio Doce, que desde o governo de Fernando Henrique está sob o controle da iniciativa privada. Não é mais estatal. Já se fala em deputados envolvidos numa CPI para investigar o caso supostamente recebendo dois milhões de reais cada da parte da empresa. CPI é o cacete! Polícia federal e Ministério Público em cima dos responsáveis. E STF em cima dos deputados que tenham aceitado suborno, caso seja comprovado. Cientistas, governantes, juristas têm que unir forças para obrigar a empresa a realizar a completa recuperação do Rio Doce e do sistema abastecido por ele, assim como do solo afetado. Pessoas intoxicadas poderão viver em grave sofrimento daqui para frente. Novas gestações poderão ser gravemente afetadas pela exposição aos elementos tóxicos. O Ministério da Saúde precisa investigar o impacto disso sobre a saúde pública e prover o necessário para que a população se recupere ou acabe sofrendo novos danos.
Não se pode tolerar a poluição do ar, principalmente nos níveis alarmantes de São Paulo, Pequim, Cidade do México – só para citar três.
Não se pode tolerar o desmatamento e a consequente destruição de nossas fontes hídricas.
Não se pode tolerar a poluição do espaço sideral com restos de foguetes, satélites e outras bugigangas de “última geração”, algumas enviadas para lá há décadas sem qualquer preocupação dos responsáveis em recolher esse lixo espacial. Na verdade, é lixo humano. O espaço não o produziu. Aliás, vale lembrar que outros animais não produzem lixo. Só o bicho humano. Há, inclusive, o risco de que esses objetos entrem na atmosfera da terra e colidam com áreas habitadas, florestas, regiões agricultadas ou usadas para criação de gado.
Não se pode tolerar o envenenamento de vegetais e animais usados para o consumo, a partir de insumos químicos com o objetivo de fazê-los crescer mais rápido, ao custo da saúde de bilhões de pessoas.
Outrossim, há que se pensar modos mais justos e solidários de se criar esses animais para que não sofram a vida inteira. Gado de corte e aves, de um modo geral, são torturados desde o nascimento até o abate. Isso é injustificável, antiético, cruel. Não é o caso de proibir o consumo de gado ou aves de corte, mas de tratá-los o mais dignamente possível até que, eventualmente, venham a ser comida. Enquanto ele comida não for, são seres sensíveis que apresentam muitas das emoções que tanto prezamos ou queremos evitar. Além disso, nós também seremos pasto para outros seres vivos um dia, inclusive micróbios, mas não vivemos como se já estivéssemos sendo devorados. E talvez já estejamos.
Ressalto, porém, que se depender de Jeová e de sua turma, o que teremos é o velho “quanto pior, melhor”, que a maioria dos crentes adora, quando se trata do “mundo” e das “coisas do mundo”. Afinal, só assim, eles podem culpar o diabo, o ser humano e o mundo, dizendo que a solução está naquele obscuro livro de muitíssimas fábulas e crimes, mas sem qualquer acuidade científica. O que se pode esperar, do ponto de vista científico, de um livro que não diferencia um morcego de uma ave.

Você pode clicar na foto para vê-la melhor e depois na seta de retorno para voltar ao post.
Assim, não sejamos ingênuos. O conhecimento que gera soluções faz surgir novos problemas que precisarão de mais conhecimento para que sejam resolvidos, e que também gerarão novos problemas. Desse ciclo, jamais escaparemos, mas é transformando o círculo em espiral que nos desenvolvemos. O importante é não adiarmos o que já sabemos e que podemos fazer agora mesmo, de modo que vivamos vidas mais saudáveis, longas, felizes e com o máximo de harmonia possível no convívio com outras pessoas e demais seres vivos ou não vivos ao nosso redor.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A face mutante do Diabo e sua utilidade para a igreja

Os fantasmas da (i)moralidade religiosa querendo assombrar o ensino de biologia

De onde vem essa história de que a carne é fraca?