ATEU: Cansado, sim. Vencido, nunca.


Por Sergio Viula

Originalmente publicado no AASA



Ser ateu num país como o Brasil não é fácil, mas existem lugares bem piores. Em alguns locais, o simples ato de alguém assumir publicamente que não tem crença é suficiente para desencadear um linchamento à luz do dia sem qualquer obstrução por parte das autoridades locais. Em alguns casos, as próprias autoridades o incitam. Contudo, existem algumas coisas muito chatas que ateus podem enfrentar numa certa terra que tem palmeiras onde canta o sabiá.
Um dos momentos mais complicados pelos quais passa um descrente é o de “sair do armário ateu” para sua própria família. Assumir-se incrédulo para quem lhe ensinou algum credo ou rito desde cedo não costuma ser uma jornada tranquila. As pessoas podem ir das lágrimas ao ataque de fúria, seguidos de chantagem e outras violências.
Outra coisa chata é que quase todos os ritos de passagem em nossa sociedade incluem algum grau de religiosidade. Não basta dar nome ao curumim, é preciso batizá-lo, como no caso dos católicos, ou apresentá-lo ao “Senhor”, como fazem  os evangélicos, ou circuncidá-lo como fazem os judeus, e por aí vai. Depois disso, existem outros ritos. Alguns designados para marcar o começo da adolescência (crisma, bar mitzvah, etc), celebrar o casamento, a bênção sobre a casa nova e outros objetos valiosos. Do nascimento à morte, sempre tem ritual. Não basta enterrar o defunto, é preciso rezar, cantar ou batucar, dependendo da religião da família. Afinal, nada mais badalado que um funeral, especialmente quando o indivíduo é famoso em sua comunidade, seja lá qual for a sua classe social.
Mas enquanto vivo for, o ateu sofrerá pressões para se explicar cada vez que diz não crer em deus ou em seres sobrenaturais. Até mesmo no leito de morte, o ateu será importunado.Tudo para garantir que ele se arrependa, mesmo que seja somente no último momento. Se o infeliz do moribundo, incapaz de falar ou gesticular, fizer o menor movimento com a pálpebra, um desses reflexos meramente mecânicos sem qualquer significado especial, haverá certamente um ou mais crentes aos brados no domingo seguinte, dizendo que o ateu se converteu antes de dar o último suspiro. Sério que vocês acreditam nisso mesmo?
Aliás, não só se enganam aí, como também não percebem que os momentos que antecedem a morte são provavelmente aqueles nos quais a maioria dos seres humanos (não todos, felizmente) mais jura acreditar em alguma coisa sobrenatural sem estar convicta de coisa alguma.
Não bastasse todo esse palavrório sobre deuses, anjos, espíritos, e congêneres para alimentar o mais profundo tédio de um ateu, já cansado de tanta bobagem, ainda é preciso encarar o fato de que a maioria das pessoas se sente especial demais para apenas nascer, envelhecer e morrer (reproduzir-se é absolutamente desnecessário diante da atual superpopulação mundial), devendo haver algo preparado especialmente para elas depois da morte. Isso é pior que porre de vinho barato: absolutamente insuportável.
Poderia até ser divertido se não fosse trágico. Afinal, como alguém tão importante poderia simplesmente deixar de existir, não é mesmo? Alguém que nunca fez a menor falta no universo em eras incompreensivelmente longas, de repente, torna-se indispensável depois de umas poucas décadas de vida – isso, se viver tanto.
E não basta uma única existência para pentelhar o mundo, é preciso sobreviver à própria morte e voltar (reencarnação), ou miraculosamente levantar-se do túmulo no mesmo corpo, estando livre de qualquer imperfeição (ressurreição).
Pelo menos, no budismo, o cabra não volta para sempre, porque em algum momento, depois de muitas reencarnações, o infeliz será absorvido pelo Nirvana – o nada. Também no hinduísmo, ele deixa de reencarnar quando se torna um com o Brahma – nada a ver com a cerveja que tu bebe depois do expediente, ateu pinguço… kkkk.
É muita pretensão que um indivíduo acredite que o universo não funcionará adequadamente sem que algo dele sobreviva ao “paletó de madeira”  em algum tipo de existência pós-mundana.
É deprimente ver tanta gente que não vive tudo o que há para viver porque acha que precisa sacrificar prazeres que não causam dano algum ao semelhante para conquistarem recompensas pós-mundanas. E isso vai do simples fato de não ter uma religião ao inofensivo e solitário prazer de se masturbar durante um reconfortante banho no final do dia. Porém, existem consequências bem mais graves dessa crenças, tais como: os casos dos homens-bomba, que levam a jihad às últimas consequências.
Mas é de importância fundamental que atentados fundamentalistas estão sendo feitos aqui mesmo no Brasil, como provavelmente aconteceu com o terreiro Axé Oyá Bagan, que foi incendiado.
Houve denúncia de intolerância religiosa e o Ministério Público está acompanhando o caso. Segundo o jornal O Globo, em setembro, dois outros terreiros foram incendiados no entorno. Todos três Brasília.
Com o crescimento do extremismo, especialmente o chamado fundamentalismo evangélico, as religiões minoritárias correm cada vez mais risco, assim como vários outros segmentos sociais contra os quais essa turba ignorante grita em seus microfones e programas de rádio, TV e internet.
O que me consola é que o número de ateus vem crescendo entre os jovens. Mas, veja como os crentes se ressentem disso:
Eu comemorava o crescimento do ateísmo entre jovens brasileiros na minha timeline lá no Facebook, quando um conhecido meu, que é crente, veio me perguntar o seguinte:
Conhecido crente: Mas… deixa ver se eu consigo entender tanto júbilo. O fato de haver mais jovens que se dizem ateus do que aqueles que se identificam como evangélicos, conforme a reportagem, deve ser comemorado? Por quê? Qual é a vantagem disso na vida daqueles que comemoram o fato? E no quê isso melhora a sociedade, as chamadas minorias e a situação do país? Alguém pode me explicar como se eu tivesse cinco anos, como dizia o advogado vivido por Denzel Washington no magnífico filme “Filadélfia”?

Sergio ViulaA vantagem é ter menos risco de ser manipulado a partir de neuroses relacionadas a amigos ou inimigos imaginários, ter pensamentos e corpos manipulados, desprezar os que não leem na sua cartilha dogmática, gastar fortunas para sustentar parasitas trabalhados óleo da unção, e por aí vai. Viver livre desses e outros entraves existenciais é numa puta vantagem no nível individual. Agora me aponta um problema em ser ateu que não esteja relacionado a alguma fábula, mito ou historieta?
Conhecido crente: Nenhum problema. De fato, ateus não costumam ter amarras ou motivações religiosas ou proselitistas em suas ações. Mas, excetuando-se idiotas interesseiros como Malafaia e Feliciano, quantos mais evangélicos merecem, de fato, a classificação de perseguidores ou opressores, Sergio Viula? Você conviveu no segmento tempo suficiente para conhecer a modo de ação dos evangélicos.

Sergio ViulaTodos os que os sustentam (diretamente) e os que mantém a circulação dos discursos que sejam menos do que reconhecimento da dignidade de todas as pessoas, inclusive gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, sem nenhum “mas, porém, todavia”. NENHUM. O mesmo valendo para as religiões afro, para o folclore brasileiro, inclusive nas escolas, etc. Malafaia e Feliciano são só a ponta caricata do iceberg. É bem o contrário: a exceção é que destoa de tudo isso e ainda tem a coragem de desafiar esses hipócritas. São raríssimos.

(Fim da conversa)

Mas não basta ficar fazendo chacota das crenças. É preciso desenvolver textos (falados ou escritos) que colaborem para o esclarecimento daqueles que estiverem dispostos a ouvir e ler o que temos a dizer.

Na semana passada, por exemplo, eu estive na 1ª Conferência Internacional do [SSEX BBOX] em São Paulo (veja aqui como foi o encerramento). A minha fala foi sobre “Sexualidade, Cultura e Religião”. Vocês já podem imaginar o “babado” (hehehe). Falei dos dois armários dos quais saí praticamente ao mesmo tempo, mas que eram coisas bem diferentes: o da homossexualidade e o do ateísmo. Pude discorrer bastante sobre questões religiosas e sobre minha postura ateísta diante da vida e de tudo o que me circunda. Foi extremante estimulante ver a boa recepção, mesmo por parte daqueles que têm algum tipo de fé. Essa fala foi feita no contexto da polarização do laicismo versus fundamentalismo religioso e diversas nuances entre um e outro.

E, como em todo grupo social, os que têm alguma crença são a maioria, mas no caso dos participantes da conferência, parece que o fundamentalismo religioso está passando longe.

Aliás, penso muito sinceramente que o fanatismo religioso fará mais pela expansão do pensamento ateísta no mundo do que qualquer argumentação racionalmente construída. Há de chegar o dia em que as alegadas verdades reveladas e totalizantes serão vistas como absolutamente ridículas.

Assim, sigamos em frente, mas sempre defendendo o direito tanto à crença como à não-crença, enquanto combatemos as ideias extremistas e fascistas, que, por definição, são totalizantes, absolutizantes, uniformizantes e insuportavelmente antagônicas a qualquer projeto de liberdade. E digo liberdade aqui, pensando no direito de todo indivíduo à expressão de suas subjetividades e à realização de si mesmo, conforme suas mais profundas aspirações.

Chega de coerção e sufocamento!

E se for para sonhar com mundos melhores, sonhemos e trabalhemos para fazer desse mundo um lugar menos insuportável – o que significa mais livre, leve e solto. 😉


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