“A única coisa que nos liga como ateus é o ateísmo” – Sério?

Por Sergio Viula
Vez por outra, ouço algum ateu dizer que a única coisa que nos liga uns aos outros, como ateus, é o ateísmo que nos é comum. Mas será mesmo? Será que basta que alguém me diga que é ateu para que eu já me considere irmanado com ele?
Não penso assim. Explico por quê:
Esse é um pensamento tão sectarista quanto o de qualquer fundamentalista, visto que segue a mesma linha daquele mantra que diz “irmão vota em irmão”, não importando o que o “irmão” candidato está propondo ou como sua agenda afeta o “irmão” eleitor ou a sociedade como um todo.
Outra semelhança desse pensamento de que “basta ser ateu” com o pensamento de vários fundamentalistas é a ideia de que basta professar uma certa fórmula para que, automaticamente, sejamos uma comunidade. Não é verdade.
Por exemplo, a fórmula “creio em Deus Pai, todo poderoso, criador dos céus e da terra…” seria o mínimo que um cristão deveria professar para estar irmanado a todos os outros que, por dizerem o mesmo, são considerados cristãos como ele. Mas, na verdade, não basta. E a prova de que não basta dizer isso para ser considerado um cristão de fato, e que não basta ser cristão para ser bom é tem uma penca de católicos, evangélicos, adventistas, etc. praticando todo tipo de crime, abuso e violação por aí.
Do mesmo modo, não basta que alguém me diga que deuses não existem para que essa pessoa já desfrute de minha confiança e parceria. Se o ateísmo professado por esse indivíduo não resulta em mudanças com consequências pragmáticas que desvinculem essa pessoa dos “mantras” repetidos à exaustão por religiosos, sejam eles fundamentalistas ou não, então, esse indivíduo não me impressiona e nem se liga imediata e necessariamente a mim em função de sua não-crença. Em outras palavras, sua não crença não nos torna mais próximos do que seríamos se ele ainda cresse em alguma divindade.
Se um ateu continua alimentando crenças infundadas sobre como deve funcionar a vida, a sociedade e o indivíduo, como se o Gênesis ainda fosse uma cartilha que lhe diga como agir ou reagir, mesmo que ele tenha riscado todas as referências à divindade de seu código de ética, ele não é melhor do que um crente fundamentalista no que diz respeito ao seu modus operandi e a seu modus vivendi.
Dizer que deus não existe não faz a menor diferença se eu não faço um sério e profundo inventário de tudo o que eu herdei do meio social baseado nessa crença ou de tudo o que eu mesmo produzi a partir dessas interações culturais.
Que diferença faz se quem acende a fogueira é um ateu ou um católico?
Que diferença faz se o iconoclasta é um protestante ou um ateu?
Ou se o ditador é um católico como o Papa Leão X, que instituiu a Inquisição, ou um ateu como Stalin, que dominou a sociedade soviética ao custo de milhões de vidas?
Qual é a diferença entre um muçulmano que diz que a mulher é propriedade do homem e deve obedecê-lo, podendo ser punida pelo marido com castigos físicos (verdadeiras torturas), e um ateu machista que acha que a mulher existe para servi-lo?
Qual é a diferença entre um cristão que diz que a mulher foi feita para o homem, e qualquer outra relação amorosa é contra a natureza, e um ateu que diz que a homossexualidade é antinatural, apesar de todas as evidências em contrário em todos os ecossistemas e em todas as civilizações ao longo da história?
Qual é a diferença entre um muçulmano que mata em praça pública porque Alá faz justiça e um ateu que diz que bandido bom é bandido morto, repetindo o mantra bolsonariano? Vale lembrar que Bolsonaro e seus filhos assumem que são evangélicos, e o são de um modo que envergonha muitos evangélicos, que não lhes dão a destra de comunhão.
Qual é a diferença entre uma religião totalitária que dita como devem viver as pessoas em relação às suas liberdades individuais, criando polêmicas sobre coisas que não dizem respeito a mais ninguém, exceto aos próprios indivíduos que reivindicam essas liberdades, e um ateu que esculhamba qualquer um que não se encaixa em seu mundinho quadrado, herdado dessas mesmas religiões, e que ele nem percebe que são resquícios das mesmas em sua mente, apesar dele já ter riscado a figura de deus do meio de furdunço ideológico. É como a ressaca que atormenta, mesmo depois do alcoolizado ter jogado a garrafa fora.
Não basta ser ateu! É preciso rever TODOS os conceitos baseados em crenças e mitos perpetrados pela religião e outras ideologias geradas e paridas por elas.
É preciso desenvolver a capacidade de pensar racionalmente. Mas não só isso. É preciso pensar com um RAZÃO BEM INFORMADA.
Por isso, nem todo que me diz “não há deus” estará, necessariamente, irmanado comigo em função dessa fórmula papagaiada sem maior aprofundamento.
Por outro lado, há muitos religiosos que, apesar de crerem em deuses, estarão muito mais próximos de mim porque estão muito mais próximos do secularismo de fato do que muitos daqueles ateus citados anteriormente.
E qual será a pedra de toque que nos aproximará ou distanciará, a despeito da crença ou não-crença? Uma das respostas e, sem dúvida, uma das mais fundamentais é: Humanismo.
O que pensar de um ateu que bate palmas para maluco, e reproduz o discurso de Bolsonaro, Otávio de Carvalho e outros? Que nome se pode dar a essa incoerência, senão fanatismo ou miopia intelectual?
Se alguém me diz que reproduz o que dizem esses caras depois de ter refletido cuidadosamente sobre cada aspecto do que eles dizem, chegarei à conclusão de que a situação deles e ainda mais grave, restando pouca esperança de evolução pessoal para os tais, infelizmente.


Não consigo imaginar um Neil deGrasse Tyson, um Richard Dawkins, um José Saramago, um Christopher Hitchens, um James Randi, um Dráuzio Varella aderindo ao discurso desses fascistas, moralistas, macomunados com fundamentalistas e outros inimigos do livre pensamento e do humanismo secularista. Você consegue? E quem é que te inspira como ateu – estes gigantes do pensamento ou aqueles papagaios de sacristia? A resposta indicará quão livre ou quão escravo da religião e de seus subprodutos você ainda é. E não adianta apenas dizer da boca para fora que são esses gigantes que te inspiram se você continua repetindo os mantras daqueles lá.
Leia também: COMPAIXÃO: Por que isso incomoda tanto os fundamentalistas e outros totalitaristas?

  


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A face mutante do Diabo e sua utilidade para a igreja

Os fantasmas da (i)moralidade religiosa querendo assombrar o ensino de biologia

De onde vem essa história de que a carne é fraca?