COMPAIXÃO: Por que isso incomoda tanto os fundamentalistas e outros totalitaristas?


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Por Sergio Viula


Originalmente publicado no AASA

COMPAIXÃO:

Por que isso incomoda tanto os fundamentalistas e outros totalitaristas?

A palavra compaixão é de origem latina e significa “sofrer com”, ou seja, junto com o outro, sentir a dor alheia. Mas isso levanta a seguinte questão: se consideramos que o sofrimento é ruim e deve ser evitado, a própria ideia de sofrer com o outro – sentir a dor alheia, solidarizar-se na dor, mostrar simpatia (no grego, sentir junto) ou empatia (no grego, sentir em, ou seja, entrar no sofrimento do outro) – já seria algo a se evitar para o bem da própria felicidade. Devagar. As coisas nunca são exatamente o que parecem. Vejamos:
O contrário de compaixão seria dureza, crueldade, frieza, indiferença, insensibilidade. De que maneira poderíamos ser felizes e contribuir para a felicidade alheia nutrindo tais sentimentos ou manifestando tais atitudes para com outros seres humanos e até mesmo outros seres vivos (não humanos): animais, peixes, plantas, etc.?
Para facilitar, tomemos a simpatia, uma palavra que pode ser usada como sinônimo de compaixão. Não me refiro à simpatia do sorriso aberto que acompanha um cumprimento, um aperto de mãos, ou coisas assim. Refiro-me ao sentimento/atitude de sentir com o outro sem a menor preocupação com julgamentos de valor. Não é simpatizar com tudo e com todos por qualquer motivo. A simpatia na dor, por exemplo, dificilmente será reprovável. Por simpatia, podemos sentir a dor do culpado sem que sejamos necessariamente cumplices de seu malfeito ou crime. Podemos sentir a dor da vítima de uma agressão, mesmo que ela não seja absolutamente inocente. A simpatia na dor não oferece grandes problemas, mas a simpatia nos prazeres merece atenção especial. Explico:
Não há mal algum em sermos simpáticos ao prazer que não é dominado pelo ódio ou crueldade, mas sentirmos prazer com aquele que odeia, em suas palavras ou atos odiosos, nos faz tão odiosos e cruéis quanto ele.
Assim, participar da alegria do outro também é uma virtude, a menos que seja a alegria que alguém sente ao causar mal a outrem. Nesse caso, trata-se de uma atitude absolutamente reprovável, para dizer o mínimo. De modo que a compaixão ou a simpatia é o contrário da crueldade, que se regozija com o sofrimento do outro, e do egoísmo, que não se preocupa com ele.
Muitos já acusaram a compaixão de fraqueza, inclusive alguns pensadores, mas é interessante percebermos como usamos o termo “humanidade” praticamente como sinônimo de compaixão, e não apenas para designar uma espécie animal considerada mais evoluída que as demais.
Quando somos compassivos, demonstramos humanidade. Daí, ser impossível, até onde consigo enxergar, dizer-se humanista sem estar comprometido com a compaixão. E, na verdade, quando somos humanistas de fato, ou seja, até às últimas consequências, logo estendemos nosso humanismo para muito além dos limites do humano – pensamos cosmicamente: todos os seres sensíveis passam a ser alvo de nossa compaixão, porque tudo o que sofre é meu semelhante em alguma medida.
Não importa se somos compassivos por transferência. O que importa é que essa nossa capacidade de nos colocarmos no lugar do outro, porque aquilo que acontece ao outro poderia nos acontecer também, associada à capacidade de imaginarmos a dor que sentiríamos se assim o fosse, carrega em si um tremendo potencial transformador, criativo, revolucionário mesmo.
Todavia, a compaixão não pode ser um dever, como advertia Kant. Ninguém pode ser obrigado a ser compassivo, mas é nosso dever desenvolvermos a capacidade de senti-la e de agirmos movidos por ela. E nesse sentido, a compaixão é uma virtude a ser cultivada. E lembremo-nos que a palavra virtude tem a ver com poder. Quanto mais virtude, mais poder. E esse poder é, essencialmente, poder de si sobre si mesmo.
Nem sempre os atos de compaixão demandam dinheiro, mas é interessante percebermos que a riqueza não desumaniza aqueles que cultivam a virtude da compaixão. Vejamos alguns casos extraordinários:
Por compaixão, depois de visitar as vítimas do Tsunami que atingiu a Indonésia (2005), o cantor Ricky Martin doou US$ 2,8 milhões de dólares que foram usados para restaurar 224 casas e construir outras mil na província de Phang Nga.
Por compaixão, Bill Gates, que já havia doado US$ 50 milhões para o combate ao ebola, doou também US$ 500 milhões paracombate a epidemias e a doenças como a malária (2014). Não apenas isso, mas ele e sua esposa Melinda estão influenciandooutros bilionários a doarem metade de sua fortuna para obras de caridade, claro que de modo muito inteligente e bem coordenado. Não se trata de colocar dinheiro na mão de bandido, como acontece em alguns círculos religiosos. Eles já conseguiram convencer alguns poderosos, como: Paul Allen (co-fundador da Microsoft), John Doerr (conhecido investidor que ajudou a capitalizar Apple e Google), Larry Ellison (fundador da Oracle) e George Lucas (um cara que fez uns filmes há muito tempo atrás, numa galáxia distante).
Por compaixão, em setembro de 2011, a cantora Cindy Laupercriou um residencial com 30 vagas para jovens desabrigados (leia-se ‘expulsos de casa’) que são lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros. O True ColorsCenter está situado em Manhattan e foi chamado assim por causa de uma de suas canções mais famosas, composta para homenagear um amigo seu que era gay e faleceu há alguns anos. Esse é o primeiro residencial desse tipo na cidade, sem fins lucrativos, focado em prover habitação para jovens LGBT. Lá, eles recebem treinamento para o mercado de trabalho e são empregados em diversas empresas parceiras. Vídeo aqui.
Citei o caso de um cantor gay, uma cantora heterossexual que é totalmente pró-inclusão LGBT, e um megaempresário ateu que já doou mais do que muitos milionários juntos. Muita gente nem imagina o que pessoas LGBT e pessoas ateias, ou desprovidas de qualquer religiosidade, têm feito de bom por aí. Alguns sacrificando a própria vida.
Mark Bingham era um homem gay que estava no voo 93 da United Arilines em 11 de setembro de 2001. O avião estava nas mãos de sequestradores. Ele estava voltando para casa em São Francisco para ser acompanhante no casamento de um amigo. Os sequestradores tomaram o avião, e Bingham, assim como outros passageiros, foi levado para a parte de trás do avião. Ele ligou para sua mãe e deixou uma mensagem dizendo a ela o que estava acontecendo. Outros passageiros também ligaram para casa e souberam do ataque às Torres Gêmeas. Bingham e os outros passageiros decidiram correr para o cockpit e tomar o avião de volta.
Eles lutaram com os sequestradores, que perderam o controle do avião, espatifando-se num campo vazio, em vez de atingir a populosa Washington, DC. Preferiram morrer a permitir que milhares de outras pessoas fossem atingidas pelos terroristas.
Outro caso impressionante aconteceu em Sydney, um homem mentalmente perturbado, agarrando-se ao extremismo religioso como desculpa, fez reféns aos clientes de um café. Durante quatro horas, ele ameaçou-os e usou-os como escudos. As negociações com a polícia estavam aparentemente conduzindo a lugar nenhum e o cerco estava além do humanamente suportável.
Esse homem sozinho tinha mais de uma dúzia de pessoas sob seu domínio, mas estava ficando sonolento. Ele começou a cochilar, mesmo tentando lutar contra o sono.
Os reféns estavam cansados, mas ter uma arma apontada para si é algo que mantém você alerta. À medida que o terrorista cochilava, os reféns corriam para a porta e para a segurança – mas não todos eles.
Um homem se atracou com o terrorista. O nome dele era Tori Johnson. Ele tinha 34 anos e gerenciava o Lindt Chocolate Caféhavia dois anos. Funcionários e clientes todos diziam que ele era um homem bom, um homem gentil. Entre tantas características pessoais, estava a de ser um homem gay.
Johnson tentou tirar a arma para proteger os outros reféns enquanto eles fugiam, mas foi alvejado na tentativa. Seu ataque distraiu o terrorista. Os outros escaparam e o som do tiro fez a polícia entrar e matar o homem armado. Um outro refém também morreu na cena, mas de um ataque cardíaco a caminho do hospital depois de ser atingido.
Tori Johnson não voltou para casa naquele dia, ele morreu no hospital. Ele nunca pôde dizer novamente a seu parceiro por 14 anos, Thomas Zinn, que ele o amava, mas as pessoas que foram salvas enquanto ele tentava dominar o sequestrador puderam seguir com suas vidas, apesar do trauma.
Apesar da gravidade dos dois últimos casos citados aqui, a compaixão nem sempre custa tanto. Ela pode ser mais do que um ato ou outro isolado, ela pode ser uma atitude constante para com todo aquele que sofre.
O humanista Patch Adams, por exemplo, é um médico que apostava no riso como estimulante para a saúde dos pacientes em convalescença. Sua história foi encenada por Robin Williams em filme que levou o nome do médico. Seu nome completo é Hunter Doherty Patch Adams. Seu trabalho é fruto da mais pura compaixão.
E não é à toa que muitos ateus se compadecem e fazem o bem. Na verdade, ateus podem ser tão generosos quanto religiosos – talvez até mais – segundo os resultados de uma pesquisa publicados pela revista Veja em 01/05/12. Vejam o que é dito na abertura do referido artigo:
“Crentes podem não ser tão ‘bons samaritanos’ quanto ateus e agnósticos. É o que sugere um estudo desenvolvido na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos. Publicado no periódico Social Psychological and Personality Science, o artigo afirma que pessoas menos religiosas tendem a ser mais sensíveis às necessidades de um estranho.”
E por que será que o ateísmo e o humanismo (bom seria que andassem sempre juntos) assustam tanto os fundamentalistas, como demonstrou Silas Malafaia durante sua fala furiosa no programa Na Moral na semana dos 50 anos da Rede Globo? Ele contrapôs o que ele mesmo decidiu chamar de “civilização baseada na moral judaico-cristã” a uma suposta invasão cultural ateísta e humanista que a coloca em risco. Como assim? Um cristão se ressentindo contra humanistas? Contra ateus, eu até entendo, afinal colocam em risco seu negócio disfarçado de fé, mas contra humanistas? O que assusta tanto o Malafaia no humanismo?
Sugiro três aspectos do humanismo para essa fobia do referido pastor:
  1. Humanistas secularistas demonstram compaixão a todos os que sofrem, independentemente de quaisquer características que sejam inerentes ou atribuídas: homem, mulher, adulto, criança, gay, heterossexual, bissexual, transgênero, rico, pobre, etc. Essa compaixão/simpatia ameaça uma das maiores estratégias desses pregadores: a manipulação das massas em nome de uma moralidade “revelada” pela qual supostamente se deve matar e/ou morrer;
  2. Humanistas secularistas não esperam recompensas e nem temem castigos pós-morte. Por isso, consideram irrelevante qualquer tentativa de salva-los eternamente, guia-los em supostos caminhos revelados, ou condena-los a suplícios e tormentos temporários ou eternos.
  3. Humanistas secularistas não têm medo do fim do mundo como castigo divino. Eles sabem que se a vida, como existe hoje, chegar ao fim, isso será por alguma causa natural ou por alguma ação humana (guerras, poluição, etc.), e que muitas dessas coisas podem ser evitadas pelo bom uso da ciência e da tecnologia, aliadas a essa ética consequencialista, que caracteriza o humanismo, por ser movida pela razão e pela compaixão ao mesmo tempo.
Muitos outros motivos poderiam ser oferecidos à reflexão aqui, mas esses três bastam por enquanto.
Não apenas os fundamentalistas religiosos, mas totalitaristas, de um modo geral, odeiam as pessoas compassivas, porque estas obstruem seu caminho ao valorizarem mais a vida e o bem-estar dos seres humanos e de outros seres vivos do que quaisquer projetos egoístas de poder. E é essa compaixão que faz este humanista aqui se solidarizar com uma velhinha espancada, com um carcereiro ferido, mas, sobretudo, a repudiar veementemente a tortura sofrida por Verônica Bolina, sob a custódia da polícia de São Paulo, portanto, do Estado brasileiro.
Nossa Constituição, que apresenta um considerável grau de humanismo, é clara ao proibir a tortura, seja qual for a razão que se apresente para justifica-la.
Em 1997, o presidente Fernando Henrique Cardoso assinou uma das leis mais incisivas contra o crime de tortura. Grifei as partes que considero ainda mais relevantes para o caso supracitado:
LEI Nº 9.455, DE 7 DE ABRIL DE 1997.
Define os crimes de tortura e dá outras providências.
O PRESIDENTE DA REPÚBLICA
Faço saber que o Congresso Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1º Constitui crime de tortura:
I – constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico ou mental:
  1. a) com o fim de obter informação, declaração ou confissão da vítima ou de terceira pessoa;
  2. b) para provocar ação ou omissão de natureza criminosa;
  3. c) em razão de discriminação racial ou religiosa;
II – submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave ameaça, a intenso sofrimento físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo.
Pena – reclusão, de dois a oito anos.
  • 1º Na mesma pena incorre quem submete pessoa presa ou sujeita a medida de segurança a sofrimento físico ou mental, por intermédio da prática de ato não previsto em lei ou não resultante de medida legal.
  • 2º Aquele que se omite em face dessas condutas, quando tinha o dever de evitá-las ou apurá-las, incorre na pena de detenção de um a quatro anos.
  • 3º Se resulta lesão corporal de natureza grave ou gravíssima, a pena é de reclusão de quatro a dez anos; se resulta morte, a reclusão é de oito a dezesseis anos.
  • 4º Aumenta-se a pena de um sexto até um terço:
I – se o crime é cometido por agente público;
II – se o crime é cometido contra criança, gestante, deficiente e adolescente;
II – se o crime é cometido contra criança, gestante, portador de deficiência, adolescente ou maior de 60 (sessenta) anos; (Redação dada pela Lei nº 10.741, de 2003)
III – se o crime é cometido mediante sequestro.
  • 5º A condenação acarretará a perda do cargo, função ou emprego público e a interdição para seu exercício pelo dobro do prazo da pena aplicada.
  • 6º O crime de tortura é inafiançável e insuscetível de graça ou anistia.
  • 7º O condenado por crime previsto nesta Lei, salvo a hipótese do § 2º, iniciará o cumprimento da pena em regime fechado.
Art. 2º O disposto nesta Lei aplica-se ainda quando o crime não tenha sido cometido em território nacional, sendo a vítima brasileira ou encontrando-se o agente em local sob jurisdição brasileira.
Art. 3º Esta Lei entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 4º Revoga-se o art. 233 da Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990 – Estatuto da Criança e do Adolescente.
Brasília, 7 de abril de 1997; 176º da Independência e 109º da República.
FERNANDO HENRIQUE CARDOSO
Nelson A. Jobim
Este texto não substitui o publicado no D.O.U. de 8.4.1997
E volto ao que disse antes: compartilhar o sentimento do outro não é aprovar o que o outro fez, sejam boas ou más ações, mas recusar-se a ser indiferente diante da dor de um ser vivo, qualquer que seja ele.
A compaixão é, por isso, universal, e tanto mais moral por não se preocupar com a moralidade de seus objetos. E essa compaixão conduz à misericórdia.
A turma do mata-esfola, muito mais parecida com o Levítico do que costuma admitir, está muito distante disso, mas pode buscar amadurecimento, crescimento para superar o pensamento viciado do olho-por-olho e dente-por-dente. Conhecer e refletir cuidadosamente sobre o que significa ser um humanista secular pode ser extremamente útil. Por que não começar agora mesmo?


Esse é o verdadeiro Patch Adams.

Republicado em 25 de outubro de 2016 antes de figurar aqui.

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