Ateu arranca 2 milhões de dólares de centro de recuperação religioso e provoca mudanças nas regras nas condicionais na Califórnia


Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA







Barry A. Hazle Jr., ateu, vence uma disputa de 2 milhões de dólares contra um programa religioso de reabilitação

Barry A. Hazle Jr., 46, cumpriu pena sob a acusação de posse demetanfetamina em 2007. O requisito para que desfrutasse da condicional era que ele se inscrevesse em um programa de tratamento para as drogas onde se exigia que os participantes reconhecessem um “poder superior”, de acordo com o [jornal] The Sacramento Bee.

Hazle reclamou e pediu um programa de tratamento diferente, mas disseram-lhe que a única opção na area era o programa religioso dos 12 passos da [organização] Westacare de acordo com o [jornal] Record Searchlight.

Hazle foi enviado de volta à prisão por mais três meses por alegadamente ser “disruptivo, embora de um modo adequado, para o pessoal, assim como para outros estudantes” e ser um “tipo de passivo-agressivo“, dizia o documento.

“Estou emocionado de ver esse caso finalmente decidido,” disse Hazle ao The Searchlight. “Ele envia uma mensagem clara às pessoas em posição de autoridade, como meu agente da condicional, por exemplo: que eles não ordenem programas religiosos para seus supervisionados em condicional, ou para qualquer outro, com essas questões.”

Hazle abriu o processo em 2008 e venceu, mas o júri se recusou a conceder-lhe indenizações. O 9º Tribunal do Circuito de Apelações então decidiu o caso. Numa sentença unânime, os três juízes do painel disseram que Hazle tinha direito à uma indenização.

O veredito do júri, que concedeu a Hazle uma indenização inteiramente por sua perda de liberdade, não pode ser suspenso,” escreveu o Juiz Stephen Reinhardt sobre a opinião da corte. “O júri simplesmente não tinha a prerrogativa de recusar quaisquer indenizações pela perda de de liberdade de Hazle como indisuputáveis – ou indisputadas — e aquele veredito em contrário tem que ser rejeitado.”

O estado da Califórnia pagará a Hazle 1 milhão de dólares, enquanto a centro Wetcare pagará 925.000 dólares de acordo com os termos da decisão, informa a KRCR-TV.

Hazle disse ao The Sacramento Bee que ele planeja tornar-se um ativista dos esforços locais para a recuperação para dependentes químicos.

O Departamento de Correções da Califórnia desde então publicou novas regras declarando que oficiais da condicional não podem exigir que seus supervisionados frequentem, programas religiosos.


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COMENTÁRIO DE SERGIO VIULA


Pessoalmente, fiquei muito entusiasmado e otimista com a atitude de Hazle e o desfecho dessa disputa judicial. O Estado torna-se mais laico, respeitador dos direitos fundamentais do ser humano, e os oportunistas religiosos ansiosos por qualquer trocado (e é muito dinheiro) do Estado ficam impedidos – pelo menos nesses casos – de fazerem manobras aparentemente piedosas para ganho pessoal e proselitismo religioso.

Não é de hoje que venho denunciando no Brasil o perigo desses centros de recuperação evangélicos e de matizes religiosos com práticas semelhantes.

No blog Fora do Armário, reproduzi a notícia de um homem gay chinês que ganhou (na China!!!) um processo contra uma clínica que pretendia transforma-lo em heterossexual, mas o torturava terrivelmente. Além do que, isso não tem nada de científico e nem de justificável sob qualquer outro ponto de vista: http://www.foradoarmario.net/2014/12/homem-gay-chines-processa-clinica-de.html

Em 2011, escrevi um texto sobre gente supostamente recuperada pedindo esmolas para centros de recuperação: http://www.foradoarmario.net/2011/05/da-escravidao-do-vicio-ao-vicio-da.html

Uma das mais chocantes notícias a que tive acesso foi essa: uma jovem equatoriana lésbica foi sequestrada e internada à força por ordem dos pais. Ela conta como conseguiu escapar e o que passou nesses dias de horror: http://www.foradoarmario.net/2013/06/equador-jovem-sequestrada-e-torturada.html

Concluindo, não colabore com esse sistema opressor. É obrigação do governo e da sociedade civil criar oportunidades de reintegração e recuperação genuínas para quem quiser se livrar das drogas. Quanto à diversidade das identidades de gênero e de orientação sexual, terapia de conversão está fora de qualquer questão , porque não é da ordem do patológico. Patológicas são as fobias construídas através de discursos preconceituosos contra a diversidade sexual e identitária dos seres humanos.

Gostaria de ver iniciativas diametralmente opostas às desses centros de neurose evangélica contra ateus, LGBT e pessoas de religiões minoritárias que realmente funcionem para a promoção da autonomia, da dignidade pessoal, da profissionalização e inserção no mercado de trabalho, como é o caso do True Colors Center, criado por Cindy Lauper em Nova York – um conceito totalmente novo e que nada tem a ver com esses depósitos de gente mantidos por pastores e crentes autointitulados curandeiros ou terapeutas.


CENTRO DE ACOLHIMENTO DA CINDY LAUPER EM NOVA YORK: http://www.foradoarmario.net/2011/09/cindy-lauper-vai-abrir-centro-para-lgbt.html



Republicado em 25 de outubro de 2016 antes de figurar aqui.

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