Avião da Chapecoense cai. Luto.



Avião da Chapecoense cai. Luto.


Por Sergio Viula


Avião quadrimotor de produção inglesa que levava a Chapecoense era usado pela Lamia, empresa boliviana, e tinha 17 anos.

A Chapecoense é um time de Santa Catariana que tem esse nome porque sua sede fica na cidade de Chapecó.



A investigação sobre o que teria causado a queda do avião ainda está em andamento, mas não consigo deixar de ficar perplexo diante de algumas coisas:
1. A vida é feita de probabilidades. Se aviões podem cair, alguns aviões cairão, sem que haja qualquer plano divino para isso. Na verdade, seria admirável se jamais um só avião tivesse caído ou viesse a cair até o fim da história da aviação. Isso, sim, seria notável justamente por ser altamente improvável, mas não impossível. O que quero dizer com isso é que o fato do avião da Chapecoense ter caído não cumpre qualquer propósito como gostam de dizer padres, pastores, médiuns, etc.
2. A sobrevivência de alguns é fruto de probabilidades também. Geralmente, depende de vários fatores relacionados à posição do passageiro dentro da aeronave, a distância dele em relação ao ponto de impacto e diversos outros aspectos, nada tendo a ver com livramento divino. Nem a morte no acidente nem a sobrevivência à queda do avião têm qualquer coisa a ver com uma ação divina. Deus não entra nessa economia, seja para matar dezenas de passageiros, seja para salvar meia-dúzia deles. Morremos como qualquer outro ser vivo morre no planeta, mas podemos morrer de modos mais variados que a maioria das espécies, porque inventamos de tudo e praticamente tudo envolve algum risco de morte. São inúmeras novas formas de morrer misturadas a inúmeras novas formas de viver. A queda de um avião é uma delas.
3. Entendo que as pessoas recorram a deus (ou deuses) para obter consolo, mas ainda que isso seja comovente, é logicamente um absurdo. Se deus não protegeu o voo, como confiar nele para qualquer outra coisa? Se ele podia salvar alguns, por que não todos. Se nem uma folha cai de uma árvore sem o consentimento dele (palavras atribuídas a Jesus), então como ele pode se safar dessa? Se ele é responsável por isso, seja por omissão ou por ação direta, que miserável ele é, moralmente falando. Quem faria ou permitiria tal coisa se não fosse um psicopata insensível? Na verdade, o resgate e os cuidados médicos serão os únicos salvadores dos poucos que tiverem sobrevivido à queda.
Mas esse post não se destina apenas a comentar a revolta que sinto sempre que vejo esse tipo de fala “escapei, graças a deus” (e os outros morreram graças a quem?), ou “deus é bom e vai consolar a família” (se deus fosse bom, ele não permitiria isso), ou “fulano agora está no céu e melhor do que nós” (mesmo que o céu existisse, ninguém poderia estar certo do destino de ninguém, mas o fato é que se os mortos estão melhores do que nós é somente porque pararam de sofrer, mas quem de nós gostaria de estar no lugar deles agora?).
Todas essas e outras frases mais do que batidas sempre que uma tragédia acontece depõem mais contra deus e contra a religião do que a favor deles.

E o luto?

O luto é necessário. Os parentes e amigos têm que fazê-lo. Precisam chorar, sentir a falta, a revolta pela perda, mas precisam seguir em frente. Eu já fiz alguns lutos depois de renunciar às crenças por entender que elas não passavam de produção cultural e – por isso mesmo – nada tinham de sobrenatural.
Meu mais doloroso luto foi por minha avó paterna. E mesmo nesse momento, não me veio à mente o mais leve traço de crença ou à minha boca uma só palavra de oração. Tudo o que eu pensava era que ela tinha sido uma grande mulher, uma amiga espetacular, que morreu de câncer simplesmente porque seres humanos podem morrer de câncer (não há qualquer propósito ou razão sobrenatural para se ter câncer). Ela fez e continua fazendo uma falta para a qual não havia qualquer substituição ou compensação.
Meu luto demorou, mas foi feito. E o que resta hoje? Boas memórias dessa guerreira e inspiração por seu amor e dedicação a mim e outros parentes.



Meus sentimentos para com os que perderam seus amados

Então, no dia de hoje, manifesto meus sentimentos de tristeza pela perda de todas essas vidas e também me alegro pelos que sobreviveram. Não, eu não atribuo coisa alguma nisso tudo a qualquer entidade sobrenatural. É dos seres humanos o crédito pela criação dessas entidades supostamente sobrenaturais (deus, anjos, espíritos, carma, reencarnação, ressurreição, paraíso, etc). É também dos seres humanos o crédito por toda a articulação que  fazem entre essas crenças e o que acontece em suas vidas.
As famílias e amigos nunca esquecerão, mas quase certamente conseguirão seguir em frente. Assim como eu nunca esquecerei minha avó, eles nunca esquecerão seus amados, mas tenho feito o que ela mesma fez até seu último dia: vivo tudo o que desejo viver na medida das minhas possibilidades e o farei até o dia em que um dos milhões de possíveis “interruptores” da vida me atinja e meus átomos sejam liberados para configurarem outros seres vivos ou não-vivos, sempre de acordo com as dinâmicas intrínsecas à própria natureza. Foi assim que eu vim a ser e que outros estão vindo a ser nesse momento e virão a ser depois de mim, a partir dos elementos que me compõe e que se decomporão quando as funções vitais forem interrompidas.

O que podemos fazer daqui para frente?

Viver cada dia o mais sossegada e felizmente possível, fazendo o que estiver a nosso alcance para realizar o que desejamos sem injustiçar ninguém.
Tem alternativa melhor?

Obrigado, Chapecoense.

Vocês inspiraram e ainda vão inspirar muitos, Chapecoense. Obrigado pelas alegrias vividas e proporcionadas. Uma das cenas de alegria mais intensa do time:  https://m.facebook.com/story.php?story_fbid=1050689458374266&id=350981738345045


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