Afro-americanos não-crentes

Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA



Os Descrentes


Esse é o título de um artigo escrito por Emily Brennannov em 27 de novembro de 2011 e publicado posteriormente pelo The New York Times. Emily abre o artigo falando sobre a experiência de Ronnelle Adams ao sair do armário duas vezes, primeiro a respeito de sua homossexualidade, depois a respeito de seu ateísmo. Segundo, Ronnelle, morador de Washington que publicou um livro ateísta para crianças (“Aching and Praying”), ele havia considerado tornar-se um pastor batista quando estava no ensino médio. Adam conta como uma conversa com sua mãe acabou virando a chave para abrir o armário:

“Ela começou a me falar sobre suas questões com a homossexualidade, que eram, é claro, bíblicas.”

– Eu simplesmente não ligo para o que a Bíblia diz sobre isso, disse-lhe eu. Eu não acredito mais nessa coisa toda.

Tudo ficou em silêncio. Ela estava em conflito mental. “Ela me disse que havia ficado mais chateada com isso do que com a revelação de que eu era gay”.

Isso, de acordo com a escritora, isso foi em 2000, e Ronnelle Adams não encontrou outro ateísta negro em Washington até 2009, quando ele conheceu um grupo no Facebook chamado Ateístas Negros.

“Eu me senti, tipo, ‘100 ateístas negros? Uau!’”– disse ele.

Durante os dois anos seguintes, o grupo “Ateístas Negros” cresceu para 879 membros. Depoimentos via YouTub”e atraíram milhares. Blogs como “Godless and Black” (Sem Deus e Negro) ganharam seguidores, e centenas mais se juntaram a grupos do Facebook como o “Black Atheist Alliance” (524 membros) [Aliança de Negros Ateístas] onde eles compartilhavam suas lutas para “saírem do armário” sobre seu ateísmo.


Crédito: Ellen Weinstein


Sentindo-se isolados de amigos religiosos e excluídos do que significa ser um afro-americano, as pessoas passaram a buscar nesses sites aconselhamento e compreensão, com alguns deles inclusive iniciando namoros. E beneficiando-se desse momento online, organizações como African Americans for Humanism(Afro-americanos pelo Humanismo) e Center for Inquiry-Harlem(Centro de Pesquisa-Harlem) promoveram encontros ao vivo, com boa frequência, e outros como o “Black Atheists of America” (Ateístas Negros da América) e o “Black Nonbelievers” (Não-crentes Negros) foram fundados.

Afro-americanos são notavelmente religiosos até mesmo para um país conhecido por usa religiosidade, como são os Estados Unidos. De acordo com o Pew Forum 2008 United States Religious Landscape Survey (Pew Forum de 2008 – Pesquisa da Paisagem Religiosa dos Estados Unidos), 88 por cento dos afro-americanos acreditam em Deus com absoluta certeza, comparados ao total de 71 por cento da população que crê assim, e mais da metade deles frequenta cultos religiosos pelo menos uma vez por semana.

Apesar do Islamismo e outras religiões estarem representadas na comunidade negra, presume-se que um negro americano seja geralmente cristão.

Em 2008, diz a autora do artigo, John Branch fez seu primeiro vídeo no YouTube: “Ateísmo Negro”. Com a câmera bem próxima do rosto, o Sr. Branch, com 27 anos à época do artigo, perguntava: “O que é um ateu? Um ateu é simplesmente alguém que não tem uma crença em Deus.” E ele graceja: “Não estamos bebendo sangue. Não somos estamos adorando Satã.” O vídeo foi acessado por mais de 40 mil pessoas.

“Eu acho que isso atraiu tanta atenção porque, na comunidade negra, não acreditar em Deus é visto como uma coisa de gente branca,”disse o Sr. Branch, um estrategista de marketing na Raleigh, N.C.“Eu odeio esse termo, ‘agir como branco’, mas ele é usado.”


Jamila Bey conversando com Ronnelle Adams. Crédito: Andrew Councill para o The New York Times
De acordo com o instituto Pew, a vasta maioria de ateístas e agnósticos é de brancos, incluindo Richard Dawkins, Sam Harris and Christopher Hitchens.

Buscando um intelectual público de seu, alguns ateus negros têm reclamado o astrofísico Neil deGrasse Tyson, interpretando seus argumentos contra o ensino do “design inteligente” na sala de aula como um endosso ao seu ateísmo. Mas o Dr. deGrasse Tyson reluta em ser associado com qualquer parte do movimento. Quando contatado semana passada por e-mail, ele destacou uma interação pelo Twitter na qual ele disse, em agosto, a um seguidor: “Sou eu um ateísta? – você pergunta. Etiquetas são maneiras mentalmente preguiçosas pelas quais as pessoas garantem que o conhecem sem conhecê-lo de fato.”

Jamila Bey, uma jornalista de 35 anos de idade, disse: “Ser negro e ateu, em muitos círculos, é não ser negro.” Ela disse que a estória que a nação conta dos afro-americanos em sua luta por direitos civis é cristã, então os afro-americanos que rejeitam a religião são vistos como dando as costas à sua própria história. Apesar de reconhecer o papel das igrejas no movimento, a Sra. Bey problematiza a narração desse trabalho como obra divina. “Essas pessoas estavam usando a igreja, partindo de seus recursos, para atacar um problema e literalmente mudar a história. Mas a estória que é contada é que ‘Jesus nos libertou’.” – disse a Sra. Bey. “Francamente, foram humanos que fizeram todo o trabalho.”

Agora que os grupos no Facebook conectaram ateístas negros, encontros têm sido iniciados em cidades como Atlanta, Houston e New York.

Jamila Bey socializando. Crédito: Andrew Councill for The New York Times



“Alguém em cima do muro diz: ‘Eu vou à igreja, e todos os meus amigos e minha família estão lá. Como eu poderia sair?’ É aí que nós, como humanistas afro-americanos, dizemos: ‘Ei, olhe, nós temos uma comunidade aqui.’” – disse o Sr. Hatcher no palco.

Sentada ao lado do Sr. Hatcher estava sua namorada, Ellice Whittington, uma engenheira química de 26 anos de idade. Eles se conheceram através de um grupo ateu no Facebook.

Sobre ser um não-religioso na comunidade negra, a Srta. Whittington disse: “Definitivamente, isso torna seu campo de candidatos muito menor.”

Ela acrescentou: “Alguns homens se assustavam quando eu dizia: Não acredito em Deus do modo como você acredita. Eu ouvia as pessoas dizerem: ‘Como você pode amar alguém se você não acredita em Deus?’”

Outro ativista ateu é Wrath James, que tem um blog sobre ateísmo. Ele diz que a pressão que ele sente para calar seu teísmo está no centro dessa provocante declaração em seu blog: “Na maioria das comunidades afro-americanas, é mais aceitável ser um criminoso que vai à igreja no domingo, enquanto vende drogas para crianças durante toda a semana, do que ser um ateu que contribui com a sociedade e apoia sua família.”.


A pergunta que eu faço é a seguinte:

Apesar das diferenças entre o movimento negro americano e o brasileiro, das igrejas americanas e brasileiras e das comunidades ateias americana e brasileira, não é verdade que ateus passam por dramas parecidos e desenvolvem estratégias semelhantes? Qual será a representação da comunidade negra dentro da comunidade ateia no Brasil? Essas são questões que devemos investigar.

Leia o artigo na íntegra aqui:http://www.nytimes.com/2011/11/27/fashion/african-american-atheists.html






Republicado em 25 de outubro de 2016 antes de figurar aqui.

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