Batismo de Sangue e o batismo de Bolsonaro


Por Sergio Viula



 
Bolsonaro é batizado em 12/05/16 pelo Pastor Everaldo, líder do PSC, em Israel




Muita coisa me espanta na humanidade, mas algumas me espantam de modo muito peculiar. Uma delas é quando alguns ateus ingênuos, ignorantes ou mal-intencionados dizem-fazem coisas típicas de crentes fanáticos. Claro que não cabe a mim, a priori, dizer quem se encaixa nessa ou naquela categoria, mas não consigo deixar de me espantar e até de rir daqueles ateus que repetem o catecismo católico ou protestante sem dar crédito aos seus autores, apenas eliminando palavras como deus, Jesus, Bíblia, etc., só que mantendo todo arcabouço construído por judeus, cristãos e muçulmanos, especialmente naquilo que diz respeito aos moralismos que embaçam a razão, endurecem o ‘coração’ e tornam quase tudo ao redor deles tão bolorento quanto as masmorras da Inquisição (e suas crias) ou tão virulento quanto os círculos sectários dos protestantismos fundamentalistas e de seus filhotes – os chamados ‘evangélicos’ e ‘pentecostais’, bem como outras seitas que se valeram tanto dos ventos separatistas da Reforma Protestante como de movimentos subsequentes, para criarem seus próprios pequenos impérios, nos quais mentes suscetíveis à manipulação por meio da culpa e do medo acabam subjugadas, ao ponto de obedecerem incondicionalmente ao comando de qualquer idiota, desde que ele utilize o jargão oficial.

Refiro-me principalmente a esses ateus que veem no crente Bolsonaro algum tipo de virtude que lhes sirva.

Felizmente, esse tipo de ideia estapafúrdia está longe de ser unanimidade entre ateus. O que vemos é uma minoria apaixonadamente fanática e assemelhada àqueles pentecostais que falam deslumbradamente sobre como são ungidos os seus pastores e compartilham tudo o que dizem sem o menor escrutínio racional.

Só que agora, o diabo não mostra apenas o rabo, ele dá a cara toda à tapa. Bolsonaro assume que não é apenas um aliado casual desses crentes, mas um irmão de fé, isto é, um fiel da mesma categoria.

Sim, porque na semana passada, Jair Bolsonaro foi batizado em Israel, mais precisamente no rio Jordão, pelo ex-candidato à presidência, muito longe de arranhar qualquer possibilidade real de vitória em 2015, e líder do PSC (Partido Social Cristão), pastor Everaldo – o mesmo que Luciana Genro se recusou a chamar de pastor durante os debates, porque aquilo ali não era igreja e ele não estava se candidatando a um cargo eclesiástico. Ri muito quando ela disse que não o chamaria de pastor durante o debate. Ri de quase rolar no chão.

Como sou um sacana de nascença, não resisti ao impulso de fazer troça com a foto do Bolsonaro sendo imerso nas águas do Jordão, e publiquei a seguinte legenda: “O TOC depois do cuspe.” Claro que eu fazia menção ao episódio na Câmara dos Deputados, quando o Deputado Jean Wyllys, num ato provavelmente impensado, mas com forte conteúdo simbólico, deu a Bolsonaro o que muitos gostariam de lhe ter dado há muito tempo: uma boa cusparada. Certo ou errado, deixo o veredito a cargo do tribunal facebookiano, que já andou se pronunciando sobre isso até em demasia.

Aliás, os ateus ignorantes, ingênuos ou mal-intencionados – como os classifiquei no início desse texto – que apoiam Bolsonaro, com ou sem ressalvas, geralmente caem na conversa caluniosa dos mesmos fundamentalistas e fascistas que vivem difamando Jean Wyllys e espalhando distorções para desacreditá-lo na internet. Felizmente, esses difamadores não enganam a todos, mas os que desejam tanto que tais falsidades sejam verdades caem prontamente na conversa desses amantes e praticantes da mentira, os quais, fosse verdadeiro o Apocalipse, receberiam de deus mesmo sua parte no lago de fogo e enxofre (Ap 22:15), mas isso também não passa de outra mentira.

Bem, depois de se alinharem com os fundamentalistas e outros conservadores do mesmo naipe em tudo isso, esses ateus ainda carregando os filhotes de velhas crendices vêm cinicamente fazer a conversa mole do Estado laico. Digo conversa mole, porque se fossem laicistas mesmo, veriam que entre Bolsonaro e Wyllys ou mesmo entre Wyllys e as bancadas evangélica e católica que o difamam, o verdadeiro defensor do Estado laico é Wyllys, não Bolsonaro – este último sempre acompanhado de seus comparsas fundamentalistas. Aliás, os mesmos que adorariam implantar uma teocracia no Brasil, tendo como vedetes do poder Feliciano, Magno Malta, Malafaia, e outros dos quais a maioria nunca ouviu falar.

E falando sobre Estado laico, vale a pena ler o texto de Wyllys sobre isso, intitulado “Carta do Deputado Jean Wyllys – uma ode ao estado Laico“, porque até isso esses fundamentalistas já tentaram embaralhar. Eles sabem que Jean nutre devoção pelos orixás e, devido ao seu ódio às religiões afro, esses pastorecos já alegaram que ele não defende o Estado laico, como se pudéssemos dar crédito ao que dizem pastores quando se referem às religiões afro, aos homossexuais e ao Estado laico, por exemplo. Esses caras são tão burros e mal-intencionados que não conseguem ver que um crente pode ser laicista, assim como um ateu pode colaborar com teocratas sem nem o perceber.

Aliás, esperam que os ateus colaborem mesmo com seu projeto teocrático de poder, pois o próprio Bolsonaro já citou os ateus, como se todos concordassem com ele quando falou sobre direitos LGBT, tentando atraí-los para suas causas fascistas.

Jean, porém, que não é ateu, respeita-nos profundamente como ateus acaba incomodando muito mais a essa corja fundamentalista do que muitos dos auto-declarados ateus que andam entre nós pelas redes sociais, mas que comem no mesmo coxo de preconceitos e outras formas de ignorância nos quais fundamentalistas religiosos e outros conservadores se refastelam.





Fato é que Bolsonaro, o ícone desses poucos ateus anômalos, porque criticam os ataques teocratas à laicidade do Estado, mas abraçam o crente Bolsonaro com todo seu ódio às liberdades civis, tem muita semelhança com outro ‘guru do absurdo’, ao qual alguns ateus também ouvem de bom grado. Trata-se de um tal de Olavo (Música, maestro Zezinho: Olavo à toa na vida / o meu amor me chamou / pra ver a banda passar / cantando coisas de horror – kkkkk).

A casa dos absurdos está sempre lotada de hóspedes e sempre tem lugar para mais gente, não é mesmo?

De qualquer modo, não consigo evitar a ideia de que Bolsonaro utiliza toda mídia possível, inclusive a negativa para ele mesmo, a fim de continuar no centro das atenções. Afinal, que outro motivo ele teria para ser falado, senão o escândalo? Quando foi que Bolsonaro fez alguma coisa construtiva pela nação? De fato, nunca! NENHUM projeto de lei aprovado na Câmara, apesar de duas décadas de gordas somas saídas dos cofres públicos para pagar o salário do Parlamentar mais falastrão e desnecessário do Congresso Nacional. Mesmo assim, ele conseguiu a façanha de eleger dois filhos que fazem o mesmo que ele: espalham o bolor de sua ignorância através dos cargos que ocupam e criam todo tipo de obstáculo aos avanços que possam dar ao Brasil uma cara menos subdesenvolvida, atrasada, especialmente do ponto de vista dos direitos civis, das políticas de inclusão e do combate ao preconceito, especialmente sexual, de gênero, racial e de classe.

Não se pode esquecer que na sessão que votou o impeachment da presidente Dilma na Câmara, Bolsonaro homenageou um sanguinário chamado Brilhante Ustra, um militar da época da ditadura que deveria fazer qualquer parlamentar que se preza se colocar prontamente na vanguarda da defesa dos direitos civis em seu mais amplo sentido. Mas não a esse parlamentar cristão chamado Bolsonaro. Ele fez e continua fazendo exatamente o contrário. E quando as coisas começaram a ficar realmente muito ruins para ele, depois daquele ataque imperdoável à qualquer noção de decoro parlamentar, o que foi que ele fez? O que muitos bandidos – os mesmos que Jair Bolsonaro gosta de dizer que bom seria que estivessem mortos – costumam fazer: Ele se batizou.

Será que ele pensa que isso apaga aquela desgraça que ele fez/disse na Câmara dias antes?

Curiosamente, o nome de um filme que fala sobre o período da ditadura no Brasil, retratando alguns de seus horrores, é justamente “Batismo de Sangue”. Vejam a coincidência do nome…

Pois bem, Bolsonaro defendeu um homem que viabilizou de muitas maneiras esse batismo de sangue no país, e depois teve a ousadia de se submeter “piedosamente” ao batismo de água, ignorando (ou não) que nenhuma água lavará das mãos dos ditadores o sangue que eles derramaram durante a regime militar e nem a imundície de um coração que se manifesta asquerosamente cada vez que abre a boca para atacar as bases do Direito e da Democracia, seja na Câmara ou na mídia.

Ah, e tem mais uma coisa: Aquela cusparada purpurinada que ele tomou do deputado que ele chamava de boiola e de outros nomes igualmente depreciativos vai continuar brilhando e queimando a cara torta dele por muito tempo. E não vai ter água batismal que apague isso.


“Batismo de Sangue” (2007, 110 min, 14 anos) de Helvécio Ratton



♥♥♥ Não poderia encerrar esse post sem dizer que felicito-me por aqueles ateus que outrora foram enredados pelo discurso fascista de Bolsonaro, Olavo e outros, mas que estão finalmente acordando e deixando esses “filhos de deus” no mesmo lugar em que deixaram os que são semelhantes a eles: nas profundezas de seu próprio inferno existencial, porque disso não tenho a menor dúvida: GENTE FELIZ NÃO ENCHE O SACO. ♥♥♥




Originalmente publicado em 15 de maio de 2016.

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