Debate Estado Laico e Diversidade Religiosa – IFRJ: Vídeo e compilação.


Em setembro de 2013, eu tive o privilégio de participar de uma mesa de conversa com o Pastor Alexandre Cabral e com o Babalorixá Ivanir dos Santos no auditório do IFRJ a convite do professor Tiago Barros, que leciona filosofia naquele renomado instituto.

Na época, eu gravei e transcrevi os áudios dos vídeos dos três oradores para o Blog Fora do Armário (eles ainda podem ser vistos lá: http://www.foradoarmario.net/2013/09/video-e-transcricao-debate-estado-laico.html), mas achei que seria uma boa ideia publicar a minha aqui, uma vez que esse blog é ateu e a minha fala, conquanto respeitosa aos meus dois colegas sacerdotes, foi a única ateísta.

Espero que curtam.

Saudações ateístas, humanistas e laicistas.

SERGIO VIULA








Local do evento: Debate Estado Laico e Diversidade Religiosa – IFRJ



FALA DE SERGIO À MESA


Alexandre merece mesmo [os aplausos]. Ele é um pastor fantástico. Eu gosto muito dele. Tive o privilégio de conhecê-lo já tem algum tempo e já estive na igreja dele umas quatro ou cinco vezes. Já fui umas quatro ou cinco vezes lá. Eu é que quase me converti na igreja ou me re-converti. Mas, é o que disse ao povo dele: Olha, se alguém se converter ao ateísmo aqui, vai para o inferno. Então, por favor, fiquem longe. (risos) Porque, quando eu fui à igreja do Alexandre, a minha intenção era realmente dialogal. Era de trocar ideias, era de conversar. E isso que ele falou – que não fica cantando lá corinho, hino evangélico, canção gospel – é verdade. Era uma ou outra canção selecionada. A maior parte das músicas do hinário que eles produziram para a igreja é Caetano Veloso, é Chico Buarque, Gal Costa, Maria Betânia, Ney Matogrosso. (risos) É verdade, eles adoram a Deus com música desse tipo. Eu achei fantástico. Eu fiquei impressionado com a igreja. E é uma igreja muito amorosa, muito querida.

Com relação ao Candomblé, eu não preciso nem falar, né? O Ivanir realmente é uma pessoa que é uma estrela. Não digo isso no sentido artístico; é uma estrela porque tem brilho próprio mesmo. Ele é fantástico. A forma dele se colocar nesse programa [Na Moral] me tocou muito. Adicionei-o como amigo no Facebook e mandei mensagem pra ele (risos).

E como o Alexandre falou, eu fui pastor batista realmente. Eu trabalhei muito tempo com a Igreja Batista [mesmo antes de ser batista]. Eu tive um envolvimento profundo. Quem me ouve hoje não consegue me imaginar pastor, porque nem eu mesmo consigo mais me ver pastor. Quando eu falo “fui pastor”, isso soa tão distante de mim hoje. E aqui não vai nenhuma crítica ao Alexandre como pastor, não, porque ele é um pastor de um gênero diferente. Mas, aquele Sergio que era pastor batista era muito fundamentalista. Meu Deus do céu, quando eu falo sobre fundamentalismo hoje, tem gente que acha que eu estou falando sobre fundamentalismo como que de fora, como alguém de fora, que nunca soube o que era ser crente, muito menos batista, por exemplo, e está falando porque tem algum recalque, algum ressentimento, alguma vingança… (risos) Por que é que eles pensam que viado sempre é babadeiro, hein? (mais risos) Tudo tem fofoca, confusão, barulho, gritaria. Eu fico passado com isso.

Na realidade, quando eu falo a respeito do fundamentalismo, eu falo sobre isso porque eu tive experiência profunda com isso. Não só no sentido de falar, de defender, mas também de ser ferido pelo fundamentalismo. Eu sei quanto dói na carne da gente acreditar em certas coisas e depois perceber que elas eram falaciosas, mentirosas e até maldosas. E também o quanto dói nos outros que acreditaram em você. Isso não quer dizer que eu esteja jogando o bebê com a água fora, não. Uma pessoa pode ser batista, presbiteriana, reformada em geral, pode ser pentecostal de qualquer denominação, e ser uma pessoa maravilhosa. Eu virei para a minha mãe uma vez, que frequenta a Igreja Evangélica Maranta, aquela do Paulo César Brito, e falei: Mãe, quer saber de uma coisa? Nessa questão aqui (a senhora e a igreja), quem ganha é a igreja em ter a senhora lá dentro. Não é a senhora, por estar lá dentro, que sai ganhando. Quando a senhora vai para a igreja, a senhora leva consigo uma herança, um acervo existencial de bondade, de hospitalidade, de carinho, de respeito ao outro que só enriquece a igreja, porque se gente como a senhora saísse da igreja, não sobraria nada que prestasse. Ainda bem que a senhora está lá e mais um bando de gente igual à senhora – muita gente boa mesmo. Gente que é capaz de tirar a roupa do corpo para cobrir o nu, fazendo aquilo Jesus ensinou: “Toda vez que o fizeste a um destes pequeninos a mim o fizeste.” Ele se referia a vestir, alimentar, visitar. Pois bem, a minha mãe é assim. E como ela, eu conheço um monte de gente da igreja dela que me viu com 16 anos, quando me converti à Igreja Evangélica. E quando eu digo “me converti à Igreja Evangélica” sempre tem alguém para me perguntar: “Mas você não se converteu a Jesus?” Tanto faz o termo que você use. O que eu quero estabelecer aqui é um momento de diferença: Eu era católico e passei a ser evangélico. Se você for pensar que Jesus está aqui e está ali, eu não sei se se pode dizer que deixar de ser católico e passar a ser evangélico signifique converter-se a Jesus, não é? A menos que você diga que o católico não serve a Jesus. E isso também é complicado do ponto de vista do pluralismo religioso.

Então, quando eu me converti ao Evangelicalismo, primeiro pentecostal e depois tradicional, eu me tornei uma pessoa que vestia a camisa com tudo. Eu comprei o boi inteiro. Não deixei o rabo de fora ou o chifre de fora. Levei tudo para casa. E eu comecei a aplicar aqueles princípios todos, com a maior honestidade, na minha vida. Ao ponto de muito cedo me envolver com o trabalho missionário. Deixar um emprego aqui na Petróleo Ipiranga, aqui do lado, para trabalhar como missionário voluntário. Não tinha um centavo envolvido. Todo o apoio financeiro que viesse para o trabalho era dado pela igreja voluntariamente. E por isso mesmo não se podia contar com isso com toda a certeza. E aí entra aquela coisa de fé, não é? Eu vou, porque Deus mandou. Vou pela fé. Vou fazer a obra de Deus e tal, pregar o Evangelho. E, realmente, tive algumas experiências incríveis tentando levar a Palavra de Deus – como eu também a chamava – às pessoas que ainda não tinham ouvido, pelo menos daquela maneira que eu achava que devia ser pregada. Esse era mais um sinal de fundamentalismo. Mas, posso dizer que era muito bem intencionado.

Por isso, eu ainda vejo hoje, mesmo em pessoas muito fundamentalistas, religiosamente falando, um quê de honestidade. Digo algumas, não todas. Esses pastores vedetes que você vê aí na televisão – esses caras – não têm nenhuma boa vontade e nem boa intenção. Não se engane. Eu conheço os bastidores. Já fui pastor. Eu lidei com essa gente. Eles não têm nenhuma boa intenção. Agora, o pessoal que ouve, acredita e segue é como aquele Sergio Viula com 16 anos que entrou na ABI (Associação Brasileira de Imprensa [tinha um culto da Maranata lá, às quartas-feiras]), ouviu uma pregação, acreditou honestamente e investiu a vida toda, seguindo aquele versículo de Jesus: O Reino de Deus é semelhante a um homem que, encontrando um tesouro num campo, vai e vende tudo o que tem e compra aquele terreno. Ou como um homem que encontra uma pérola de grande valor, vende tudo o que tem e a compra. E foi mais ou menos isso: Eu investi a vida toda, empatei a vida toda na igreja [ênfase do debatedor]. E eu saí da igreja, não foi porque eu era gay. Isso é importante colocar. Tem gente que pensa “o cara queria soltar a franga e saiu da igreja. Trocou o Cordeiro pela franga.” (risos) Mas não foi isso.

Na verdade tem muita gente gay que é crente. Aliás, vou dizer uma coisa para vocês: Tem mais gente gay na igreja do que na Parada Gay. A Parada Gay está cheia de hétero que vai ali e fica de olho nas garotinhas: Olha que gostosinha! Será que é sapatão? Será que não é? Querendo dar em cima. (risos) É… Tá cheio de machinho querendo pegar umazinha. E tem umas garotinhas que vão lá também, porque tem uns caras bem gostosos na Parada Gay, não é? (risos) Elas tentam, não é? Vai que… Marcelo Antony… [referindo-se ao personagem dele em Amor à Vida]… (gargalhadas). Então, tem mais gente hétero numa Parada Gay do que você imagina, mas também tem mais gente gay dentro da igreja do que talvez na Parada Gay. Tudo enrustido. Tudo enrustido. E alguns resolvidos. Alguns já entenderam que o que eles são, eles são e pronto! Se eles querem acreditar em Deus e servir a Deus, isso é outra história. E podem continuar lá, servindo numa boa.

Mas eu quando saí da igreja, saí por outras questões. Foram questões filosóficas mesmo, teológicas. Eu passei a descrer que houvesse uma razão que fosse plausível, que pudesse ser verificada, que pudesse ser demonstrada para que eu acreditasse que esse Deus e não qualquer outro era o Deus verdadeiro. Quando eu comecei a questionar isso, eu abri questionamentos para pensar em todos os outros Deuses também. Será que qualquer um dos outros é verdadeiro no sentido de que é tão real quanto essa água que eu bebo [o debatedor ergue o copo de sobre a mesa], só que de outra substância? Essa era a questão.

Quando eu saí da igreja há 10 anos atrás, eu fui muito honesto com a igreja. Eu disse exatamente por que era que eu a estava deixando. Os pastores, meus amigos, que vinham conversar comigo ficavam perplexos e perguntavam: “Mas, Sergio, você não tem medo do inferno, não?”

Recorrem logo ao inferno quando não têm argumento, não é?

“Você não tem medo de ir para o inferno, preocupação de não entrar no céu?”

Eu dizia para eles o seguinte: Olha, primeiro, eu não tenho razão plausível, verificável, para acreditar que esse inferno de que vocês estão me falando seja mais real do que o Tártaro grego, ou – sei lá – que o Olimpo, ou o Hades. Entendem? Não tenho motivo para pensar que seja melhor. Eu não tenho razão para acreditar que Jeová é melhor do que Zeus. Eu não tenho razão para acreditar que Jesus é mais verdadeiro, como divindade, que Hércules ou outro semideus qualquer lá da Grécia. Então, eles ficavam sem argumento realmente. O que eles podiam dizer pra mim? Repetir o que a Bíblia fala? Já sei. E isso não prova nada.

Agora, eu não estava pedindo a ninguém para se converter ao ateísmo. Até porque, para mim, o ateísmo não é fé. Não é matéria de fé. Você pode ser ateu simplesmente por rebeldia, como esse casal judeu [referindo-se ao casal que o Pastor Alexandre mencionou anteriormente]. Tipo: Estou revoltado com o rabino, então Deus que vá para o inferno. Não quero mais saber. Este é o ateísmo que não tem fundamento, não tem base. Ele é totalmente emocional. Tão emocional quanto a maior parte das fés que vocês veem por aí. Sem nenhum substrato racional ou argumentativo. É apenas reação.

Agora, eu pensava de uma forma um pouco mais ‘pesada’ em relação a isso. Eu não estava magoado com a igreja, e por isso não queria saber de Deus. Não. Eu não tinha razão para acreditar em Deus. Dizer que a natureza é linda, e que ela é testemunho de Deus, não é suficiente. Porque o cara que é ufólogo vai me dizer que a natureza é testemunho de que os ETs estiveram aqui e que plantaram tudo isso aí, ou soltaram qualquer organismo unicelular, microscópico, que foi evoluindo até chegar ao que Darwin descobriu. Isso tudo não passa de mais uma crença.

Agora, as crenças não são erradas em si mesmas do ponto de vista moral, ainda que elas possam não ter base demonstrada, verificada. Seja como for, elas não são imorais por causa disso. Eu posso ser crente em alguma coisa que não seja verdadeira. Como disse o próprio Ivanir, você pode orar para um poste, para uma máquina de fotografar [pega a câmera de sobre a mesa e mostra]. Esse é um direito seu. Ou você pode acreditar num Deus mais elaborado.

Eu particularmente – não estou puxando o saco do Ivanir, não – tenho uma simpatia muito maior pelo Candomblé agora no meio do meu ateísmo – vejam como são as coisas – do que pelo Deus cristão, muçulmano ou judeu. Deuses que dançam – para mim – são muito mais interessantes do que Deuses que julgam, entendeu?

Agora, por isso mesmo é que eu digo o seguinte: Não basta ser ateu, porque você pode ser ateu e suficientemente idiota para ser homofóbico, para ser antirreligioso, para ser machista, para ser xenófobo, para ser uma série de outras coisas. Se você é ateu, agnóstico, ou qualquer outra coisa, até mesmo crente em alguma “coisa” e não é humanista, você não está nem na metade do caminho para ser alguém que mereça ser ouvido. Não está nem na metade do caminho. Você precisa mesmo ter um compromisso com o humanismo acima de tudo.

E o que eu quero dizer com ‘humanismo’? Eu quero dizer aquela preocupação de que, independentemente das pessoas terem outra vida, ou não, o que interessa é essa vida. Vamos discutir essa. Se você acredita em sete céus, num céu, não tem céu; se você acredita que reencarna, não reencarna; se você acredita que reencarna pra depois desencarnar e virar nada; se reencarna para virar Deus, como crê o Induísmo; se reencarna para, de repente, ir para outro plano, como diz o Espiritismo; e vai por aí afora – isso é outra questão. O que interessa para a gente agora é esse momento, é essa vida. Por isso é que eu tenho que pensar em categorias humanistas.

O Estado laico combina com o humanismo. O Estado laico não combina com o fundamentalismo. Nem mesmo com o fundamentalismo ateu. Não combina. Não deem ouvidos a ateus que passam o tempo todo na Internet debochando de religioso, mas não têm muito para dizer… tanto quanto Silas Malafaia, e Feliciano, e outros aí não têm muito para dizer sobre religião também. Agora, se um ateu é humanista; se um agnóstico é humanista; se um cético é humanista; se um crente em qualquer divindade é humanista, então aqui nós temos uma pedra de toque que pode ser ponto de convergência para todos discutirem temas que realmente interessam, porque o que interessa, no final das contas – para mim – é saber se não sou só eu que estou comendo bem nessa sociedade, mas se outros também estão se alimentando; se não sou só que eu que estou sendo bem atendido num hospital, mas se outros que também chegam ali recebem atendimento; se não sou só eu que estou recebendo educação, mas se outros chegam ali e recebem educação também. E vai por ai afora.

Então, eu posso me colocar no lugar do outro e pensar em categorias humanistas. Agora, se eu pensar em categorias fundamentalistas, eu quero que o meu grupo se dê bem e o resto que se dane; vá para o inferno. E eu não vou nem esperar ir para o inferno, não. Vou dar um empurrãozinho para ir mais rápido. Eu vou matar homossexuais na esquina, porque esse cara é um condenado. Eu vou matar candomblecistas e umbandistas na favela – não vou nem deixar vestir branco – porque é um condenado. E vai por aí afora.

Mas é aquela coisa: Se você começa a perseguir todos os que são diferentes, não vai sobrar nem você, porque você também é diferente de alguém. Ninguém é igual a ninguém.

Então, o Estado laico abre espaço para isso: Como é que eu faço para viver a pluralidade com as diferenças? Mas não é tolerância que a gente quer, não. A gente quer respeito. Porque tolerar significa o seguinte: Eu te dou espaço, concedendo a você uma coisa que talvez você nem mereça, mas como eu sou tão superior, tão evoluído, eu vou conceder. Aproveite bem. Se pisar na jaca, eu tiro. Isso é tolerância. Isso não presta também. Pode ser bom – lógico – num país como o Irã, num país como o Iraque, num país como – sei lá – como Uganda, que estão perseguindo homossexuais lá a torto e a direito. Mas, isso está longe de ser o ideal.

Quando você olha para a ex-União Soviética – a Rússia e os países em volta – você vê muita homofobia institucional. O que o Vladimir Putin está fazendo agora é o repeteco de uma história de fascismo, literalmente – como o Ivanir falou muito bem também. Putin tem falado que os homossexuais não podem fazer propaganda. Silenciar uma categoria, seja ela qual for, é condena-la à não-existência, à marginalidade.

Quando Putin fala em propaganda, ele não está falando que alguém vai chegar na televisão, e vai dizer: Olha, para você que está vivendo infeliz, tenho uma solução para você – homossexualidade; vai resolver todos os seus problemas.

Não é desse tipo de coisa que Putin está falando. Isso é um absurdo. O que ele está dizendo é que os LGBT não podem se manifestar. Não podem sequer citar a palavra ‘gay’.

Quatro holandeses foram presos na Rússia há pouco tempo, porque foram fazer um documentário. Quer dizer, eu não posso nem ter o direito de produzir conhecimento sobre fatos, sobre realidade, sobre cultura, porque eu não posso fazer ‘propaganda’. Fazer propaganda não é só veicular propaganda; é produzi-la também, ainda que eu não a veicule dentro da Rússia, porque estou usando a Rússia como palco. E eles não querem isso.

Então, esse tipo de comportamento que o Vladimir Putin está tendo agora, e que outros governos estão fazendo também – o de Uganda, como eu disse antes. O do Irã, então, nem se fala: adolescentes gays são enforcados em praça pública. Agora, em pleno século 21!!! Isso é inaceitável. [Adendo: e há evangélicos alimentando esse ódio sistematicamente. Entenda como.]

Agora, o Brasil é um país que aprendeu a fazer as coisas de um modo bem cínico. Eu não penduro em praça pública, mas eu bato com lâmpada fluorescente na cara no meio da Avenida Paulista. Então, a gente precisa de um governo (governo é o braço executivo, legislativo e judiciário do Estado), a gente precisa de um governo que pense nessas coisas. Mas o governo não se sensibiliza à toa. Se as massas não falarem, o governo não se sensibiliza. Tem que vir da margem para o centro mesmo. Porque não está tudo no centro. No centro tem muitos interesses corporativos que impedem os interesses das margens. E a gente está nas margens. Ainda que possamos estar um pouco acima na pirâmide social em relação a outros, a gente está muito abaixo dos verdadeiros poderosos desse país em termos de força. E a gente precisa ter voz.

Então, quando você ouvir alguém defender direitos LGBT, não fique pensando que é privilégio, não, como esse IMBECIL desse pastor televisivo fala toda hora. É público. Por isso é que eu estou dizendo. Aparece toda hora na televisão. Mas, não é privilégio. A vida não é privilégio. A vida é direito básico. Respeito à individualidade é direito básico.

Quando se fala em casamento é muito importante se pensar o seguinte: É lindo o fato do Alexandre ter sido chamado para celebrar o casamento de um casal gay e chamar um Pai-de-Santo para participar, porque essas pessoas acreditam no casamento como uma forma de sacramento; uma coisa que santifica a relação. Mas, casamento não é monopólio de igreja e nem religião alguma. Casamento é direito civil. É o Estado que regulamenta. E isso se dá porque o casamento tem uma relação com bens, com direitos, com segurança. Uma pessoa casada com outra, que constrói um patrimônio em conjunto, quando elas se separam tem que haver uma regulamentação que estabeleça, em caso de litígio, quem fica com o quê. Eu não posso deixar alguém desabrigado por causa de uma briguinha de casal. Eu não posso deixar alguém levar tudo o que é meu, ou eu levar tudo que é de alguém, e ninguém poder discutir isso, porque não existe legislação para isso. Um morre, e logo vem um parente e toma, e você está no meio da rua.

Eu conheço um cara – gay também – que era casado com um homem mais velho do que ele, com quem ele viveu até a morte. Cuidou dele até morrer com todo o carinho. Era uma pessoa extremamente carinhosa. Amava esse homem. Ele ficou deprimido várias semanas depois da morte dele. E ele foi expulso da própria casa, a casa que ele montou junto com o parceiro dele, porque a família do falecido chegou lá e colocou esse meu amigo para fora. Por quê? Porque só estava registrado no nome de um [o falecido] e não tinha ainda a parceria civil como agora tem, graças ao Supremo Tribunal Federal. Não graças ao Congresso brasileiro, infelizmente. Mas ainda bem que há juízes que fazem valer a Constituição brasileira. Agora é um direito garantido. Você pode fazer a parceria civil e converter em casamento, ou fazer o casamento direto no cartório, graças ao CNJ (Conselho Nacional de Justiça), que regulamentou isso.

Então, não se está falando de privilégios. Está se falando de existência. Está se falando de direitos básicos, direitos fundamentais do ser humano. E se você fere um direito; se você deixa um direito ser negociado, você coloca em risco todos os outros direitos, porque não há ninguém nem no céu, nem na terra, e nem debaixo da terra garantindo esses direitos. A única coisa que garante esses direitos é o diálogo democrático. É só isso. É isso ou guerra. Ou a gente tem diplomacia, ou a gente tem guerra. Não tem jeito. E, aí, na guerra você mata um monte, mas também pode morrer, e ninguém está garantido de coisa alguma do mesmo jeito. É a mesma M. e talvez elevada à milésima potência.

Na política, pelo menos, a gente pode discutir, a gente pode esclarecer esses direitos e procurar preserva-los.

Então, quando você vir os direitos de qualquer ser humano garantidos, celebre. Eu celebro quando vejo os direitos dos negros avançando; eu celebro quando eu vejo os direitos das mulheres avançando; eu celebro quando eu vejo a garantia da liberdade para as crenças religiosas avançando, porque ela quer dizer também que eu posso deixar de crer e não ser preso, como já aconteceu no passado. Já houve ateus presos e até mortos porque não criam. [Adendo: e ainda há pena de morte. Saiba mais.]

Então, o que a gente tem que fazer é construir um país que pense direitos, cidadania, respeito, pluralismo, laicismo, e não um país que dê o braço ao fundamentalismo, muitas vezes atrás de palavrinhas bonitas “em nome da família, da moral e dos bons costumes” e a cambada que faz isso é a cambada de pilantras que já tem representantes presos, felizmente, como aconteceu recentemente. Marcos Pereira é um deles. Vivia derrubando os outros com o terno mágico dele, o terno ungido. Está preso sob a acusação de estupro. O Donadon também pastor, deputado, está preso por corrupção. Então, essa história de que a família…

Ah, Magno Malta, um dos maiores inimigos dos LGBT no Congresso, falando horrores, dizendo que o negócio é o que dizem as Escrituras. Sabiam que ele separou da mulher dele e se casou de novo com uma deputada que também se separou do marido? E sabia que se eu for levar ao pé da letra o que diz a Bíblia, eu vou ter que dizer que os dois estão em adultério? E se o adultério leva ao inferno como diz o Apocalipse, eles estão condenados? O que Jesus disse foi que se alguém repudiar sua mulher, exceto em caso de adultério, ele comete adultério se casar de novo e a repudiada também, casando com outro. Os dois repudiaram seus parceiros e casaram-se. São adúlteros de acordo com as Escrituras. Vamos falar das Escrituras literalmente? Estão condenados, então. Eles estão juntinhos comigo naquela passagem que fala que ficarão de fora os sodomitas, os efeminados… os ADÚLTEROS. Magno Malta, bem-vindo ao clube, bunita! (risos)

É, mas é esse tipo de gente que faz esse discurso. O PSC? Olha, DEUS ME LIVRE – o ateu vai dizer agora. A propaganda do PSC é uma vergonha. Os caras vão lá e colocam: Em defesa da família. Eles nem precisam usar a palavra LGBT. Eles falam nas entrelinhas. Eles estão reafirmando apenas como família apenas o casal heterossexual, monogâmico e com filhinho. Só. Isso é uma estupidez. Ainda mais numa sociedade plural como a nossa.

A gente precisa pensar num Estado laico, batalhar por um Estado laico, não negociar esse Estado laico. E isso não significa que os religiosos devam ficar fora da política. Isso significa que argumentos religiosos que não possam ser justificados por via da razão pública não podem determinar o comportamento do Estado.

Agora, o Estado laico garantirá o direito de todos cultuarem ou de não cultuarem; de crerem ou não crerem; de escreverem a respeito de sua fé ou de escreverem a respeito da falta dela. E está ótimo! Está bom demais! O resto, a gente constrói com trabalho, com dedicação e com união. Mas enquanto houver tentativa de impor, seja a sexualidade, crença, a tentativa de branquear a sociedade, a tentativa de banir as religiões que não fazem parte do mainstream… Enquanto isso acontecer, a nossa sociedade vai ser essa coisa capenga, esquizofrênica, esquisita que a gente quer chamar de ‘um país maravilhoso’, mas que está longe de ser maravilhoso. A única coisa que a gente pode dizer que, no Brasil, é fantástica, é a natureza – que estava aqui muito antes da gente chegar. Depois que a gente chegou aqui, isso aqui bagunçou. A gente está tentando organizar até hoje. Já avançamos um pouco. Já estamos melhores que alguns países aí, mas a gente está muito aquém do melhor. E a gente se contenta com muito pouco. Vamos começar a exigir mais e trabalhar por mais. E respeitar o outro. Eu não tenho problema nenhum em ir lá num churrasco de Exu e comer uma carne deliciosa. Não tenho problema nenhum em ir a uma beijada de Erê e comer um docinho maravilhoso. Não tenho problema nenhum em ir à igreja do Alexandre e ele orar por mim [Alexandre em tom de brincadeira: Vou tirar Demônio dele]. [gargalhadas de Sergio e do auditório]

Eles [os Demônios] nem dão bola. Entraram gostaram e ficaram. Agora eles têm uso capião. [Sergio entra na brincadeira]

Mas eu sei que se eles oram por mim, é porque querem o melhor para mim. E eu fico feliz quando eles podem ouvir também que não tenho crença, porque não vejo razões plausíveis, verificadas, demonstradas, bem arrazoadas para acreditar na existência de um Deus. Se isso pode ser dito sem que alguém se ofenda e puxe um navalha, então a gente está numa sociedade civilizada. Se não, a gente ainda não saiu do tempo da pedra, e talvez aquele homem da era da pedra fosse melhor do que a gente. É isso aí, gente.




Originalmente publicado em 5 de setembro de 2016

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