A Forca, digo Força do Hábito


Por Sergio Viula
Originalmente publicado no AASA









Criamos um hábito e depois somos moldados por ele. A força do hábito é tamanha que pode até obstruir nosso pensamento. Por isso, é sempre muito difícil pensar fora da caixinha do habitual. Tanto que quando somos confrontados com alguma incoerência em nosso modo de pensar ou de agir, costumamos dizer “eu sempre pensei assim [ou sempre agi assim], não vou mudar agora”. Essa má vontade em pensar o próprio pensamento tem um quê de orgulho nocivo. Sublinho aqui o adjetivo nocivo para ressaltar que nem todo orgulho é necessariamente negativo, como querem as religiões mais piegas e controladoras.


Outro aspecto importante a destacar é que o hábito, quando compartilhado por muitos, parece legitimamente chancelado em razão da adesão da maioria – o que torna ainda mais difícil reconhece-lo como erro e abandona-lo.


Vejamos alguns exemplos:


Por força do hábito, muitos acham “normal” dar cantadas em mulheres desconhecidas no meio da rua; assediar colegas de trabalho; fazer piadas sobre características individuais de outras pessoas, tais como a cor da pele, o peso, a altura, a ascendência, a regionalidade, a orientação sexual, o gênero, a classe social, a idade, e por aí vai.


Por força do hábito, há quem pense que o “jeitinho brasileiro” sempre resolve tudo. Os mesmos indivíduos que se espantam quando um empresário “compra” um político para atingir seus alvos pessoais ou corporativos costumam não ver mal algum em subornar um agente da lei para escapar de possíveis penalidades decorrentes de alguma infração.


Por força do hábito, há quem encare a violência com naturalidade – tanto aquela que fere emocionalmente quanto a que perpetua relações de força hierarquizadas e cruéis e aquela que fere o corpo, muitas vezes resultando em óbito.


Por força do hábito, há quem continue financiando organizações que estimulam a segregação social com base em ideologias políticas, religiosas ou econômicas, sem sequer perceberem que toda rotulação separatista tem o potencial de atingir, em médio ou longo prazo, aquele que segrega, bem como aqueles que lhe são queridos. O tiro geralmente sai pela culatra.


Por força do hábito, mulheres atuam fielmente em igrejas que pregam o machismo patriarcal típico dos três maiores monoteísmos – o judaísmo, cristianismo e islamismo. Uma tremenda contradição.


Por força do hábito, há homossexuais que promovem o fundamentalismo religioso, apesar de serem continuamente esmagados por ele.


Por força do hábito, negros perpetuam o sincretismo religioso, sem perceberem nele a reafirmação das relações de dominação. Por que uma pessoa que “faz cabeça” num ritual africano tem que comparecer a uma missa dias depois como parte da “feitura de cabeça”? Por que legitimar o que é candomblecista através do catolicismo – a religião dos senhores de engenho, dos reis e dos inquisidores que violaram os negros expatriados de todas as maneiras possíveis? Vergonhosa chaga na história do Brasil, entre outros países.


Por força do hábito, há quem continue fazendo coisas nas quais nem acredita mais. A isso poderia ser acrescentado o medo da penúria que pode resultar da renúncia ao sacerdócio, ao ministério, à mediunidade ou a outras formas de compromisso com uma comunidade de fé. Aquele cuja dispensa é abastecida através de dízimos e ofertas não está livre das pressões do grupo. Entre estes, há os que nem acreditam mais no que pregam, mas não largam o púlpito por uma questão de comodidade ou de sobrevivência.


Por força do hábito, há quem repita frases ou comentários de outras pessoas que nem entendem, só porque isso soa super “revolucionário” ou super “piedoso”, mas não percebem que, tudo isso é apenas um sintoma de conservadorismo – uma das mais resistentes táticas de sobrevivência de hábitos que se recusam a morrer, apesar de já terem caducado sob muitos aspectos.


Qualquer pessoa que valorize o bom uso da razão deveria, antes de tudo, ser implacavelmente crítica de seus próprios hábitos. Perguntas são geralmente um bom começo: “Por que faço isso?”; “De onde vem esse hábito?”; “Quem disse que deveria ser assim?”; “Será que manter esse hábito pode colaborar para a perpetuação de relações injustas de poder na sociedade em que vivo?”; “Como posso abandonar esse hábito?”


Nossos hábitos seriam de somenos importância se fossem sempre tão inofensivos quanto dormir a “siesta” depois do almoço, mas muitos deles passam longe disso. Verdade é que alguns são perigosos inimigos do bem-estar humano e da paz social. Muitos incluem crueldade contra seres humanos e contra outros tipos de animais.


Ateus e agnósticos e demais livres pensadores, serão realmente livres quanto mais pensarem foram da caixinha de hábitos não racionalizados. É preciso pensar para transformar, não para reproduzir tradições ou crenças. Agora, não adianta transformar para pior. É preciso que seja para melhor, ou seja, tudo aquilo que viabilize a felicidade, garanta a boa convivência entre os humanos, e estabeleça as melhores relações possíveis entre estes e o meio ambiente. Esses três elementos, quando combinados, transformam qualquer sociedade e tornam a vida muito mais gostosa do que imaginamos habitualmente.


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* Sergio Viula foi pastor batista, é formado em filosofia, administrador do blog Fora do Armário www.foradoarmario.net, autor de Em Busca de Mim Mesmo, livro que fala sobre religião, sexualidade e ateísmo, é membro da Liga Humanista Secular do Brasil, e pode ser encontrado no Facebook em:https://www.facebook.com/sergio.viula




Republicado em 25 de outubro de 2016 antes de figurar aqui.

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