Coisas que eu ouço…



Coisas que eu ouço…




Por Sergio Viula
Publicado originalmente no AASA


Viver em sociedade é sempre um desafio. Você ouve de tudo. Claro que os outros podem dizer a mesma coisa a seu respeito. Mas nem tudo o que a gente ouve é ruim. Tem muita coisa divertida, interessante, inteligente. Por isso, esse domingo quero colocar algumas delas aqui na coluna.
PRIMEIRA PERGUNTA
Um amigo por causa do meu atual namoro: Sergio, você só gosta de namorar gente mais nova?
Eu: Não, eu gosto de namorar gente, desde que seja do sexo masculino. Já fui casado com mulher e antes dela tive uma outra namorada, mas gosto de homem. Já namorei caras mais velhos, um dos mais novos tinha sete anos a mais que eu e o mais velho tinha quase 20 anos a mais. E estou falando da minha fase adulta. Hoje, meu namorado é bem mais jovem que eu, mas poderia ser da mesma idade ou mais velho, como outros que eu já tive. Por que não? De 18 a 80, tudo é possível! ^^ Não é uma questão de idade, mas de química, cabeça, honestidade, etc. E quando vai além de uma boa transa e vira amor de fato, não tem explicação: a pessoa torna-se indispensável. É o que estou sentindo agora em reciprocidade.
SEGUNDA PERGUNTA
Uma aluna. Ela olha meio surpresa para a minha mão, depois de um tempão já convivendo comigo, e pergunta: Professor, você não era casado?
Eu, rindo: Sim, era. Mas me divorciei já te tempo (quase dois anos já, minha gente!). Não fica triste, o feriado de carnaval me proporcionou um lindo encontro com o amor e parece que vai longe (a turma toda riu, inclusive ela).
TERCEIRA PERGUNTA
(na verdade, essa não foi uma pergunta, mas uma interação entre duas pessoas)
Uma mulher vinha conversando com um marinheiro, voltando de BH para o Rio, e começou a criticar jovens gays e lésbicas. O papo nem era esse de começo. Era só sobre a pegação do marinheiro durante o carnaval. A mulher  mesmo parecia doidinha para esfregar a proa dela no mastro dele. Mas o que interessa é o que respondeu o marinheiro: Eu já fui do tipo que não podia ver casalzinho gay que queria dar porrada e tudo. Amadureci com a vida. Hoje, eu penso que cada um pode fazer de si mesmo o que quiser. Isso é da conta de cada um e não dos outros. Além disso, se o meu vizinho não gosta de mulher, melhor para mim.
Eu, em pensamento: Chupa, mocreia homofóbica! Que bom que tem gente que ainda consegue mudar para melhor!!! Detalhe, tinha um casal de rapazes num banco mais adiante dormindo abraçadinhos. Lindos!
QUARTA PERGUNTA
Um amigo via Facebook: Sergio, você poderia me dizer como abordar a questão do livre arbítrio?
Eu: A pergunta é boa. Primeiro, eu diria que não acreditar em livre arbítrio não significa acreditar que nossos atos estão todos determinados a serem uma só coisa, isto é, sem a possibilidade de fazermos escolhas. Claro que as fazemos, mas dentro de um escopo de possibilidades. Para dizermos que nossos arbítrio é totalmente livre precisaríamos ser onipotentes. Por isso, se alguém pode ser perfeitamente responsabilizado pelo mal que há no mundo, esse é o deus dos teístas. Ele, sim, detentor de todo o poder e de todo saber, poderia ter feito tudo de outra maneira, quer dizer, de modo que o mal nunca se formasse ou que nunca se manifestasse (claro que estou falando sobre o que pensam os teístas, porque para mim isso não passa de imaginação). Se não o fez, ele não é livre de verdade. E se desejava que tudo fosse assim realmente, ele não é bom. Quanto a nós, temos contingências que não nos permitem fazer tudo e qualquer coisa, mas dentro do escopo de nossas possibilidades, podemos fazer coisas diferentes. Por exemplo, não podemos escolher não escolher, porque isso também já é uma escolha. Mas podemos fazer escolhas diferentes dentro de um número de possibilidades. A título de exemplificação, posso dizer que se ouço um insulto, posso devolvê-lo, posso bater no ofensor, posso matar o ofensor, posso ignorar e seguir adiante, posso processar o ofensor, ou posso até abençoar o ofensor (Jesus disse para fazermos essa última… Kkkk). Todas essas são possibilidades dentre as quais eu posso escolher. Por isso, posso ser considerado responsável pelo que fizer em função da ofensa e do ofensor em questão. Claro que fatores como temperamento, educação, força, o contexto  vão influenciar minha decisão sobre que ação tomar, mas não vão determiná-la irremediavelmente numa direção. Pessoas pacatas matam e pessoas coléricas perdoam. Brigas quando os dois estão a sós podem não terminar em violência física, enquanto brigas à luz dia e no meio de uma multidão podem virar caso de polícia. Fazemos escolhas, mas nunca livres de contingências intrínsecas e extrínsecas a nós mesmos. Isso sem contar os casos que envolvem doença mental, entorpecimento por drogas, etc. A própria justiça considera atenuantes em certas circunstâncias, porque determinados fatores podem alterar o juízo do acusado, interferindo no seu arbítrio, que se fosse realmente livre não seria passível de coerção por fator algum.
QUINTA PERGUNTA
(em função de uma matéria que saiu o The Guardian)
Um amigo: Sergio, você ganha dinheiro com essas entrevistas para a mídia?
Eu: Não. Geralmente, entrevistadores não pagam cachê a seus entrevistados. A motivação para falar  o que falo e, de certa forma, me expor como eu faço é uma só: promover avanços no pensamento dos que forem alcançados por aqueles conteúdos, especialmente no que diz respeito à diversidade sexual e procurar construir um sociedade mais inclusiva, porque plural ela já é, só que ainda está longe de ser igualitária. Já foi pior, mas ainda falta muito, especialmente no que diz respeito às pessoas transexuais.
A matéria do The Guardian pode ser encontrada aqui, inclusive com um link para  resumo em português: http://www.foradoarmario.net/2016/02/the-guardian-faz-materia-sobre-cura-gay.html
Fim das perguntas por hoje, mas quem quiser pode enviar perguntas para futuras postagens por inbox:https://www.facebook.com/sergio.viula. É possível que numa outra postagem eu traga outras.
Desejo um ótimo final de domingo para todos e todas!


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A face mutante do Diabo e sua utilidade para a igreja

De onde vem essa história de que a carne é fraca?

Os fantasmas da (i)moralidade religiosa querendo assombrar o ensino de biologia